5 de outubro de 2009

Awake - Final

Seu mais novo instinto o mandava sair correndo. O instinto de ocultação, coisa nova para ele, criou um mar de sensações num minúsculo porém eterno microssegundo: ele queria sair correndo por ela ser sua amada, queria sair correndo porque ia fazer uma coisa horrível porém "necessária"; queria abraçá-la e beijá-la, tamanha saudade que sentia, queria contar a ela o que estava havendo, queria saber como estava seu pai e sua irmã...

Uma ordem o moveu para dentro do elevador, e ele se postou ao lado da namorada. Ela estava igualmente travada. Não sabia se chorava, se batia nele, se o beijava, se perguntava... só sabia que ambos desceriam no mesmo andar, quando ele fez menção de apertar o andar já iluminado. A tensão entre os dois podia cortar o ar, se permite o clichê. Quando saíram no andar solicitado, apenas eles desceram. Seguiram caminhando lado a lado e ouviram a porta se fechar atrás deles. Ela rompeu o silêncio:
 - O que está acontecendo? - rispidez, angústia e carinho estavam presentes neste som.
Ele não sabia o que dizer. Seus alvos estavam a poucos metros de distância e ele teria que explicar? Que outra chance teria?  O que fazer?
 - Eu não sei. Sei que tenho que colocar duas pessoas no meu lugar pra poder voltar.
 - O quê?
Ele parou, a encarou e disse:
 - Se afaste, confie em mim e volte ao hospital onde estou em coma. Tenho uma coisa pra fazer e não quero você aqui.
 - Mas eu...
 - Você terá uma explicação. Eu lhe darei. Mas agora não.
E saiu.
Ela estava sem saber o que fazer. Ele foi claro e muito sério no que dizia, quase intimidador. Ela resolveu voltar, mas queria ver o que ele iria fazer, se era tão sério assim. Se dirigiu até a escada de emergência, logo ao lado do elevador, mas se virou, no momento em que viu o que seu namorado fez.

Entre as cãmeras de vigilância, há espaços sem visão: partes do prédio onde alguns poucos metros são mal vigiados. No corredor que leva ao elevador do outro lado, havia um enorme espaço escuro, onde uma porta de mogno centenária escondia uma sala de limpeza e a entrada de sol. Atrás deles, vestido de residente, armado das seringas com sedativo, foi rápido e usou as duas mãos para injetar nos braços do pai e do filho. Quase instantâneamente, antes de chiarem de dor e susto, caíram desacordados.

Foram amparados pelo rapaz e levados, sem susto até a sala da limpeza. Ali, escondidos dos outros, receberam as outras injeções, e caíram em coma. O rapaz despiu o moleque, pegou suas roupas - favoritas - as embrulhou e colocou numa sacola. Saiu vestido como seu algoz, e saiu pela porta da frente. Levaria alguns minutos apenas para que se dessem conta que os dois não saíram dali, e umas duas horas para abrissem a sala da limpeza, ainda mais num andar mal vigiado.

Dobrou a esquina, viu sua moça no fim da rua. Ao chegar perto dela, sentiu uma coisa nova. Era uma sensação semelhante a que ele teve quando se viu acordado unido ao homem dormindo. Se sentia vazio. Olhou as mãos, e viu que estava translúcido, quase transparente. A namorada o olhava, em pânico, quando ele apenas disse:
 - Estou acordando.
E suas roupas caíram vazias no chão. A moça estava sem reação: vira-o desaparecer na sua frente, sumindo em poucos segundos. Pegou a sacola com as roupas dele, largou as roupas que ele vestia no chão e correu para onde ele deveria estar: numa cama deitado em coma.

Ela sabia que deveria mascarar sua face empalidecida de medo, por isso, corria. Ela sabia que não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que tudo estava relacionado: a velhinha, a primeira aparição dele na rua, as roupas no chão, as injeções de sedativo naqueles dois... de alguma forma, ainda que absurda, seus passos acelerados na rua acompanhavam a cadência com a qual ela pensava e juntava os fatos. Ofegante ainda, entrou feito um foguete no elevador que fechava a porta.

Nunca um elevador foi tão devagar.

Desceu no andar, correu pelo corredor e abriu abruptamente a porta. A mãe tomou um susto. Ele jazia, ainda, inerte e inexpressivo em seu silêncio. Sentou-se, ofegante, enquanto sua sogra perguntava o que aconteceu, sendo que nem ela ainda podia tranformar em palavras o absurdo que presenciara. Entregou-lhe a sacola de roupas e desabou no pequeno e desconfortável sofá. Frustração. "Estou acordando", ele disse. O que foi aquilo? Sua sogra saíra do quarto, para levar as roupas do filho para lavar, e ela adormeceu.

Acordou abruptamente, com a escuridão da noite. Viu a irmã deitada num colchonete no chão, em melhor conforte que o sofá. O quarto estava sem luz, apenas com a mínima claridade vinda de fora. Seus olhos se habituaram á pouquíssima luz, e logo passou a se lembrar do que lhe acontecera: seu namorado em coma acordado na sua frente, no outro hospital, armado de seringas. Viu ele desaparecer dentro das roupas, na sua frente. O ouviu claramente, e se lembrava da frase "estou acordando", ecoar nesses pedaços de lembrança.

Desviou o olhar do nada e voltou-se para a cama: aparelhos deligados, fios dependurados e o cobertor revirado, mostrando o lençol e as marcas de presença ali. Ainda estava quente. Atônita, acordou sua cunhada, que começou a tremer de felicidade. Não havia nada no banheiro. Ao saírem, viram um homem na sala de espera, com a janela aberta, expressão cansada de alguém que não se mexeu por um tempo diferente do normal, e um copo com chocolate quente na mão. Mal se contiveram, e correram pra abraçar o recém-chegado rapaz, ainda frágil, mas de volta.

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O dia seguinte, pessoas e mais pessoas lhe fizeram comemorações. Ele olhava pra sua namorada com ar de cumplicidade. Em dois dias, recebeu alta e foi pra casa. Ela nunca mais perguntou nada sobre aquele dia, nem ele nunca mais tocou no assunto. Eram 7 horas da manhã quando entrou finalmente no carro de seu pai e foi levado pra casa.

Pela janela do carro, ele viu um garoto de uns 18 anos, bem trajado, com expressão perdida, sair pela porta dos fundos do outro hospital.