27 de setembro de 2009

Awake - Parte 7

Sentada num banco do corredor, a namorada via os médicos atestando o óbito da velhinha simpática. Eles estranharam as roupas caídas ao lado da cama, mas aquilo era um hospital, o lugar onde milagres e estranhezas gostavam de se manifestar. Perguntaram á moça, que apenas gaguejou; sua mente estava a mil por hora, em elucubrações sobre o que vira nesses dias: um homem perfeitamente igual seu namorado na rua, trajando as mesmas roupas do dia do atropelamento, enquanto ela o vira, poucos minutos depois, inerte na cama do hospital. Perguntava-se se era possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. O corpo da velhinha e as roupas no chão nada diriam.

Ele aguardava. Os médicos corriam para tentar ressucitar o velhote, e a máquina de ressucitação fora acionada umas sete vezes. Afinal, um hóspede rico daquele rendia bons dividendos de aluguel de quarto e cuidados, e ele morto não valia nada pra eles, mas devia valer pra família. Não demorou muito para que o pai e o filho - sendo este último o responsável pelo coma do rapaz - estivessem presentes para ouvir do médico principal a notícia do óbito. O garoto não fez menção e desdenhou de qualquer informação, e o pai se fazia de forte: afinal, seu pai morto e seu filho um imbecil, a família estava á deriva.

Foi quando o rapaz se lembrou de uma coisa que a velhinha lhe havia dito: as coisas se ajeitavam por si mesmas. Cabia a ele apenas intervir em um deles. Bem, o rapaz sabia que tinha que trazer um pra poder sair dali, e agora dois, uma vez que despachou o velho. Mas não sabia como fazer aquilo funcionar. Mas ora vejam só: isso aqui é um hospital, tem tudo o que se precisa pra colocar um ser humano em estado total de invalidez. Uma busca dentro do hospital e encontrou vários pacientes em coma induzido, ou seja, durmindo sob ação de substâncias. Uma dose mais alta, e cai em coma profundo. Eles ainda iam se demorar no hospital. Jovem ainda, jamais convenceria ser um médico, mas sim um residente inexperiente e ansioso. E num hospital grande, quem se lembra se são tantos rostos?

Ninguém soube dizer á irmã o que acontecera. Um homem a perseguia e depois sumia dentro das próprias roupas. Deixou coisa boa pra trás, que os faxineiros trataram de não deixar na seção de achados e perdidos, especialmente a correntinha e o anel, de ouro em alto grau de pureza. Ainda se refazendo do susto, a namorada entrava no quarto. Ao saber a história, imediatamente associou ao estranho sumiço por ela presenciado há pouco tempo. Haveria alguma relação?

Conseguiu, após algum esforço, encontrar os documentos do sumido. O rosto era igual ao do homem que a subornara, bem como o sobrenome. Dados médicos são fáceis de encontrar em hospitais, e estes se comunicam, especialmente sobre pacientes trasnferidos e medicações a serem administradas, e assim sendo, logo encontrara o hospital onde o homem sumido estaria, sem que ela soubesse que encontraria um cadáver. Era perto dali, e sem cerimônia, foi até lá.

Uma porta trancada no bem vindo horário da janta, um manual de instruções e o rapaz tinha um kit com seis seringas, separadas por cor: amarela, para dormir; azul para induzir o coma; preto, para aprofundar o trauma. Era o suficiente para mandar os dois, para ele voltar á vida e os médicos reverterem tudo, uma vez que não houve nada de mais grave, apenas substâncias específicas, ele julgava. Colocou as seringas num estojo e saiu da sala, trancando-a novamente. Apertou o botão do elevador, para subir, e terminar o que viera fazer.

Ao que o elevador abriu suas portas, haviam cinco pessoas. Dois médicos, um casal e ela. Sua namorada.

24 de setembro de 2009

O horror dos "desviados"

Se tem uma coisa que não aceitamos, como "crentes", é que haja quem discorde de nós e abandone nossa fé. Tal ato, que chamamos de "desviar da igreja" é tido como imperdoável, pois "como ele pode sair da igreja? Deus vai cobrar" e frases de efeito. Não aceitamos que alguém possa abandonar a fé tão pura em Jesus, não podemos "compreender" como alguém pode sair pro "mundo" depois de "experimentar" Jesus. Se aceito, é pra sempre, alguns de nós diriam.

