4 de setembro de 2009

Awake - Parte 5

A mãe tricotava uma blusa, e cada medida no corpo do filho, uma esperança de despertar era exalada na respiração. O pai, no entanto, notou algo que não condizia com o normal. O corpo de seu filho não estava relaxado. Seus músculos continuavam em estado de alerta, como se ele estivesse acordado. Algo não estava certo.

- Vamos diga, quanto você quer? - O homem estava impaciente. Aquela garota que se dizia namorada do atropelado mal sabia o que dizer. Ele sabia sim.
- Meu filho não vai ser preso. E se você denunciar, eu vou processá-la e acabar com a sua raça! - Ele sabia que era mentira, uma vez que bastava pra ela ir á Polícia com os dados e uma prisão seria feita.
"Mas," pensou ela, "estamos no Brasil. E esse moleque vai sair e isso não vai deixar de ser uma lembrança ruim".
- Porque acha que eu quero dinheiro?
- ???
- Não vim aqui te extorquir. Vim aqui saber quem é você, e saber porque não se manifestou quando soube do atropelamento.
- O que eu vou dizer? Que eu não criei o menino e apenas o entupi de presentes? Que ele é um imprestável que só sabe viver ás minhas custas? Só o fato de você estar aqui me mostra que ainda outras de você virão, e um dia, logo, uma virá grávida. Mas até lá - ele assinou um cheque - pegue isso. Deve dar pra consertar o que puder no seu namorado e ainda viverem bem. Não terão problemas porque o cheque é meu, e sabem quem eu sou. Agora vá embora daqui.
Ela se retirou e entrou no carro. Abriu o cheque e viu a quantia. Uma frase monetária e enorme e vários zeros, desses que nunca pessoas normais conseguiriam fazer. Suspirou. Sabia que isso não era o que os pais dele esperam.

- Quem é você? - o rapaz perguntou.
- Sou o avô daquele rapaz. Por favor, não o traga pra cá.
- E se eu o trouxer?
- Trarei alguém muito caro a você pra cá.
- É isso? uma ameaça? Porque isso?
- Porque é assim.
Num lampejo rápido, o rapaz olhou o velho: roupas finas, ar altivo. Ao parecia, era um guardião da família, que não deixava que outros fizessem mal áqueles entes. O rapaz, imediatamente, começou a mentir, dizendo que nada tinha, e tudo o que queria era voltar ao normal e ver sua família. O velho, irredutível, argumentava sobre a proteção dos entes e tal. O rapaz pareceu concordar e se resignar.
Chegou ao centro da cidade e desceu. Numa Lan-House, rapidamente descobriu quem era aquela família rica, e quem era o velho. Numa busca simples nos melhores hospitais, descobriu onde estava o velho em coma. Era perto dali. O homem estava guardando sua família. O rapaz queria voltar. Teria que trazer duas pessoas para aquela situação.

A namorada nada disse aos sogros sobre o cheque estratosférico que recebera. Estava com um elefante nas mãos. Mas pensou: não roubou, não matou e não pediu. Isso era o passaporte pra vida dos sonhos. Além do que, era muito mais que qualquer processo que porventura pudesse começar contra aquela rica família, e de qualquer forma, jamais resultaria em prisão. Qual o limite ético? fazer o certo e processar ou aceitar a injustiça de modo lucrativo? Não podia pagar por um advogado. Não tinha como processar ninguém. Não tinha dinheiro. Era uma simples mulher jovem, trabalhando mais do que recebia.

No hospital, estava diante do velho homem em coma. Se tinha uma coisa que o rapaz, não tolerava era ser ameaçado. E já que ia trazer alguém pra esse lado, porque não duas pessoas? Porque não uma das acompanhantes vulgares do moleque? Ou, quem sabe, o pai dele? Não se sentia mal de estar ali com aquele intuito. Precisava garantir a segurança dos seus. Mas tinha um preço.