25 de abril de 2009

1ª Cruzada de Contra-Evangelismo


Venha participar. Vamos libertar as mentes das amarras da religião!
Dias 20 e 21 de Maio, no Anhembi, no lado de fora do evento do Ministério Diante do Trono.

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Fico me perguntando se algum dia teremos uma resposta no mesmo nível dos eventos de crente. Sim, essa frase ficou forte. Não que eu queira acabar com os evangelismos, pois nós, crentes, gostamos da idéia de uma perseguição contra nós no futuro. Gostamos da idéia que a imprensa em geral nos odeia, que somos preteridos pela Rede Globo, que não somos chamados para dar testemunhos no Programa do Jô, que nossos esforços para mudar o mundo são sabotados pelos incrédulos, que nos odeiam ao osso.

Mas meu coração se irrequieta quando vejo uma amiga escolher seu ex-namorado traidor, achando que é isso que deve ser. Que não tem como ser melhor. Quando vejo uma moça balzaquiana de rara beleza sair com homens diferentes a cada fim de semana, dizendo que o amor não lhe cabe, e confiando mais na endorfina que no valor a si mesma. ver um amigo se enfiando num relacionamento condenado, que lhe trará mais dor que a atual. Como vou falar de Cristo pra eles? Mas acho que a melhor pergunta seria, como fazer alguma coisa por eles? Como lhes ser útil?

Quando me lembro que Cristo nos mandou amar aos outros, e lhes tratar como queremos ser tratados, a primeira coisa que me vê á cabeça é um colega de faculdade, que aos 36 anos fazia sua primeira graduação, após ter passado por tudo. Cresci vendo pessoas se julgando velhas aos 20 anos. E tenho visto pessoas fazendo bobagens adolescentes aos 45. Mas esse meu amigo, Wellington, me mostrou como tratar as pessoas com deferência, com finesse. Como pedir truco e seis com estilo, a chamada "roubadinha do vovô". E acha que ele vai na igreja? A vida o entalhou. Sei que ele teve seus momentos de arrogãncia e prepotência, posis todos temos. Mas ele soube aproveitar as lições.

Há hoje os papos sobre a chamada "Igreja Emergente". Sites sobre isso você vai encontrar até mesmo aqui ao lado. Mas algo está errado quando falamos de movimentos cristãos. Me sinto meio ridículo falando isso, mas eu tenho visto tanta gente malhar a igreja evangélica, que eu passo a pensar em como malhávamos a igreja Católica. Eles não nos reconhecem como seus irmãos, e nem nós eles. Mas o que se tem feito efetivamente para mudar as coisas? Temos amado? temos sido úteis?

Essa noite eu tenho uma balada forte pra ir. Eu vou. Já vi tantas catarses coletivas que uma a mais não vai fazer diferença. Sempre dizemos que as pessoas têm um vazio no peito, que Jesus vai preencher esse vazio. Mas e a Graça? Mas e o Arrependimento, o ato de entender a lei que vai te matar, mas que vai te conduzir ao perdão divino? Como falar disso pras pessoas na fila da boate? Como convencê-las disso se ás vezes nem o interlocutor se convenceu?

O evento que entitula esse post é um devaneio próximo. Tal qual houveram esforços evangelísticos no Rock'n Rio, que eu quase fui, e ainda existem em bairros, eu me peguei imaginando pessoas dando folhetos dando argumentos convincentes aos crentes da fila. E alguns sairão. E esses serão desprezados por seus amigos, postos de lado pela família, preteridos no emprego... o ciclo continua. Digo que é um evento próximo por causa do Atheist Bus, em Londres. Os ateus se organizam, e logo virão nos enfrentar.

Eu não sei se estou certo, provavelmente não, mas eu prefiro ouvir as pessoas dizendo que eu sou um bom amigo, um cara que te escuta ou ao menos se esforça pra isso, do que um chato carola que vê pecado em tudo. Servir as pessoas com algo real, com um ato, é mais recompensador que ter uma síndrome de perseguição. Eu vi que o amor é um movimento, e que ele não pára. Estar lá pras pessoas é melhor que estar lá pra um prédio.

19 de abril de 2009

Fiel

Uma das qualidade de Deus é sua capacidade de cumprir o que promete. Falamos de sua fidelidade, mas pouco entendemos o que é isso.