Mas, verdade seja dita, há mais motivos pra mandarmos a igreja ás favas que pra nos mantermos nela. Quando vemos familias que incentvam muito mais seus filhos a serem ativos na instituição, enchendo suas agendas com atividades na igreja, e até mesmo não ligando pro trabalho ou pro estudo, depois não entendemos como aquele jovem não seguiu na vida, se ia tão bem na igreja. Fora o que ocorre debaixo dos panos: as pequenas coerções, as pequenas humilhações, as pequenas disputas... tudo velado, pois a igreja é sagrada. Não se atinge nada, e quem ousa revelar a sujeira embaixo do tapete é sinceramente expulso ou jogado no canto. "Pra quê tanto negativismo?", alguns diriam.

E quando alguém abertamente diz que abandonou a fé e está muito bem sem ela, pra nós é a morte. Que o diga Ju Dacoregio, do Heresia Loira. A bela moça (ô coisa linda!) foi crente e se mandou. Bastou colocar posts explanando sobre sua "desconversão" que seu blog inundou de crentóides querendo que ela se reconvertesse, se "arrependesse" e coisas assim. Tá certo que em certos momentos, ela pede demonstrações banais de Deus, como os problemas de violência que enfrentamos. Eu até poderia me demorar em explicar que Deus não vai fazer nada pois esse tipo de coisa - a correção das coisas erradas - é função da igreja, e eu sei que ela me inundará com mais um outro mar de bons argumentos.

Alguns a respeitam, como Volnei Faustini e Pavarini, que são seus espectadores e até lhe mandam livros. Mas, honestamente, ela não vai voltar se não tiver uma boa razão pra isso. Gostamos de acusar pessoas como ela, mas e as que têm uma vida absolutamente normal e não-cristã e vão na igreja e ocupam ministérios? "Ao menos ainda estão na igreja e podem se converter", puristas vão dizer. Mas, quem não se importa, não vai ouvir nada do que o pastor vai dizer, se está pensado no bar, na balada ou na noite de fogo que há de vir após o culto acabar. Essa gente age de forma hipócrita. Quem tem coragem de assumir que não liga e sai, devia ser aplaudido.

Os desviados, como gostamos de chamar, são o atestado de otário mandado para nós numa bela carta e impresso em alto-relevo, mostrando que não estamos fazendo o que devíamos. Não usamos o intelecto para criar belas obras, ou para sermos úteis á causa, mas sim para cantar músicas que pouco significam e nada fazermos em prol de quem realmente precisa.

Há hoje uma nova safra de desviados. Há os de sempre sim, os que abdicam da fé para terem uma vida normal, mais "leve" e sem as regras pesadas da igreja. Essa nova safra está se reunindo em casa, com outros revoltados, mas que não vão deixar sua fé. Há quem se revolte contra Deus, ao ver que sua principal representante aqui na terra é bem incompetente. E há quem se revolte contra a representante, gerando algo de bom.

Para Ju Dacoregio, uma taça de vinho. Tinto, cabernet-sauvignon, meu favorito. Ela teve coragem de assumir que não queria mais aquilo pra si e se foi. E tem inteligência suficiente pra saber rebater a multidão de crentes que aparecem em seu blog.

18 de setembro de 2009

A Vingança pertence ao Senhor

Ela foi estuprada por um seminarista de uma igreja totalitarista e rica. Tudo ia bem no namoro até ver um pregador expôr os problemas e regras violentas de igrejas severas, e ela tentou, inocentemente, mostrar isso ao seu namorado, um seminarista dessa denominação. A fé que as mulheres tem na mudança de seus homens a tornaram uma pessoa a ser combatida.

Ao término desse namoro, ele a chamou pra conversar um dia. A discussão virou um estupro. Apenas uma amiga a ajudou. Ela descobriu-se grávida. Teve que trancar a faculdade. Jovem e bela, agora infeliz e envergonhada. Passou a ser ameaçada caso fosse á polícia denunciar seu algoz; várias ligações amedrontadoras das pessoas da igreja.

Suspendeu seus sonhos. Tinha agora um filho pra dar á luz e criar. Tinha que fugir da cidade pra não sofrer mais ameaças e ou sofrer alguma agrura física, uma vez que até o pastor a estava ameaçando com "coisas que podem acontecer a uma mulher e seu filho na rua, pois essas coisas acontecem".

