28 de agosto de 2009

Awake - Parte 3

Sabendo que não poderia aparecer em casa, uma vez estar em coma e acordado não faz sentido, tomou as devidas providências para não ser notado, e iniciou sua empreitada no dia seguinte.

Pela manhã, aguardou na rua ver seu pai, saindo de casa com o carro. Seu rosto estava abatido. Algumas horas depois, saía sua mãe. Pela primeira vez, em anos, ela usava óculos escuros. Muito embora sua expressão normal fosse de enfado e irritação, a aparência contorcida dos lábios e as sombrancelhas caídas denotavam um estado de tristeza.

Mas algo estava errado ainda.
"Vou atrás do cara que em atropelou. Deve haver alguma coisa."

No hospital, sua mãe e sua namorada se encontraram no quarto onde ele jazia em coma. Sua mãe trouxera um bordado, e sua namorada lia um livro em voz alta. Para surpresa de sua mãe, era um livro que seu filho gostara muito; Ortodoxia, de Chesterton. Surgiu uma espécie de cordialidade entre ambas, pois embora mal resolvidas, estavam unidas por um ideal: o de ver o rapaz acordar.

Ao pagar o táxi, flashes rápidos passaram por sua mente, quando olhou o local onde o carro o agredira. Passeou pela rua, examinando os detalhes, e tentando encaixar as imagens distorcidas de uma memória em pedaços com aquilo que via. Conseguiu resultados quando se colocou onde estava naquela noite: pouco mais avançado que a linha dos carros, mas não no meio da rua. Notou que a rua era larga o suficiente para que seu acidente não ocorresse com freqüência, e que era calma mesmo ás 6 da tarde.

Concluiu que seu atropelamento fora de propósito. As luzes redondas eram comuns em carros novos e modernos, por conseqüência, caros. Olhou pra cima e mais evidências da premeditação: um semáforo com câmera, que só nunca se desligava. Com a data, hora e local do que houve, foi ao Detran.

Notou-se aumento nas batidas cardíacas do rapaz em coma. Sua cabeça se moveu várias vezes, como se estivesse perturbado. Havia atividade cerebral intensa. Desesperadas, as duas mulheres procuraram conter o rapaz, algo relativamente difícil quando se é pequena e feminina, contra um homem de quase 100 quilos. Médicos apareceram, e não souberam explicar o que estava havendo.

- Essa atividade indica que sua mente está trabalhando; disse o médico.
- O que significa? perguntou a mãe.
- Que ele devia ter acordado.

Um traço de esperança passou pela mente de ambas, pois aquilo era um indício. Sem saberem o que fazer, quase se jogaram sobre seu ente querido, e tentavam obter resposta. Mas ele voltara ao seu profundo silêncio.

Já anoitecia. Estava cansado e precisava dormir, mas não havia lugar pra ele. Mas antes de tudo, voltou ao hospital, onde sua mãe dormia no sofá, velando o sono do filho. Viu-se outra vez deitado em coma. Notou que perto do homem deitado, voltava a ser etéreo. Acariciou sua mãe, cobriu-a e se retirou. No corredor, enquanto fechava suavemente a porta, trombou com uma velhinha. Desculpou-se e saiu, mas olhou ao lado, e pela porta aberta, viu essa mesma velhinha deitada em coma.

- Ei, espere - disse ele - a senhora também está em coma!
- É a terceira vez. Creio que seja a última.
- Como... como......?.....
A velhinha sorriu. Pegaram um café na máquina, na sala de espera, e ela começou.

- Tenho diabetes. Eu descobri que pessoas em coma, algumas, podem vir a perambular entre os vivos, mas não podem mais acordar como um só.
- Hein??
- Para acordar do coma, quando seu corpo está bom, você precisa achar quem possa assumir seu lugar, ou mesmo, morrer para que você volte á vida.
- Por que isso??
- Por que você é agora apenas alma. Esse corpo que você tem não é seu, mas está lá inerte. Sua alma se desprendeu, mas como você não morreu, ainda está aqui. E a pessoa no seu lugar é pra manter o equilíbrio.
- Equilíbrio de que?
- Equilíbrio das almas. As nossas estão afetando o equilíbrio, pois ou vamos ao Sheol ou ao Hades. Não podemos perambular aqui, só algumas pessoas podem. E como tais, precisamos achar quem possa morrer ou assumir nosso lugar.
- E porque não consigo me aproximar de minha família? Porque tenho o instinto de me esconder?
- Porque deve ser assim. Se quiser, pode viver assim pra sempre, como muitos vivem. Mas longe de suas vidas antigas.
- O que a senhora fará?
- Vou providenciar o desligamento dos meus aparelhos. Já passei da hora, já trouxe três pessoas pra cá, e agora chega.
- Como que as pessoas vêm pra cá?
- Vindo. É a ordem das coisas.

E a velhinha se retirou.