Imagine um dia em que você está afundado na própria culpa, se mortificando por seus erros: as pessoas que enganou, humilhou, usou... se lembrando do que roubou, furtou... imagine um dia em que todos resolveram te acusar, te desmerecer. Imagine que um dia, tudo isso aconteça com você.

Num dia desses, quem é Deus? Ele é o cara que está sentado no outro lado da praça, olhando pra você com um olhar diferente. Ele sabe, melhor do que os seus acusadores, quem você é, e sabe com detalhes sórdidos o que você fez. Ele é o cara que poderia liderar aqueles homens, dando a eles mais gasolina na fogueira que armaram. Ele é fiel. Fiel o suficiente pra esperar que você vá até Ele, e que você peça que seus acusadores saiam; pois o pior acusador é o teu próprio espelho. Esse não tem remédio.

Ele aguarda. Ele está agachado na sua cômoda, vendo você chorar sozinho. Sua oração nunca vai passar do teto, pois que a está ouvindo não está lá, mas bem do seu lado. Ele é fiel. Fiel porque te deu este dia, e não fez com que tudo o que te atormenta te transforme em cinzas. Ele é fiel. Ele nunca deixou de cumprir uma promessa. Você é um cara que sabe quem é seu redentor? Ele vai cumprir o que prometeu, e você não vai ter que pedir comida pro seu vizinho. Ele é fiel.

Fiel pra esquecer o que você fez de errado. Fiel pra escrever um DANE-SE bem grande em sangue santo sobre os parágrafos onde seus pecados foram escritos. Fiel. Fiel pra te amar todos os dias. Mais  que Darwin. Fiel pra deixar que você pense por você mesmo. Ele é fiel. Fiel ao ponto de nunca ter te deixado sofrer mais do que você poderia agüentar, pois ele sabia que você iria crescer um pouco mais. O Demônio ia fazer bem pior, acredite. Mas Ele é fiel.

Olhe pra cima. Vai chover? Por que está xingando? Ele é fiel e faz essa chuva afagar a terra que dará de comer pra você e pra quem O odeia. Ele é fiel, e faz a parte Dele todos os dias, ao dar um novo dia pra você e pra mais um monte de gente. Fiel. Ele está bem aí.

Ele é fiel. Ao ponto de aceitar qualquer desqualificado no Santo dos Santos sem o queimar. Além do véu? Mas que véu? Os trapos que ficaram dependurados? Ele é fiel. Fiel pra aceitar aquele desgraçado inveterado vir chorar e se mostrar um homem pequeno perto do que ele vê Deus fazer. Fiel pra aceitar o louvor pífio e muito mais exibicionista que adorador. Fiel pra ver que o cara da boca fechada está mais perto do átrio santo que o dançarino na sua frente.

Ele é fiel.

Dia após dia, com coisas extraordinárias sem fim. A sua mão me sustenta, e não deixa que eu me ferre todos os dias. Ele nunca deixou de ser o mesmo Deus que fez coisas impressionantes no Velho testamento, nunca vai deixar de ser; a única diferença é que naquele tempo as pessoas eram muito mais dependentes de sinais que hoje. Pleno perdão ele traz, paz e a segurança de uma vida mais leve. Ele é fiel. Dia após dia. A sua mão me sustenta e me guarda. Ele é fiel. Ele é fiel. E o mais incrível de tudo. Fiel a mim.

15 de abril de 2009

Maus dias

De tempos em tempos, há uma conjunção de fatos que nos abalam emocionalmente, causando problemas internos - como angústia, tristeza, solidão e amargura - como problemas externos - falta de atenção, mau comportamento, palavras grosseiras, etc.

Eu tive uns dias assim no fim de fevereiro. Sabe quando o demoninho pena de si mesmo vem e fica falando coisas interessantes no seu ouvido, e vocÇe acaba ouvindo? É engraçado, porque ouvir esse bichinho é sempre uma massagem no ego, pois ele sempre diz que a culpa não é sua, que você nada tem a ver com o que está acontecendo, que os outros são o problema, que te induziram ao erro, que você escolheu mau porque.... e a culpa nunca é sua.

