26 de agosto de 2009

Awake - Parte 2

Ao lado da padaria onde ele toma seu café da manhã - deleitando-se a cada mordida e gole - passou um carro cujo destino era o hospital. Em suas mãos, materiais de higiene pessoal, roupas e flores. A mãe e o pai se encarregaram do banho no homem em coma, a irmã distribuia as flores no quarto, e juntos, eles o vestiram. Não muito, pois homens em coma não têm controle sobre a bexiga.

Saíram e foram cuidar de suas vidas, cada um em seu trabalho e estudo. Na recepção, um certo receio de dar passe livre á namorada dele. Mas foi dado.

Durante o dia, os temores dos anos em coma, da vida perdida e outros temores pairaram sobre os amigos e familiares desse rapaz. Havia uma aura negra que envolvia-lhes a vista, e que causava peso sobre os ombros. As palavras mal ditas, as ações mal feitas... tudo parecia cooperar para um sentimento coletivo de culpa. Como se ele tivesse morrido sem poder ser enterrado. Pensamentos como eutanásia percorreram levemente - jamais falados ou manifestados - as mentes crentes de pessoas comuns.

Ele agia como se estivesse em férias: sua empresa não demitiria um homem em coma, certo? então, ele foi pra casa, tomou um banho, trocou de roupa e fez o almoço. Resolveu inovar, e fez macarrão com algum molho que sua mãe fazia. Não pensou - muito - na estranheza de uma refeição feita sendo que não estavam lá. Mas quem vai explicar? que invadiram a casa? em plena luz do dia?

A moça, namorada desse cara, mal conseguia trabalhar. Um misto de raiva, tristeza, amargura, amor e desespero a fazia perder a cabeça a cada 20 segundos, quando olhava de relance as fotos na mesa. Havia algo de inacabado, de reticiências, de esperança ainda naquele sorriso.

Enquanto isso, o rapaz andava pelo centro da cidade, uma pessoa comum, no meio da multidão, sorridente. Nem pensava em voltar á cama, e acordar. Mas resolveu fazer uma visitinha aos seus entes. Queria saber se realmente devia acordar ou se podia saquear seu quarto e sumir pra sempre.

Começou por seus amigos. Uns, nem notavam sua ausência, mas seus dois amigos, havia algo ali. Um deles, se fazia de forte. Não chorava, não lamentava. Mas estava prestes a entregar seus pequenos deslizes: uma fofoca, uma desconfiança, uma omissão, um esquecimento. O outro seguia com uma fé estranhamente altaneira, como se soubesse que seu amigo voltaria. Mas isso não o isentava se sentir mal.

Foi até sua namorada. Tomou os cuidados para não vê-lo e para tal, era apenas mudar as roupas e usar um boné. Barba feita ajudava, pois eles sempre se viam quando sua barba estava de sete dias. Na saída de seu trabalho, ela vinha a pé pra casa, sozinha. Olhava pro céu, pro chão, pros lados, pra trás, como se esperasse um sinal. Sua olheiras estavam profundas, e seu semblante abatibo mostrava cansaço.

"isso em um dia apenas... imagine um mês." pensou ele.

E com isso em mente, foi ver seus pais.