Mas, olha só: o pastor que ela assistira e que a fizera raciocinar sobre sua igreja estendeu a mão, contou a outros e agora tinha uma legião de pessoas prontas para ajudar essa moça. Na casa dos pais da única amiga que sobrou, a mesma que a socorreu quando foi estuprada, ganhou carinho, amizade, confiança e segurança. Esse mesmo pastor - famoso até - a encontrou e foi falar com ela, pessoalmente, e levou consigo pessoas pra ajudar: um empresário que lhe deu um emprego conforme suas habilidade, jovens da igreja para amizade, uma bolsa de estudos na faculdade, um advogado para iniciar o processo legal para prender o seminarista e expôr o pastor. O rosto dessa jovem se iluminou: haviam cristãos no meio dos crentes.

Dez anos se passaram desde aquele incidente. Um menino bonito e forte brinca com as crianças da rua, enquanto sua diligente mãe o observa, sentada na calçada de uma calma rua, conversando com outras mulheres. A jovem era agora o braço direito daquele empresário, que viu na alquebrada moça uma pessoa a ser ajudada, e ele foi abençoado com isso: ganhou uma auxiliar e uma pessoa de confiança, coisa rara hoje em dia. O menino nasceu, e foi amado, mesmo com tudo conspirando contra. A mãe nunca falou do pai, mas ele entende isso, e por causa das orações e da diligência da mãe, não sente falta de um. O jovens da igreja cresceram e se casaram, e esse menino ganhou amiguinhos, que com ele corriam atrás de bola naquele sábado.

Quanto ao processo, correu tudo discretamente, e aquela moça foi o gatilho para que inúmeros casos não só daquela denominação como de outras da mesma linha aparecessem: seu pioneirismo e coragem jogaram homens como aquele seminarista violento atrás das grades, e sabem muito bem o que fazem com estupradores e molestadores na cadeia. Ela não foi atrás dele, ela não o humilhou nem ligou pra ele, nem lhe dirigiu a palavra: deixou o processo, os depoimentos escritos, os testes de DNA, o juiz e o Juiz julgarem esse caso. Ela não tirou dinheiro dele, aliás, pediu que não lhe mandasse dinheiro, nem que assumisse o menino: pediu, apenas que o reconhecesse.

Para tanto, só se viram novamente no tribunal, que ficou cheio de crentes em apoio do novo pastor da igreja, que estava lá acompanhado do pastor dele, o mesmo homem que queria encobrir o caso. Ambos foram julgados, após várias interrupções para "proclamar vitória" e outras manifestações ridículas, sempre mitigadas pelos guardas ao redor. E ambos foram presos, condenados e pagaram uma pequena fortuna. O caso foi para a mídia, os nomes dos dois foram pra lama, a igreja minguou, várias moças reclamaram assédios e paternidades, outras igrejas tiveram problemas semelhantes e por 2 anos, a Justiça pipocou com assuntos sexuais e evangélicos.

Quem a vê hoje, não diz que ela é a moça aviltada e humilhada. Deus a colocou num pedestal, e hoje, seus filhos são mais numerosos que o de sua vizinha, e as crianças a chamam de tia. Todos amam a tia, tanto que é a única casa que não foi assaltada na rua, pois mesmo os meliantes a conhecem, e alguns até almoçaram em sua casa. Na igreja, não uma "ex" nada: senta-se e ouve o que o pastor têm a dizer, e é uma cristã. Decidiu não se casar, pois não viu razão pra isso.

Alguns diriam que ela contibuiu para denegrir ainda mais a já péssima imagem dos crentes; outros, que sua coragem a fez limpar um pouco as igrejas. Ela sorri. Deus a consolou, ela perdoou e Ele foi justo. Quanto ao dinheiro recebido, ela não usa; mas está guardado pro futuro. Um dia, ela sabe, alguma mulher vai aparecer, aviltada e violada por alguém da igreja. E quando isso acontecer, essa moça vai estar lá, pronta pra ser a cristã que ela aprendeu a ser.

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Em homenagem a esta moça. Não posso mandar dinheiro, nem estar lá presente, mas posso orar por ela, e fazer uma narração.

