24 de outubro de 2008

Acquiesce

I don't know what it is

O rock bar mais bem freqüentado, mais badalado e mais interessantes da cidade era dele. Toda a decoração do local, a ambientação, as mesas, até mesmo as bolachas; tudo era resultado de uma minuciosa pesquisa, sonho, imaginação, desejo e inventividade dele. Um ambiente grande e aprazível.

That makes me feel alive

Eram sempre duas atrações nos três dias de balada da semana: um DJ independente tocando suas criações - quase sempre com um pé em Skazi - e uma banda de rock independente fazendo um show mais diferente, quando não usava o espaço para retirar as mesas e transformar o bar num pequeno show.

I don't know how to wake

Preparado para qualquer ambiente, ele havia pensado numa coisa que a defesa civil condena: a tela de arame, para que bandas de punk e estilos mais violentos pudessem ver as pessoas subindo na tela, tranformando o local numa gaiola.

The things that sleep inside

Mas tirando os dias de Hammer Rock Bar, ou de Limelight da década de 90, o VickRock era um bar decente. Servia boas bebidas, excelentes e originais coquetéis feitos na hora, tipos diferentes de tequilas e vodkas, fugindo sempre do Jose Cuervo e das Smirnoff's da vida - sendo que por um preço escabroso, você podia tomar uma autêntica Kalashnikov, ou um mesmo Absinto original, com 85% de álcool.

I only wanna see the light

No bar central - onde barmans preparam os coquetéis com habilidade e shows de malabarismo - estava ele, o dono. Aprendera a preparar e encantar clientes com garrafas no ar. Sempre sorridente, fazia piadas com seus espectadores, e sabia quando devia ajudar um encontrou ou melar outros.

That shines behind your eyes

Perto do palco, haviam quadros com fotos coloridas ou em preto e branco. Era ele, com músicos e atores e atrizes do mundo todo. Todas as fotos eram originais, bem como as assinaturas neles. Quando convocado - ou quando ninguém se apresentava na noite - ele assumia um violão, um piano ou uma guitarra e cantava canções de seu estilo preferido - rock.

I hope that I can say

Mas quem o via, poderia até pensar que um homem alto, agora em boa forma, completamente careca, tatuado, era um homem feliz. Aos 30 anos, quase um alcoólatra - embebedava-se três vezes por semana, com hora marcada - dormia cada noite com a consciência pesada.

The things I wish I'd said

Tivera inúmeras namoradas desde então. Muitas. Mas nunca conseguiu envolver-se o suficiente, e quando o fez, a moça viu que ele tinha problemas demais, e mesmo pesarosa, o deixou. O apartamento nos fundos do bar era o atestado de suas noites de bebedeira e sexo - mas sempre cheia de culpa.

To sing my soul to sleep

Era sábado. Dia de maior freguesia. Uma banda conhecida na cidade - Black Jack - estava em turnê de aniversário, comemorando seu CD e tocando antigos clássicos. O bar estava muito cheio, e ele estava com os barmans, entre piruetas com garrafas, doses curtas e longas, chacoalhos com a coqueteleira e outras peraltices.

And take me back to bed

A banda o conhece, e eles são amigos. Quando resolvem tocar Oasis, o chamam.

You want to be alone

Ele pula do balcão, sorrindo. Joga o avental para dentro do bar, e corre para o palco, onde é ovacionado por seu ânimo. Mas aquele era um dia triste pra ele. Era seu aniversário. E ele estava sozinho.

When we could be alive instead

O líder da banda empunha um violão, e ele pega uma guitarra, uma bela Epiphone. Os acordes começam a tocar. É Acquiesce, do Oasis, cuja melodia o remeteu, em seus poucos minutos, a pouco menos de 7 anos atrás.

Because we need each other

Foi quando tudo começou. Ainda jovem, era conhecido por ser crente. Meio ruim, mas crente. Ia á igreja evangélica catolicamente. Seus amigos eram de lá. Sua família era de lá. Até suas dúvidas eram de lá.