Isentar-se do seu erro é primeiro passo para uma vida tola e egoísta, onde você é o dono dos louros, sendo que também tem seus ferros. Quando eu dei ouvidos a esse bichinho, me estrepei: cometi tantos erros em meu trabalho que ainda hoje descobri um novo. E tome mais carco do chefe, e telefonemas, e consertos, e isso, e aquilo.

Aqueles foram maus dias, onde tudo parecia conspirar contra mim. Mas fui eu que conspirei contra tudo. Achar sempre que você não tem nada a ver com isso é fácil; difícil é você se importar e ir tentar consertar - seja numa nova postura, seja num novo pensamento. E deixar-se levar pela auto-comiseração gera um círculo vicioso, onde seus erros são sempre mais comuns e você nunca é o culpado.

Passou. Tanto que estou aqui, escrevendo sobre isso com a maior cara lavada. Mas está mesmo. Voltar-se para si mesmo, olhar-se e saber o que deve ser feito E FAZER gera um outro círculo vicioso; onde os erros são mais raros, e quando aparecem, são menores ou diminuídos pelas circunstâncias.

Se por um lado eu me estrepei no trabalho, me dei bem nos estudos. Minha tese de pós está de vento em popa e estou me divertindo para escrever os textos, deixar as idéias fluírem e enxergar soluções onde só haviam soluços. E isso é fruto de resoluções e postura. Senão, nem isso seria possível.

11 de abril de 2009

A Igreja do Diabo, de Machado de Assis

(Uma ação boa não apaga uma vida inteira de erros, ou um erro não apaga uma vida inteira de acertos?)

CAPITULO I - DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
- Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

CAPITULO II -  ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

CAPITULO III - A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

CAPITULO IV  - FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

10 de abril de 2009

Stuck


Numa boa.

9 de abril de 2009

Smells like teen spirit

Me adiciona!

Hoje eu descobri o Blip.fm. Ah, sua anta, você me diria.

Bom, a considerar que eu entrei no twitter antes do estouro dele, mesmo me perguntado pra que ele serve, hoje eu sei: ele funciona melhor que um orkut, pois é mais rápido, mais fácil e mais discreto que a rede da tela azul-calcinha.

Tentei entrar no Last.fm, mas levei uma surra tão grande, e fiquei com tanta raiva de não conseguir ouvir uma música inteira que me mandei de lá, mesmo que seu design seja muito atraente.

Onde quero chegar com isso?

Eu tenho hoje um perfil no MEADICIONA. Alguém teve a idéia de condensar numa única página, todos os links que remetem a você na internet. Sensacional, e mesmo esse site é uam rede social. Um cartão de visitas cybernético. A quantidade de links que você tem num site desses indica o quão enfiado na net você está.

Eu tenho o projeto GSMOBILIS, onde as fotos batidas com meu telefone vão para a net, como uma forma de mostrar que Eastman e seu ideial vivem não na Kodak, mas nas Cyber-shots.

Eu tenho o CARBONMADE, onde eu ponho meu portfólio, esperando que um dia uma agência me dê uma chance para que eu mostre que meu design não é dos melhores, mas é original, e que não só isso eu sei fazer.

Estou no TECHNORATI e no BLOGBLOGS, e até hoje não sei porquê. Mas também não saio.

O BLIP.FM está alimentando meu TWITTER que é uma beleza. Entradas a cada 5 minutos. E só música boa - afinal, o gosto é meu!

O DELICIOUS recebe todos os links que eu não quero perder. O problema é que eu me esqueço ás vezes de favoritar alguma coisas...

Bem, ao notar que nossas vidas estão cada vez mais cybernéticas e menos reais, noto que o engordamento da população é normal. Conhecimento difere de sabedoria, e velocidade não rima com perfeição ou capricho. Mas ter uma web onde cada pessoa é capaz de gerir seu próprio conteúdo cria um ambien democrático e amoral. Divertido, não acha?

4 de abril de 2009

Oblier

Há alguns anos, eu escrevi esse conto, como uma forma de purgação. O resultado foi uma das melhores coisas que eu já fiz com letras.