Desejo-lhe, do fundo da minha alma, que Deus a console e te dê paz, e que Ele levante sobre você a luz do Seu rosto, e que você esteja com ele hoje e sempre.

Ainda há esperança. Ainda há um Deus.

15 de setembro de 2009

Awake - Parte 6

Sentado, diante da janela do hospital, o pai bebia um capuccino. Era um vago e pequeno momento de descanço, onde se permitia em nada pensar, apenas olhar o céu cinzento escurecendo, um dia típico de primavera. Após esse breve descanço sob a luz do ocaso, voltou á luz artifical da sala, onde começou a pensar:
"Pelo que foi descrito, era um moleque num carro de rico. Nem adianta procurar, porque o pai vai tirar o menino da prisão, vai rir da minha cara e o tratamento nada lhe vai custar, e o pior: pode até suspender o tratamento, deixar meu filho morrer e o processo vai durar anos e anos. Que droga. Meu filho quase morto e eu nada posso fazer."

No elevador, a namorada é gentil e aperta o andar o qual uma velhinha simpática pediu-lhe favor. A velhinha notou o semblante atônito e perturbado da moça e perguntou o que houve. Como fazia um tempom que não conversava com ninguém, contou-lhe do rapaz, do atropelamento, e do cheque. A velhinha sorriu.
 - Seu namorado vai voltar.
 - Como pode saber? A senhora não sabe...
 - ...eu sei.
E a porta abriu. A porta ainda permitiu que a namorada visse essa velhinha entrando numa sala á esquerda, perto do elevador. Incomodada, e ainda sem resposta, desceu no andar e desceu de volta pela escada, afim de tirar satisfação com a velhinha.

Do lado de fora do prédio, a irmã do rapaz chega com alguns pacotes. São roupas e afins para seus pais, que não saem do hospital mais. O tempo parecia andar muito rápido, pareciam dias e dias, quando se passaram menos de 3. Concentrada em manter-se equilibrada, um vovô a espia na esquina, certo de que terá que lançar mão de algum ardil para preservar seu neto.

O rapaz estava diante de um homem na terceira idade, com pernas atrofiadas e mãos dormentes, mas que ainda assim era recohecível. Era o avô de seu algoz, que o pôs em coma. Nunca havia tirado a vida de ninguém antes, mas, se pra tudo há uma primera vez, isso não seria problema. Se entrar foi fácil, disfarçado de estagiário usando um crachá roubado, sair não demandaria muitos problemas, pois como provar a veracidade se ele estava em coma? Começou a falar:
 - Eu não vou ficar aqui, nesta situação, vendo minha vida passar e eu tendo que viver escondido das pessoas que eu amo.
Imediatamente, enquanto entra no prédio atrás da irmã, o velhinho ouve a voz e reconhece: é o rapaz que ele encontrara no ônibus. Ele estava falando com sua contraparte dormente; estava em perigo.
"Como eu deixei isso acontecer?" Disparado e ofegante, começou a suar e a fraquejar. Seu corpo em coma em igual modo sofreu com a adrenalina, e o monitor do coração disparou.
 - Está com medo, velho? Achou mesmo que eu ia aceitar isso enquanto você protege aquele projeto de gente?
E o rapaz colocou os eletrodos em seu próprio peito, o que evitaria que os médicos aparecessem, mas não evitaria o pior. Enquanto isso, o velho perseguia sua irmã, no corredor do hospital, e ela não notava. Uma simples agressão mandaria o recado. Ou ele até a poderia matar, como uma forma de vingança. Milhares de pensamentos fortes o deixavam atônito, pois passou anos se julgando poderoso e invencível, mesmo depois de ficar preso numa cama. E agora, longe dos seus, não conseguia avançar muito atrás da jovem, devido ás descargas de nervosismo e medo.
 - Vou fazer com que fique longe da minha família, seu desgraçado. E aproveite, pois logo seu amado neto te fará companhia, lá no inferno. O rapaz empunhou um travesseiro mas algo estava errado: ao velho já faltava ar, os movimentos eram poucos e estranhos e logo se acalmou. Ficou totalmente inerte. Com um estetoscópio ao lado, auscultou-o. Silêncio. Põs as mãos nas narinas; nenhum ar. Repôs os eletrodos, e o monitor acusou o óbito. A luz na entrada acendeu, indicando o problema, mas um simples toque no botão e tudo foi desligado. Levaria algum tempo até que fosse achado. Não foi preciso de forma alguma asfixiá-lo, apenas uma provocação e pronto.

