1 de setembro de 2009

Awake - Parte 4

Uma pousada pulguenta no meio do centro da cidade lhe forneceu cama. Ao acordar, os papéis do atropelamento, da multa e da intimação. Sabia quem procurar. Vestiu sua jaqueta e partiu.

A namorada estava entrando no hospital quando viu uma jaqueta de couro muito conhecida passar do outro lado da rua. Os trajes daquela pessoa eram simplesmente idênticos aos do seu namorado atropelado. "Devo estar vendo coisas", pensou ela.
Ao entrar no apartamento, viu seu namorado inerte ainda, e perguntou á sogra onde estavam as roupas dele.
- Pensei que tivesse levado pra casa, ela disse.
- Não, eu não. Você não levou?
- Claro que não.
E é iniciada uma busca pelas roupas do homem em coma. Duas mulheres um tanto irritadas corriam atrás das roupas, especialmente, da cara e rara jaqueta de couro que ele tanto gostava.

Chegou ao endereço indicado. Era uma mansão linda, portentosa, vários carros na garagem e dentro de um condomínio fechado. Eram 7 da manhã, hora em que os empregados entram pra trabalhar. Uma mão leve aqui, uma xavecada de longe ali e logo estava dentro do condomínio, como um motorista. Encontrou tamanha mansão vazia. "Normal", pensou ele, "essa gente tem tanto e ninguém pra compartilhar por medo".

Chegou á garagem e ali estava um belo Mercedes Benz SLK Kompressor, lindo, preto, com o parabrisas estilhaçado e sua grade abalroada. Era um modelo antigo, por isso os faróis redondos. Não haviam marcas de sangue, nem de limpeza. Ao entrar no carro, notou o cheiro de whisky e bacurinha, calcinhas no banco de trás e latas de cerveja. O carro só precisava de alguns milhares de reais em um conserto simples e uma boa lavagem nos bancos de couro. Pensou eu levar o carro, mas achou por bem não fazer isso.

A namorada, cansada de procurar, foi ao Detran verificar qualquer coisa sobre o acidente, e obteve as mesmas informações que o rapaz. Lembrou-se da figura vestindo a jaqueta. Ninguém usaria as mesmas roupas daquele jeito senão aquele rapaz, especialmente seu andar inclinado pra frente. Usando o carro da mãe, foi á mansão.

Dentro da casa, ele viu que era muito limpa, mas triste. Não sabia muito mais do que adultos longínquos um do outro. Roubou algum dinheiro que achou na escrivaninha, algumas jóias e um celular novo, já que o seu foi destruído. De volta ao lado de fora, apresentou seu crachá e tomou um ônibus, o raro que ali passava a cada hora cheia.

Ela dobrou a esquina a tempo de ver o ônibus partindo do ponto do condomínio. Entrava em sua frente, um belo carrão importado. Pediu pra entrar, e foi anunciada na casa. Ela foi recebida por um homem de 55 anos, esbaforido mas classudo. Quando ela lhe disse a razão da visita, seu rosto perdeu a cor.
- Você é a namorada daquele cara?
- Sim. Peguei os dados no Detran. Semáforo foi um radar.
- Mas porque isso? Foi um acidente.
- Sabe muito bem que não foi.
- E tem como provar? - Ateísmo e ceticismo não eram o forte daquele homem.
- O Detran tem a fita de três ângulos. Eu as vi, e foi premeditado.
Um suspiro forte. Ele não tinha escapatória.
- Meu filho acabou de tirar a carta. Vai, me diz quanto você quer que eu pago, e você some da minha frente.

No ônibus, ao sentar-se, um vovô bem trajado saiu de seu lugar e foi sentar-se ao seu lado. O rapaz estranhou. O homem disse apenas: "não mate meu neto".