25 de dezembro de 2008

Sobre Barrabás

Penso naquilo que deve ter se passado na mente de Barrabás, o assassino, quando foi solto no lugar de Yeshua. Provavelmente, ele pensou em como ele estava bem na fita, como o povo preferia a ele do que um rabino cheio de idéias erradas.

Mas gosto de pensar que, quando tudo voltou ao normal, quando o frisson acabou, ele voltou a ser o que era: um marginal. Os que o abraçaram quando caiu nos braços do povo foram os mesmo que fecharam suas portas, e ele voltou a ser meramente um criminoso, mas agora, um criminoso solto em favor de um inocente.

Gosto de pensar que quando a crucificação acabou, e finalmente o rabino estava dependurado no madeiro, nu e ensangüentado, e a multidão chorosa se dispersava, dois homens ficaram ali, com olhares pensativos e consternados: Nicodemos, o rabino que Jesus ensinou; e o próprio Barrabás, que agora desejava mais do que tudo estar no seu lugar devido: onde aquele rabino simplório estava.

Imagino que Nicodemos olhou Barrabás, e não se repudiou dele. Não. Mas o olhou como quem olha a si mesmo no espelho, e não gosta do que vê. De certa forma, o sábio Nicodemos sabia da representação ali: que o inocente foi morto no lugar do assassino, por que o inocente amava-o demais, mesmo ele sendo o que era. E Barrabás sabia que, de alguma forma, era pra ser daquele jeito.

Gosto de pensar que essas duas figuras estavam no dia da ascenção. E que Barrabás tornou-se um dos evangelistas invisíveis; um daqueles que nunca mais se soube nada, pois seu lugar na história já havia sido consumado. Gosto de pensar que ele foi o primeiro convertido, mas literalidade da palavra, pois ele foi substituído na cruz.

Barrabás é um personagem que aparece pouco, mas num momento decisivo. E que some nas páginas da Bíblia como apenas mais um. Gosto de pensar que esse homem morreu como um dos primeiros cristãos, e que morreu na cruz. E gosto de pensar que estava tão alegre por morrer como aquele que o salvou - e se tudo isso for verdade, duas vezes - que evangelizou mais pessoas pregado na cruz que no dia em que se tocou o sacrifício necessário daquele rabino.

Digamos que esse homem era um ícone. Um símbolo. Barrabás é um símbolo. E sua história mal destrinchada pelos pregadores é a história de tantos convertidos por aí.

14 de dezembro de 2008

Uma máscara perfeita

Eu venho de longa data procurando respostas interessantes pra perguntas que incrustam a cabeça de muito crente por aí: no que consiste a hipocrisia? e como saber dela?

Hoje, enquanto estava quieto no carro, me perguntei sobre isso. Porque Jesus chamou os mestres de hipócritas. Na verdade a hipocrisia - ato de viver contrariamente áquilo que se tem dito como regra de vida - não é uma coisa que se nota, que se comete conscientemente. Na verdade, é um ato inconsciente, pois mistura a vontade imediata com um sentimento de superioridade. É quase um "isso não acontece comigo", mas só apagar as luzes ou surgir uma situação que tudo aquilo que você dizia ter como regra é atirado longe.

Vim falar disso porque eu me peguei numa situação assim. Onde eu dizia ser uma coisa, mas longe dos olhos dos outros, meu verdadeiro eu assumia. Mas ele surge impensadamente, por isso o hipócrita não tem noção de que aquilo que está fazendo vai contra o que ele acredita. Está cego.

Eu até poderia falar de igrejas, como de hábito. Mas vou falar de uma coisa mais interessante. Atualmente, há casais comemorando bodas de prata no namoro, postergando a formação de uma família em prol de suas realizações pessoais, ou então, pessoas que vivem solteiras fazendo o que bem entendem. A pressão da sociedade (perdoem-me o jargão batido) é justamente esse: a auto-realização sobre todas as coisas. Você é o centro, e ponto. Mas essa mesma sociedade egoísta que prega o individualismo e a superiorização do ego é a que implora por famílias estruturadas, por crianças amadas e repreendidas quando necessário, por pais e mães presentes e casados de verdade, em suma: a boa e velha estrutura familiar.

Mas porque isso se dá?

De um lado, temos o mercado. O capital, que faz o mundo girar. Ora, famílias não são lucrativas. Uma criança bem criada não dá dinheiro. Um adolescente consciente não gasta demais. Um jovem com um emprego não gasta muito. É preciso fazer as coisas girarem, nem que seja necessária a erotização das crianças, fazer pressão sexual nos adolescentes e forçar jovens a fazer o que nem sempre lhes cai melhor. O ensaindecimento do mundo é resultado da ganância e do egoísmo. Eu acima de tudo.

E os resultados estão aí. Lindembergs, Suzannes e pequenos exemplos que não estão na grande mídia. As pequenas tragédias familiares por causa do ego exacerbado, seja do pai que não tem tempo, da mãe que apenas leva o filho pra as suas atividades, do filho que reina em sua estultícia. A sociedade é hipócrita, mas não por maldade: mas porque não sabe o que deseja. Se deseja dinheiro, abre mão de seu bom funcionamento. Se deseja o último, não terá dinheiro do jeito que gostaria.