Ao chegar ao andar, a namorada conseguiu encontrar uma senhora diante de uma pessoa em coma, mas não conseguiu fazer nada ao vê-la desligar os aparelhos. E presenciou uma morte de uma velhina inconsciente e a queda e esvancimento de uma velhinha simpática. A senhora simplesmente desapareceu no ar, deixando as roupas caírem no chão.

A irmã ouviu uma respiração ofegante a alguns metros de si e viu um homem bem trajado e suando cair para a esquerda, abrindo abruptamente uma porta. Ela correu em seu socorro, e quando chegou, apenas roupas e um anel de ouro estavam no lugar. Tremendo de medo, branca como papel, ela entrou no quarto de seu irmão dormindo.

4 de setembro de 2009

Awake - Parte 5

A mãe tricotava uma blusa, e cada medida no corpo do filho, uma esperança de despertar era exalada na respiração. O pai, no entanto, notou algo que não condizia com o normal. O corpo de seu filho não estava relaxado. Seus músculos continuavam em estado de alerta, como se ele estivesse acordado. Algo não estava certo.

- Vamos diga, quanto você quer? - O homem estava impaciente. Aquela garota que se dizia namorada do atropelado mal sabia o que dizer. Ele sabia sim.
- Meu filho não vai ser preso. E se você denunciar, eu vou processá-la e acabar com a sua raça! - Ele sabia que era mentira, uma vez que bastava pra ela ir á Polícia com os dados e uma prisão seria feita.
"Mas," pensou ela, "estamos no Brasil. E esse moleque vai sair e isso não vai deixar de ser uma lembrança ruim".
- Porque acha que eu quero dinheiro?
- ???
- Não vim aqui te extorquir. Vim aqui saber quem é você, e saber porque não se manifestou quando soube do atropelamento.
- O que eu vou dizer? Que eu não criei o menino e apenas o entupi de presentes? Que ele é um imprestável que só sabe viver ás minhas custas? Só o fato de você estar aqui me mostra que ainda outras de você virão, e um dia, logo, uma virá grávida. Mas até lá - ele assinou um cheque - pegue isso. Deve dar pra consertar o que puder no seu namorado e ainda viverem bem. Não terão problemas porque o cheque é meu, e sabem quem eu sou. Agora vá embora daqui.
Ela se retirou e entrou no carro. Abriu o cheque e viu a quantia. Uma frase monetária e enorme e vários zeros, desses que nunca pessoas normais conseguiriam fazer. Suspirou. Sabia que isso não era o que os pais dele esperam.

- Quem é você? - o rapaz perguntou.
- Sou o avô daquele rapaz. Por favor, não o traga pra cá.
- E se eu o trouxer?
- Trarei alguém muito caro a você pra cá.
- É isso? uma ameaça? Porque isso?
- Porque é assim.
Num lampejo rápido, o rapaz olhou o velho: roupas finas, ar altivo. Ao parecia, era um guardião da família, que não deixava que outros fizessem mal áqueles entes. O rapaz, imediatamente, começou a mentir, dizendo que nada tinha, e tudo o que queria era voltar ao normal e ver sua família. O velho, irredutível, argumentava sobre a proteção dos entes e tal. O rapaz pareceu concordar e se resignar.
Chegou ao centro da cidade e desceu. Numa Lan-House, rapidamente descobriu quem era aquela família rica, e quem era o velho. Numa busca simples nos melhores hospitais, descobriu onde estava o velho em coma. Era perto dali. O homem estava guardando sua família. O rapaz queria voltar. Teria que trazer duas pessoas para aquela situação.

A namorada nada disse aos sogros sobre o cheque estratosférico que recebera. Estava com um elefante nas mãos. Mas pensou: não roubou, não matou e não pediu. Isso era o passaporte pra vida dos sonhos. Além do que, era muito mais que qualquer processo que porventura pudesse começar contra aquela rica família, e de qualquer forma, jamais resultaria em prisão. Qual o limite ético? fazer o certo e processar ou aceitar a injustiça de modo lucrativo? Não podia pagar por um advogado. Não tinha como processar ninguém. Não tinha dinheiro. Era uma simples mulher jovem, trabalhando mais do que recebia.