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- Tem certeza disso?
- Na verdade tenho. Não se preocupe, cara.
- Tenho reservas quanto á ela. Você sabe o quanto sofreu pra que ela te aceitasse. Por duas vezes ela te recusou.
- Como pode Ter certeza que meu casamento não vai dar certo?
- Apenas acho que é um erro, Víctor. Só isso. Eu posso estar errado, como de fato eu quero estar.
- Me ajude com a gravata.
- Parece calmo.
- Eu estou. Honestamente, eu sei o que sente, e eu sei que estou entrando numa fria., que ela vai acabar me magoando de alguma forma; mas ainda assim, é quase como se eu me sentisse obrigado a desposá-la.
- Você realmente a ama, mesmo sabendo o que pode acontecer.
- Acho que o amor é pra pessoas como você, meu amigo. Pra mim, só existe a impressão de amor.

"Ela nunca me disse 'eu te amo'. Por quê? Ela omitiu pra não mentir ou pra não se ferir? Porque ela, logo ela? Será que amor é isso? É não estar nem aí pro próprio eu e se escravizar a esse ponto? Ao ponto de saber que não é amado? AO ponto se prever um péssimo futuro, e mesmo assim cair de cabeça nele? Até onde eu iria por essa mulher?"

- Aceita essa mulher em sagrado Matrimônio?
- Sim.

"Belo carro. Ela me beija como se esse fosse mais um dia normal, apenas mais um amasso. AO menos ela está com um belo vestido de noiva. Finalmente, agora sua mão está dentro da minha calça. Já é um avanço; não é tão frígida como eu cheguei a imaginar. Será que eu agüento até chegar á festa? Acho que os convidados podem ir comendo sem nós. Vamos cuidar pra não deixar traços no vestido. O aluguel é caro, e a lavagem pior ainda."

- Amigo?
- Víctor! Como estão as coisas em Aruba?
- Muito bem. Curtindo bastante o sol. E aí na terra, como estão as coisas?
- Eu e a Ju estamos cuidando da sua casa.
- Sejam asseados ao menos.
- Calma, ninguém vai nem notar que estivemos aqui. Nem o cheiro a gente deixa.
- Muito bom.
- E ela? Finalmente se desfez em suas graças ou ainda não se derreteu?
- Olha, a lua-de-mel tá muito boa.
- Eu imagino que esteja.
- Você me pega no aeroporto depois de amanhã?
- Claro. Vou lavar seu carro amanhã.
- Valeu.
- Mas ela te ama?
- Sim.
- Certeza?
- Não.

- Cara, parabéns! Sua filha é linda!
- Valeu. É acara da mãe, até os fiozinhos de cabelo ruivo são iguais.
- Que filha linda. Olha só....que olhinhos lindos.
- Hehe, eu sei.
- E ela? Está se refazendo ainda?
- Tá dormindo, por isso continue falando baixo.
- Ah sim.
- Mas ela é linda...e a sua promoção, saiu?
- Sim, sim.
- E ela sabe?
- Ainda não. Ainda está preocupada sobre o dinheiro pra cuidar dessazinha aqui.
- Você sempre se antecipa e pega s coisas no ar.
- Ao menos eu tento.

"Ao menos eu tento.....será que é o suficiente? Será que o fato de tentar tanto com ela a fez me amar? Será que agora, a filha que tivemos a fará pensar de forma diferente a meu respeito?"

- Três filhos, não? Quem diria...
- É meu amigo, isso mesmo.
- Como agüenta o berreiro? A mais velha tem só três anos.
- Agüentando. Eu os fiz, é bom que eu os curta.
- Hehe, isso é pai coruja.
- Mas eles vão poder brincar com o Maurício. Olha só, vão crescer juntos, quase como nós.
- Isso eu já vejo acontecer. Mas e você como está?
- Feliz.
- Eu sei, mas você e ela, estão bem, Víctor?
- Sim, estamos. Porque?
- Já fazem quatro anos desde seu casamento; tipo, eu imaginei que....
- Eu sei o que imaginou.
- E você sabe de alguma coisa?
- Porquê? Acha que eu deveria investigar?
- Acho.
- Não vou espionar minha própria esposa, cara.
- Tudo bem, não quis ofender. Me desculpe.
- Vem, vamos jantar. Chame a Ju e minha patroa.

