24 de setembro de 2009

O horror dos "desviados"

Se tem uma coisa que não aceitamos, como "crentes", é que haja quem discorde de nós e abandone nossa fé. Tal ato, que chamamos de "desviar da igreja" é tido como imperdoável, pois "como ele pode sair da igreja? Deus vai cobrar" e frases de efeito. Não aceitamos que alguém possa abandonar a fé tão pura em Jesus, não podemos "compreender" como alguém pode sair pro "mundo" depois de "experimentar" Jesus. Se aceito, é pra sempre, alguns de nós diriam.

Mas, verdade seja dita, há mais motivos pra mandarmos a igreja ás favas que pra nos mantermos nela. Quando vemos familias que incentvam muito mais seus filhos a serem ativos na instituição, enchendo suas agendas com atividades na igreja, e até mesmo não ligando pro trabalho ou pro estudo, depois não entendemos como aquele jovem não seguiu na vida, se ia tão bem na igreja. Fora o que ocorre debaixo dos panos: as pequenas coerções, as pequenas humilhações, as pequenas disputas... tudo velado, pois a igreja é sagrada. Não se atinge nada, e quem ousa revelar a sujeira embaixo do tapete é sinceramente expulso ou jogado no canto. "Pra quê tanto negativismo?", alguns diriam.

E quando alguém abertamente diz que abandonou a fé e está muito bem sem ela, pra nós é a morte. Que o diga Ju Dacoregio, do Heresia Loira. A bela moça (ô coisa linda!) foi crente e se mandou. Bastou colocar posts explanando sobre sua "desconversão" que seu blog inundou de crentóides querendo que ela se reconvertesse, se "arrependesse" e coisas assim. Tá certo que em certos momentos, ela pede demonstrações banais de Deus, como os problemas de violência que enfrentamos. Eu até poderia me demorar em explicar que Deus não vai fazer nada pois esse tipo de coisa - a correção das coisas erradas - é função da igreja, e eu sei que ela me inundará com mais um outro mar de bons argumentos.

Alguns a respeitam, como Volnei Faustini e Pavarini, que são seus espectadores e até lhe mandam livros. Mas, honestamente, ela não vai voltar se não tiver uma boa razão pra isso. Gostamos de acusar pessoas como ela, mas e as que têm uma vida absolutamente normal e não-cristã e vão na igreja e ocupam ministérios? "Ao menos ainda estão na igreja e podem se converter", puristas vão dizer. Mas, quem não se importa, não vai ouvir nada do que o pastor vai dizer, se está pensado no bar, na balada ou na noite de fogo que há de vir após o culto acabar. Essa gente age de forma hipócrita. Quem tem coragem de assumir que não liga e sai, devia ser aplaudido.

Os desviados, como gostamos de chamar, são o atestado de otário mandado para nós numa bela carta e impresso em alto-relevo, mostrando que não estamos fazendo o que devíamos. Não usamos o intelecto para criar belas obras, ou para sermos úteis á causa, mas sim para cantar músicas que pouco significam e nada fazermos em prol de quem realmente precisa.

Há hoje uma nova safra de desviados. Há os de sempre sim, os que abdicam da fé para terem uma vida normal, mais "leve" e sem as regras pesadas da igreja. Essa nova safra está se reunindo em casa, com outros revoltados, mas que não vão deixar sua fé. Há quem se revolte contra Deus, ao ver que sua principal representante aqui na terra é bem incompetente. E há quem se revolte contra a representante, gerando algo de bom.

Para Ju Dacoregio, uma taça de vinho. Tinto, cabernet-sauvignon, meu favorito. Ela teve coragem de assumir que não queria mais aquilo pra si e se foi. E tem inteligência suficiente pra saber rebater a multidão de crentes que aparecem em seu blog.