Uma das coisas mais normais sobre a hipocrisia é a fofoca. Não as vítimas dela, mas os que a executam. Não há forma de auto-justificação maior do que ela. Afinal, falar mal ou soltar farpas sobre outra pessoa é dizer ao mesmo tempo "ei, eu não sou capaz de cometer um ato tão infame. Eu sou maior, superior a esta pessoa". Uma pessoa que é capaz de tentar, de ir na frente, se dar mal, retroceder e contiuar tentando, mesmo que seja de uma forma totalmente fora das regras tidas como seguras, ou alguém que experimentou caminhos diferentes e voltou pro modo antigo, são exemplos de pessoas que convivem com a fofoca. Foram capazes de se mexer de sua apatia e morosidade e ir em frente, aprender como que é.

Mas quem não pode fazer o mesmo, quem não quer ou acha que isso é inútil não apoiará tal ato, mas sim se resigna, e passa a se justificar. E isso é um ato hipócrita, uma vez que culmina em fazer justamente o contrário do que se diz.

É uma máscara perfeita, tão confortável e bem ajustada quanto uma maquiagem de noite. As mulheres saberão o que eu digo, pois uma espinha, uma marca no rosto, um defeito na sombrancelha podem ser cobertos com pó compacto, rímel e outros recursos. E sua estada ali é quase impercetível, apenas revelada quando lavada.

Hoje, eu vou dormir não mais julgando os fariseus da época de Jesus. Mas sim compreendendo seus porquês, e agora, lutando pra ser um pouco mais sincero. Vejo cada vez mais que o Cristo não veio para que nos reunamos em clubinhos litúrgicos, mas para que vivamos pra caramba, não nos privando da beleza da vida, mas sabendo o que fazer com ela. Acho cada vez mais que a reforma do mundo começa num ponto muito específico. Eu.

1 de dezembro de 2008

Sobre uma fé cansada

Um de nós está experimentando o ostracismo, o silêncio e a solidão. E o outro está experimentando o burburinho, as vozes incessantes, as responsabilidades jogadas. Nenhum deles está feliz. Nenhum deles está contente com isso. Ambos gostariam de um equilíbrio.

Deus é pura misericórdia, isto é, ele entende o que passamos, entende a miséria do coração, e os problemas. Mas quando a fé passa por uma prova relativamente dura: em um, a tristeza da solidão, e no outro, o afâ da necessidade alheia, ela pode até mesmo se cansar, esmorecer.

Um pregador trouxa e imbecil diria para jamais esmorecermos, mas "outrossim, confiarmos em Deus" e toda aquela baboseira toda. Angústia, tristeza, revolta, raiva.... e contra isso, ás vezes, nos encontramos totalmente largados, tendo que surprir os outros, mas não tendo descanso. Tendo que atender as pessoas, mas nenhuma delas lhe dará um segundo de seu tempo para te ouvir. Ou tendo que receber migalhas de atenção.

A fé cansa. Lutar cansa. Estar sozinho cansa. Viver desse jeito destrói qualquer vontade de continuar, pois parece que toda essa luta vai dar um imenso precipício, onde a vontade que teremos não será a de voar, mas a de se jogar, para que finalmente encontremos descanso e silêncio, ou rompimento com o mesmo.

Eu sempre pedi a tempestade. Não sou um idiota que pensa que vai voar acima dela, pois quem pensa assim não passa de um crentinho tolo. Que não sabe que a vida é porrada todo o dia, e não adianta dar uma de estóico porque essa filosofia morreu. O estoicismo pode ser pregado, mas jamais será vivido, porque quem está aqui são humanos. E por mais que agüentemos as coisas estoicamente, o travesseiro, as paredes e os móveis testemunham as lágrimas, os berros, os clamores solitários, os dentes cerrados, os punhos fechados que ferem as palmas das mãos.

Mas cansa. Entristece. E quando parece que encontramos um porto seguro, ele desmorona no meio de um trovão. Me sinto assim. E sei quem mais se sente assim. As orações não passam do teto. Suas palavras soam vazias. E abandonar aquele clubinho de gente tapada chamado igreja é uma opção maravilhosamente linda, pois finalmente haverá uma liberdade sem fim, sem leis castradoras, sem regras velhacas e sem gente egoísta e sem jeito.

A fé se cansa. Acreditar e não ver o resultado, crer e não ver fim na situação traz uma frustração muito maior que qualquer coisa. Os textinhos de internet dizendo que Jesus te carregou e tal não colam. Você vê seu coração só.

Eu vou concluir dizendo apenas que Deus está vendo isso. Nada mais. Não vou dizer sobre perseverança, pois eu soaria falso. Não é assim que me sinto. O que mais me deixa entristecido é saber que não se pode jogar a toalha. Que desistir não é uma opção. A esperança, quase vã, de que haverá emfim uma intervenção que vai fazer tudo virar é o que nos move continuar. Mas não deixa de ser uma esperança quase vã.