30 Anos depois.

Víctor desabou na poltrona de couro. Estava exausto. Com a gravata borboleta desfeita no colarinho de sua camisa branca italiana, servia-se de um pouco da quietude que reinava na sua casa há quase 5 anos. Hoje casara seu filho mais novo. Tirou o fraque e o jogou sobre o sofá. Levantou-se para pegar um pouco de água.
Enquanto bebia o conteúdo gelado, via as fotos espalhadas pelas salas. Seus filhos pequenos, crianças, adolescentes, adultos, se realizando. Hoje, punha mais uma: sua nora e seu filho. Sua filha mais velha já lhe dera um neto; um garoto lindo e curioso. Os enfeites da mesa central da sala de vistas que o digam. Todos quebrados. Exceto o cisne de cristal. A única coisa que fazia sua família se lembrar dela. Ela não estava em nenhuma das fotos á vista; todas as fotos do casamento até os três anos de sua filha mais velha foram retiradas e guardadas. Ali, estava um homem que sozinho, criara e educara seus três filhos, e agora, orgulhoso, via-os seguir seus caminhos de acordo com os preceitos que lhes passara.
Seu amigo e sua esposa o ajudaram nessa tarefa quase irrealizável. Agora, com pouco mais de 50 anos, seus cabelos acinzentaram-se; sua pele mostrava suas rugas, e embora seu corpo conservado pela natação – indicação dos médicos e de seu psicólogo – sua mão esquerda já trazia as manchas naturais da idade, além das cicatrizes em seus dedos – resultado do quase enlouquecimento que o abandono dela lhe causara. Mas se vingança existe, a dele foi dulcíssima. Seus filhos cresceram sem sentir falta dela, nunca disseram seu nome e nunca a chamaram de mãe. A vida tem algumas compensações, ele pensou.

Finalmente, antes de desabar na cama, ele apertou o botão da secretária eletrônica. Recados parabenizando-o por seu filho, por seu sucesso e por sua aposentadoria em grande estilo. O último recado o perturbou: uma respiração calma, pausada e soluçante, um som de praia ao fundo, alguma palavra sussurrada e o anúncio do fim das mensagens.
Sempre inquisidor, Victor ouviu repetidamente a mensagem até poder ouvir a palavra sussurrada direito. "Oblier", pronunciado como português, e não como francês. "Esquecer? Uma voz, uma palavra e uma praia?" Foi dormir. Estava cansado, feliz e bêbado demais pra conseguir entender o que a mensagem era.

No dia seguinte, acordara ainda mais curioso com a mensagem. Quando a ouviu novamente, identificou o sussurro, e assim sendo, identificou a praia. Era ela. 30 anos depois, ela ligou e não o encontrou. Deixou sua respiração e uma pista de onde estava. Ele sempre soube que seu grande sonho foi o Hawai, o paraíso norte-americanos. Ela não ligaria pra ele se não tivesse alcançado as praias do Manaloa. Ambos conseguiram seus intentos. Mas agora ele tinha como ir atrás dela. De novo.

Aproveitou a baixa temporada e, apesar de seu amigo não aprovar a idéia – de novo -, ele foi pro Hawai. Não demorou muito pra achar um hotel. Sabia que as pessoas mudavam um pouco as feições com o passar do tempo, mas ele sabia que certas coisas não mudam. E ele sempre soube achá-la, não importasse onde fosse. E novamente, assim foi.
Numa loja de aluguel de pranchas de surfe e bodyboard, ele encontrou uma mulher de pouco mais 50 anos, morena de sol, estilo caiçara; seus cabelos castanhos clareados pelo sol estavam ganhando os traços cinzas da idade, mas nada que a tintura não esconda. Engraçado, ela usava a mesma aliança de casamento, com os desenhos feitos sob encomenda. Ele a reconheceu. Lá estava ela, viva e linda, como sempre fora; vivendo como queria: longe de tudo e todos, sem os problemas de ninguém pra resolver, longe de suas famílias, longe dele. Podia ver que até mesmo naquele momento, havia um abismo que os separavam, mesmo que o balcão não fosse muito grande. Ela não o reconheceu, e cordialmente o atendeu. A voz era a mesma.
Com a mesma habilidade que lhe rendeu as promoções, sua retórica conseguiu fazer uma nova amiga. A baixa temporada lhe deu o tempo que o pouco movimento proporcionava. Ainda era bom em estratégias. Logo, ela estava fechando a loja e foram jantar. Ainda conversavam em inglês:

- Mas me diga, qual seu nome?
- Daniele. E o seu?
- Vick. Há quanto tempo está no Hawai?
- Há muitos anos. E você?
- Pouco tempo, vim curtir uma férias. Mas você veio de onde?
- Brasil.
- E porque saiu de lá?
- Ah, problemas, problemas, e mais problemas.
- E resolveu fugir deles.
- É. Mas hoje me arrependo.
- Porque?
- Vou ser franca com você, Vick, eu abandonei meu marido e meus três filhos pequenos, o mais novo tinha uns dois meses. Eu sai de casa porque eu achei que era o melhor a ser feito. Me casei por causa da insistência dele.
- Insistência?
- Ele me amava muito, mas eu não sentia o mesmo, e não estava disposta a sacrificar minha vida onde eu não queria estar.
- Mas você não podia vir a amá-lo mais tarde?
- Isso aconteceu aqui. Quando eu finalmente cheguei, há 30 anos atrás, e me dei conta do que eu fiz, juro pra você, eu chorei muito. O único homem que me queria como eu era, que estava disposto a ir comigo pra onde eu quisesse, eu havia deixado. Deixei meus filhos, que saíram de dentro de mim sem uma mãe. Quando pus os pés na ilha, eu me dei conta que o amava. Mas tinha queimado tudo.
- E porque não ligou?
- Vergonha. Mas liguei há quatro dias atrás pra ele, mas não consegui falar. A secretária eletrônica deve Ter pego meu recado.
- Porque? Você disse alguma coisa?
- Disse. Oblier.
- O que significa?
- É francês. Significa Esquecer.
- Ah.
- Mas te juro, Vick, dava tudo pra poder voltar com ele.
- Daniele, porque me contou com tanta franqueza isso?
- Por que você é a primeira pessoa pra quem eu consigo contar isso. E também porque eu precisava. Não tenho muito tempo.
- Como assim?
- Tá vendo ali na frente? O penhasco?
- Sim, claro.
- Vou pular de lá amanhã de manhã.
- Pra que quer se matar?
- Oblier. Mais que isso: perdão. Eu tinha que deixar o recado na secretária dele. Mas não pude falar com ele. Eu nunca disse que o amava, nem quando namoramos, nem quando casamos. Mas eu daria tudo pra dizer isso pra ele.
"Que irônico. Só levei trinta anos pra poder ouvir isso".
- Você estará aqui ainda amanhã?
- Acho que sim.
- Pode entregar esse recado pra ele? Eu te deixo o telefone dele.
- Que tal não se matar?
- Como?
- Que tal dizer simplesmente "eu te amo" pra ele, ou melhor – voltou a falar português – pra mim?
Ela foi tomada de espanto.
- Victor....
- Sim, sou eu.
- Porque não te reconheci?
- 30 anos causam diferenças enormes.
- Como estão.... – A voz embargada contorcia seu rosto.
- Nosso mais novo casou-se há duas semanas atrás. E Lorena nos deu um neto.
- Hm....
- Vamos, me diga. Estou esperando.
- Como pode querer isso? Depois de tudo o que eu...
- Eu havia te escolhido, lembra-se?
- Sim. Até hoje. – Ela olha pra aliança.
- Você nunca a tirou.
- Não.
- Então me diga.

Obrigado Pavarini

"Tenha paciência com tudo o que não está resolvido em seu coração. Tente amar as próprias contradições. Não procure agora as soluções, que não podem ser aplicadas porque você não seria capaz de as viver. Viva as contradições agora"
(Parker Palmer, no livro The courage to teach).

Obrigado Pavarini.

3 de abril de 2009

A dessacralização da música

Eu era um purista. Gostava de ir á uma loja de CD's, pegar o disco, ver seu encarte, sua lista de músicas - na época, os artistas escolhiam a ordem delas - e ao chegar em casa, abrir o cd - não sem antes apanhar do plástico - sentir o cheiro de plástico novo e impressão fresca, e rodar o CD pela primeira vez, com aquela ansiedade dos milissegundos de silêncio entre o play e o primeiro acorde.