No hospital, estava diante do velho homem em coma. Se tinha uma coisa que o rapaz, não tolerava era ser ameaçado. E já que ia trazer alguém pra esse lado, porque não duas pessoas? Porque não uma das acompanhantes vulgares do moleque? Ou, quem sabe, o pai dele? Não se sentia mal de estar ali com aquele intuito. Precisava garantir a segurança dos seus. Mas tinha um preço.

1 de setembro de 2009

Awake - Parte 4

Uma pousada pulguenta no meio do centro da cidade lhe forneceu cama. Ao acordar, os papéis do atropelamento, da multa e da intimação. Sabia quem procurar. Vestiu sua jaqueta e partiu.

A namorada estava entrando no hospital quando viu uma jaqueta de couro muito conhecida passar do outro lado da rua. Os trajes daquela pessoa eram simplesmente idênticos aos do seu namorado atropelado. "Devo estar vendo coisas", pensou ela.
Ao entrar no apartamento, viu seu namorado inerte ainda, e perguntou á sogra onde estavam as roupas dele.
- Pensei que tivesse levado pra casa, ela disse.
- Não, eu não. Você não levou?
- Claro que não.
E é iniciada uma busca pelas roupas do homem em coma. Duas mulheres um tanto irritadas corriam atrás das roupas, especialmente, da cara e rara jaqueta de couro que ele tanto gostava.

Chegou ao endereço indicado. Era uma mansão linda, portentosa, vários carros na garagem e dentro de um condomínio fechado. Eram 7 da manhã, hora em que os empregados entram pra trabalhar. Uma mão leve aqui, uma xavecada de longe ali e logo estava dentro do condomínio, como um motorista. Encontrou tamanha mansão vazia. "Normal", pensou ele, "essa gente tem tanto e ninguém pra compartilhar por medo".

Chegou á garagem e ali estava um belo Mercedes Benz SLK Kompressor, lindo, preto, com o parabrisas estilhaçado e sua grade abalroada. Era um modelo antigo, por isso os faróis redondos. Não haviam marcas de sangue, nem de limpeza. Ao entrar no carro, notou o cheiro de whisky e bacurinha, calcinhas no banco de trás e latas de cerveja. O carro só precisava de alguns milhares de reais em um conserto simples e uma boa lavagem nos bancos de couro. Pensou eu levar o carro, mas achou por bem não fazer isso.

A namorada, cansada de procurar, foi ao Detran verificar qualquer coisa sobre o acidente, e obteve as mesmas informações que o rapaz. Lembrou-se da figura vestindo a jaqueta. Ninguém usaria as mesmas roupas daquele jeito senão aquele rapaz, especialmente seu andar inclinado pra frente. Usando o carro da mãe, foi á mansão.

Dentro da casa, ele viu que era muito limpa, mas triste. Não sabia muito mais do que adultos longínquos um do outro. Roubou algum dinheiro que achou na escrivaninha, algumas jóias e um celular novo, já que o seu foi destruído. De volta ao lado de fora, apresentou seu crachá e tomou um ônibus, o raro que ali passava a cada hora cheia.

Ela dobrou a esquina a tempo de ver o ônibus partindo do ponto do condomínio. Entrava em sua frente, um belo carrão importado. Pediu pra entrar, e foi anunciada na casa. Ela foi recebida por um homem de 55 anos, esbaforido mas classudo. Quando ela lhe disse a razão da visita, seu rosto perdeu a cor.
- Você é a namorada daquele cara?
- Sim. Peguei os dados no Detran. Semáforo foi um radar.
- Mas porque isso? Foi um acidente.
- Sabe muito bem que não foi.
- E tem como provar? - Ateísmo e ceticismo não eram o forte daquele homem.
- O Detran tem a fita de três ângulos. Eu as vi, e foi premeditado.
Um suspiro forte. Ele não tinha escapatória.
- Meu filho acabou de tirar a carta. Vai, me diz quanto você quer que eu pago, e você some da minha frente.

No ônibus, ao sentar-se, um vovô bem trajado saiu de seu lugar e foi sentar-se ao seu lado. O rapaz estranhou. O homem disse apenas: "não mate meu neto".