We believe in one another

Mas suas dúvidas, questionamentos e enfrentamentos não encontravam respaldo decente nos discursos de púlpito, nem no comportamento de muitos dos que com ele freqüentavam. Numa dessas, conheceu uma moça, que como ele, tinha as mesmas dúvidas.

And I know we're going to uncover

De dúvidas em dúvidas, eles se envolveram. Mas nunca se decidiam se assumiam ou não seu nem um pouco diferente do resto namoro. Não transaram, mas nada diferenciava-se essa relação das que todos tinham. E sem se diferenciar, sem agir como a fé pede, pra quê continuar nela?

What's sleepin' in our soul

Ambos saíram da Igreja. E tiveram 3 meses agitados, intensos e poderosos. Revoltado com tudo e com todos, abandonou sua família, seus amigos, rejeitou tudo. Menos a ela.

Because we need each other

Mas se não é diferente, como pode tentar ser diferente. Em três meses, o fogo dos dois apagou, o apartamento alugado ficou deserto, e ambos passaram a brigar com uma freqüência muito maior com a qual transavam no início.

We believe in one another

Não tardou para que ambos passassem a trair um ao outro. E a enganar. E a roubar. Até que ele voltou pra casa uma noite, após trabalhar até mais tarde, e encontrou suas coisas na rua. Ela o despejara. Trocara a fechadura. E para aumentar ainda mais sua vergonha, podia ouvir ela e seu amante gemendo alto, pra todos no prédio saberem quem era o traído.


I know we're going to uncover

Endividado, com o nome sujo na praça e sem casa, pensou em voltar pra casa de seus pais. Mas sentiu vergonha. Com que cara ele ia aparecer? "Oi, sou eu, seu filho. me ferrei, estou na merda, e quero voltar a ter um lugar pra dormir e comer?" Nem ele toleraria uma traição dessas.

What's sleepin' in our soul
What's sleepin' in our soul

Naquela noite, após chorar um pouco, foi a um bar. O mesmo que costumava freqüentar com sua mulher, ou melhor, ex-mulher. O dono do bar o conhecia de outras baladas, e resolveu alugar o quartos dos fundos para ele. Afinal, mesmo ele já tinha sido ajudado uma vez.

There are many things
That I would like to know

Como desgraça é pouca bobagem, seu rendimento no trabalho caiu consideravelmente, causando sua demissão. Perdeu o carro, mas ao menos não tinha mais dívidas no mercado, uma vez que até mesmo parte de suas roupas ele vendeu. Invadiu seu antigo apê e conseguiu roubar seu computador, e o vendeu no mesmo dia. Mas o HD está com ele até hoje.

And there are many places
That I wish to go

Desempregado, tornou-se garçom e faxineiro no bar. Qual não foi sua maior humilhação ao ver sua ex com outro cara? E ainda se sentaram em sua seção, obrigando-o a atendê-los, entre provocações, risos, exibições de languidez e muitos drinks retornados, o que lhe fez perder a comissão da noite.

But everything's depending
On the way the wind may blow

Porém, ainda era capaz de ter boas idéias. E com o tempo livre pela manhã, voltou a tocar instrumentos. Passou a tocar na noite, e o público gostou. Não havia passado por cima de suas tristezas, mas aprendeu a conviver com elas.

I don't know what it is
That makes me feel alive

Entre redecorações e músicas alheias, conheceu gente. Muita gente. Aprendeu as artes de um bom drink, e isso lhe fez viajar aos EUA. Foi parar em Hollywood, e a foto que ele ostenta orgulhoso perto do palco é a que ele aparece tocando com Dave Grohl. E na mesma semana que isso aconteceu, venceu um braço-de-ferro com Eddie Vedder.

I don't know how to wake
The things that sleep inside

Ao aprender artes etílicas, esteve em festas, embebedou Lars Ulrich, que até hoje procura um exemplar único do Black Album, e não se lembra de assinar e ainda dedicar a nenhum barman.

I only wanna see the light
That shines behind your eyes

Ao voltar ao Brasil, com nome e conhecimento, e dinheiro, se vingou. De todos. Comprou o bar e o reformou. Entrou na internet e espalhou boatos sobre sua ex, sujou sua imagem ao derradeiro grau, dormiu com suas amigas, jogou uma mulher muito mais bonita pro seu namorado, roubou seu carro e quando o seguro ia pagar, reapareceu com o carro sem bateria, todo sabotado e sem painel, mas ainda em condições.

