25 de agosto de 2009

Awake - Parte I

Aquelas luzes brancas redondas enormes cresceram rápido demais. E o sinal estava verde pra ele. Mas garotões de 18 anos com síndrome de Carmageddon acham divertido atropelar trouxas na rua, mesmo que o sinal esteja fechado para ele e que o radar tenha pego a placa, o modelo do carro e um corpo voando anormalmente perto da câmera.

Desacordado, ele nada sentia. Não ouviu sua namorada berrar de horror e susto, não viu um monte de gente se aglomerar em volta dele, sem nada fazer e apenas elucubrar idiotamente o ocorrido e fofocar; não ouviu seus amigos improvisando uma tala pra preservar sua coluna e pescoço e mandando um bando de crentes pós-culto saírem da frente; não ouviu uma ambulância chegar, nem sentiu o balanço irritado do carro com sirene ligada, ou sua namorada tremendo, fosse de frio ou adrenalina. Nada. Um enorme silêncio estava instaurado.

Sua moça era esperta. Ligou pro plano de saúde ao invés do SAMU, o que fez com que uma ambulância chegasse mais rápido ao local do acidente e ao hospital. Lá, ela ligou pra família dele, temerosa, pois sua companhia lhes era odiosa. Um diálogo curto, simples e direto:
 - Oi, eu estou no hospital, o Júlio foi atropelado - ela disse.
 - ONDE??? - seu sogro nunca estivera tão exasperado.
 - Na frente da igreja. Estávamos saindo do culto, e um carro pegou ele. O carro tava errado, avançou sinal vermelho e fugiu. Não deu pra pegar a placa.
 - Qual hospital?
 - Padre Anchieta, no centro da cidade.
 - Já chego aí.
Ela mal podia acreditar. Ainda trêmula, se sentou. Os médicos a levaram pra o quarto onde ele ficaria, para que pudesse esperar a cirurgia terminar. Logo, havia uma legião de pessoas, parentes, amigos da família, amigos dele, querendo uma explicação.

Sua mãe estava em prantos. Sua irmã a consolava, muito embora seus olhos inchados denotassem tristeza. Seu pai estava ocupado falando com os presentes a história que sua futura nora lhe contara quando chegaram.

Na sala de cirurgia, médicos comentavam sobre o causador, a causa e a vítima. Lamentavam ser um homem jovem, mas se animaram: seus ossos sofreram trincas e não quebra. Dois pinos na perna esquerda e 2 meses de fisio e tudo estaria como antes. Mas o problema não foi esse:

 - Senhor? - Perguntou o médico - O senhor é o pai dele?
 - Sim, sou eu. - A tensão entrecortava a voz daquele homem.
 - A cirugia foi muito simples: apenas um osso da perna esquerda foi trincado, agora pusemos um par de pinos de platina, que nem precisam ser retirados, para garantia. - Uma expressão de alívio no pai - Mas há um problema. Ele bateu muito forte com a cabeça. Não houve danos visíveis, mas não sabemos a extensão do problema do choque.
 - O que significa?
 - Que seu filho não está dormindo. Está em coma profundo. Pode acordar a qualquer instante. Daqui 20 minutos, quando a anestesia passar, ou daqui 20 anos. Jamais saberemos. Eu sinto muito. - A frieza da profissão retirou o médico, e deixou o pai com o espírito arrebentado. Logo, os presentes começariam uma choradeira, seja real ou seja fingida.

A namorada, sentada longe, orava. E quando viu seu rapaz indo pro quarto, numa mesa de cirurgia, sendo posto na cama, recebendo as agulhas pra alimentação intravenosa e finalmente coberto por um cobertor branco, sentiu que as pernas mal a seguravam, e quase caiu. Sentou-se, e um gemido fino foi tudo o que era possível ouvir dela. Sua face contorcida deu aos pais desse rapaz o atestado de amor que eles duvidavam que ela poderia dar. Recebeu, em troca, o abraço da irmã.

Quando finalmente as pessoas se retiraram, e o silêncio se fez ali, os batimentos cardíacos do mais novo dorminhoco do hospital aumentaram. Logo, ele abriu os olhos. Sentou-se na cama, e se sentia leve, diferente de sentir a gravidade. Olhou para seus braços, e eles tinham uma aparência estranha.

 - Que porra é essa?

Era uma aparência translúcida, como se ele fosse um.... espírito? Olhou pra trás, e viu a si mesmo deitado, frágil e amarelo na cama. Pôs os pés no chão, e sentiu-se novamente pesado. Sua aparência agora era a de um humano comum. Chegou perto do homem deitado e sua mão a qual o tocava se fundiu com ele.

Não havia explicação. Ele estava acordado. Mas ele dormia. Notou que ele tinha carne, pois mordeu seu dedo e saiu sangue, e sua contraparte dormente sangrou igualmente. Tentou o truque da Kitty Pride, mas ele era tangível. Era carne como qualquer humano. Sem qualquer explicação, pois ele sabia que não teria, tirou o traje cirúrgico e se vestiu. Orgulhoso, sabia que devia haver alguma razão, mas agora estava com fome. Sabia que tinha que ser discreto, então se mandou pela escada de incêndio, acobertado por um jaleco branco sobre sua roupa.

Ganhou a rua. Sentiu o ar. As pessoas desviaram dele. Eram 6 horas da manhã. Ninguém lhe daria um arroz e bife, mas um misto quente e um pingado sim, é claro. E saiu andando.