18 de setembro de 2009

A Vingança pertence ao Senhor

Ela foi estuprada por um seminarista de uma igreja totalitarista e rica. Tudo ia bem no namoro até ver um pregador expôr os problemas e regras violentas de igrejas severas, e ela tentou, inocentemente, mostrar isso ao seu namorado, um seminarista dessa denominação. A fé que as mulheres tem na mudança de seus homens a tornaram uma pessoa a ser combatida.

Ao término desse namoro, ele a chamou pra conversar um dia. A discussão virou um estupro. Apenas uma amiga a ajudou. Ela descobriu-se grávida. Teve que trancar a faculdade. Jovem e bela, agora infeliz e envergonhada. Passou a ser ameaçada caso fosse á polícia denunciar seu algoz; várias ligações amedrontadoras das pessoas da igreja.

Suspendeu seus sonhos. Tinha agora um filho pra dar á luz e criar. Tinha que fugir da cidade pra não sofrer mais ameaças e ou sofrer alguma agrura física, uma vez que até o pastor a estava ameaçando com "coisas que podem acontecer a uma mulher e seu filho na rua, pois essas coisas acontecem".

Mas, olha só: o pastor que ela assistira e que a fizera raciocinar sobre sua igreja estendeu a mão, contou a outros e agora tinha uma legião de pessoas prontas para ajudar essa moça. Na casa dos pais da única amiga que sobrou, a mesma que a socorreu quando foi estuprada, ganhou carinho, amizade, confiança e segurança. Esse mesmo pastor - famoso até - a encontrou e foi falar com ela, pessoalmente, e levou consigo pessoas pra ajudar: um empresário que lhe deu um emprego conforme suas habilidade, jovens da igreja para amizade, uma bolsa de estudos na faculdade, um advogado para iniciar o processo legal para prender o seminarista e expôr o pastor. O rosto dessa jovem se iluminou: haviam cristãos no meio dos crentes.

Dez anos se passaram desde aquele incidente. Um menino bonito e forte brinca com as crianças da rua, enquanto sua diligente mãe o observa, sentada na calçada de uma calma rua, conversando com outras mulheres. A jovem era agora o braço direito daquele empresário, que viu na alquebrada moça uma pessoa a ser ajudada, e ele foi abençoado com isso: ganhou uma auxiliar e uma pessoa de confiança, coisa rara hoje em dia. O menino nasceu, e foi amado, mesmo com tudo conspirando contra. A mãe nunca falou do pai, mas ele entende isso, e por causa das orações e da diligência da mãe, não sente falta de um. O jovens da igreja cresceram e se casaram, e esse menino ganhou amiguinhos, que com ele corriam atrás de bola naquele sábado.

Quanto ao processo, correu tudo discretamente, e aquela moça foi o gatilho para que inúmeros casos não só daquela denominação como de outras da mesma linha aparecessem: seu pioneirismo e coragem jogaram homens como aquele seminarista violento atrás das grades, e sabem muito bem o que fazem com estupradores e molestadores na cadeia. Ela não foi atrás dele, ela não o humilhou nem ligou pra ele, nem lhe dirigiu a palavra: deixou o processo, os depoimentos escritos, os testes de DNA, o juiz e o Juiz julgarem esse caso. Ela não tirou dinheiro dele, aliás, pediu que não lhe mandasse dinheiro, nem que assumisse o menino: pediu, apenas que o reconhecesse.

Para tanto, só se viram novamente no tribunal, que ficou cheio de crentes em apoio do novo pastor da igreja, que estava lá acompanhado do pastor dele, o mesmo homem que queria encobrir o caso. Ambos foram julgados, após várias interrupções para "proclamar vitória" e outras manifestações ridículas, sempre mitigadas pelos guardas ao redor. E ambos foram presos, condenados e pagaram uma pequena fortuna. O caso foi para a mídia, os nomes dos dois foram pra lama, a igreja minguou, várias moças reclamaram assédios e paternidades, outras igrejas tiveram problemas semelhantes e por 2 anos, a Justiça pipocou com assuntos sexuais e evangélicos.

Quem a vê hoje, não diz que ela é a moça aviltada e humilhada. Deus a colocou num pedestal, e hoje, seus filhos são mais numerosos que o de sua vizinha, e as crianças a chamam de tia. Todos amam a tia, tanto que é a única casa que não foi assaltada na rua, pois mesmo os meliantes a conhecem, e alguns até almoçaram em sua casa. Na igreja, não uma "ex" nada: senta-se e ouve o que o pastor têm a dizer, e é uma cristã. Decidiu não se casar, pois não viu razão pra isso.

Alguns diriam que ela contibuiu para denegrir ainda mais a já péssima imagem dos crentes; outros, que sua coragem a fez limpar um pouco as igrejas. Ela sorri. Deus a consolou, ela perdoou e Ele foi justo. Quanto ao dinheiro recebido, ela não usa; mas está guardado pro futuro. Um dia, ela sabe, alguma mulher vai aparecer, aviltada e violada por alguém da igreja. E quando isso acontecer, essa moça vai estar lá, pronta pra ser a cristã que ela aprendeu a ser.

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Em homenagem a esta moça. Não posso mandar dinheiro, nem estar lá presente, mas posso orar por ela, e fazer uma narração.

Desejo-lhe, do fundo da minha alma, que Deus a console e te dê paz, e que Ele levante sobre você a luz do Seu rosto, e que você esteja com ele hoje e sempre.

Ainda há esperança. Ainda há um Deus.