Minha adolescência foi assim. Comprava Cd's com gosto, com dinheiro suado pra ser ganho. Muitas vezes, tinha de esconder as novas aquisisções de minha família, alarmada com uma Satan's Bed do Pearl Jam ou o encarte do In Utero. Cada música tinha um sentido, um porquê. Havia uma paixão inerente naquela audição. A identificação com o artista era mais direta, mais endeusada. As rodas de pogo, os cigarros e drogas que ali rolavam aumentavam o êxtase, e a adoração aos deuses e aos seus pretensos candidatos a. Bater uns nos outros era algo que remetia á animalização, lançar-se nos profundos da rebeldia.

A música era sagrada. Pra mim, música era minha religião, meu culto. Separava um momento do dia para me dedicar á plena audição e sentimento. Odiava ser interrompido, mesmo que fosse para o almoço ou jantar. Cada nota tinha seu valor, e os cantores eram mensageiros dos céus, traduzindo em canções sentimentos e pensamentos. Eu a adorava. Era minha deusa maior. E digo mesmo, mais querida e amada que Deus.

Mas, então, veio a MP3. Fantástico ter tudo no computador, á mão, compartilhado com seus amigos sem o risco de ter um CD riscado ou roubado. Os anos passaram, e hoje, música deixou de ser a deusa, amada e adorada, pra ser a ficante. usa-se e vai-se embora, e está lá pra quem quiser usar. tenho mais de 15 mil mp3, discografias completas (obras primas da pesquisa, como a antologia do Pink Floyd, o trabalho de catação com as músicas antigas - e boas - no Evanscence). Mas nunca mais separei um tempo mais pra ouvir e sentir a música, como eu fazia em tenra idade.

O artista agora não é mais um ser exaltado e ao mesmo tempo acessível, onde suas músicas inspiradas tinham o sentimento inerente. Isso acabou na virada do milênio e último artista que usou da paixão e da dor foi Trent Reznor. Ouça tudo o que o NIN fez antes de 2000 e verá o sentimento pegando forte em letras poderosas e auto-destrutivas. Hoje, bem, hoje o artista é um agente de entretenimento. Nada mais. Sua música se mistura á outras totalmente diferentes nos celulares e iPods, sem mais uma linha própria de pensamento. Não se fala mais nada, não se protesta mais com vontade.

Eu peguei apenas os restos da história. Quando cheguei á adolescência, Kurt Cobain já estava morto. Me sobrou o Foo Fighters, mas e daí? O Rock Brasil já não significava mais nada, e o pouco de rock brasileiro que chegou até mim, vinha por intermédio de outrem, nunca de seus executores. Era pra eu ter curtido o auge da música eletrônica, dos clubs, que se tornavam a trilha sonora do fim do milênio, com músicas sem sentido, apenas para dançar.

A música foi dessacralizada. Meus cd's esperam por mim, ansiosos de verem a luz do laser outra vez. Mas já não me importa mais um cd player, se eu tenho telefone que execute mp3 com qualidade. Meus fones de ouvido são intra auriculares ou de arco, não deixando mais que eu me deite na cama pra apreciar o disco. Há preciosidades ali, mas raramente desfrutadas e quando são, são no nojento tocador de CD do carro, que come 3 segundos (3 SEGUNDOS!!!!) da música.

Me envergonho de ter a Silver Box, quase todos os discos do Pearl Jam e todos do Foo Fighters, bem como dcTalk - a última coisa cristã bem feita do outro e deste milênio) e não mais ouví-los como se deve. Passo poucos minutos apreciando minas mp3, que se tornaram meramente trilha sonora pra meus trabalhos no computador, ou em viagens no ônibus. Não significam mais nada, não tocam em mais nada; apenas preenchem os ouvidos.

Kurt Cobain detestaria ver isso. Nossa compensação é ver que o Nirvana ficou estanque em uma época, e pouco é apreciado pelos jovens de hoje. Que assim seja. Que eles se chafurdem em músicas desinteressantes e baratas como jujubas para chorarem pelos cantos. Peguei os restos da história, mas peguei. Ainda guardo um pouco do culto á música.