Because we need each other
We believe in one another

Uma tarde, enquanto ele e o dono antigo do bar conversavam sobre as grandes bandas do passado, ela apareceu. Emagrecida, enfeiada e infeliz, e implorou que ele parasse com a perseguição. Ela havia perdido tudo. Ele lhe serviu sua vodka favorita e a mandou embora. Estava vingado.

And I know we're going to uncover
What's sleepin' in our soul

7 anos passaram. Entre o dia em que resolveu sair de casa, até o dia em que ela implorou que parasse. O bar ia de vento em popa. Suas motos estavam na garagem. Um carro importado estava ao lado delas.

Because we need each other
We believe in one another

Para muitos, isso podia ser o sucesso. Mas ele não pára de pensar no que poderia ter acontecido se ele tivesse se mantido onde estava. Teria perdido tudo e passado por tudo aquilo? Estaria melhor do que estava hoje? Isso ele tinha certeza que sim. Não teria ficado careca. Não teria envelhecido tanto.

And I know we're going to uncover

Teria sido feliz. Teria filhos, que ele tanto queria. Teria uma vida mais calma. Não estaria tão cansado. Não teria que se embriagar três vezes por semana pra poder continuar. Não correria com as motos, buscando inconscientemente que um acidente lhe ceifasse a vida.

What's sleepin' in our soul
What's sleepin' in our soul
What's sleepin' in our soul

Tinha um bar excelente. Sem ninguém pra dividr. Os amigos que ele tem agora não são os mesmos do mês passado. Apenas o dono antigo do bar ainda vai lá. Porque é um senhor aposentado e sozinho, sem outro lugar pra ir.

What's sleepin' in our soul
'Cause we believe
'Cause we believe

Sua interpretação quase teatral da música e sua guitarra inspirada arrancaram aplausos efusivos de todos. Êxtase. Micaia. E de volta a preparar drinks. E de volta á sua dor diária.

Yeah, we believe
'Cause we believe
'Cause we believe

Ao terminar o sábado, já na quase manhã de domingo, seus empregados só voltariam ás 7 da noite, para outro turno, outras músicas. Bar limpo, vazio, portas fechadas. Sozinho de novo. Foi á geladeira, onde um pequeno bolo de chocolate trufado o esperava. O levou até o balcão do bar.

'Cause we believe
Because we need
Because we need

Acendeu uma vela e a pôs no bolo. Desanimada e arrastamente, cantou "Parabéns pra você", mas não conseguiu evitar a voz embargada quando chegou no "nesta data querida". A vela ainda estava estalando. Assoprou a vela, e cortou pedaço de bolo, se serviu. Entre um gole e outro de rum, junto com o bolo, ele se banqueteou sozinho. Enquanto desejava voltar atrás.

Não?

Negar a existência de Deus como prerrogativa para uma vida devassa é hipocrisia. Muita gente acredita em Deus e nem por isso deixa de fazer o que lhe dá na telha. Mas, qual a diferença entre aproveitar sem Deus e com Deus?

Consciência. Se não há Deus, então tudo é permitido. Uma vez que essa entidade simboliza a virtude, o controle e a lei, sem ela tudo se torna próprio.

Ao ler a notícia do link, eu vejo que ateísmo é uma prática que está se tornando quase religiosa. A organização que está promovendo essas publicidades fez mais dinheiro do que esperava, pois há muita gente adepta disso. Não que todos sejam devassos, mas esse é o ponto que eu quero chegar.

O Lula foi eleito como um símbolo de mudança, um clamor popular por algo novo e diferente, algo que realmente se importasse com o povo e que fizesse as reformas que o país precisa. Mas o marimbondo apenas manteve a política econômica e já gostou do poder, ao ponto de não querer sair mais. A comparação cabe aqui porque as pessoas não agüentam mais marchas pra Jesus, pregadores de ônibus, cultos na TV, camisetas com "Jesus te ama", templos enoooormes e coisas afins: elas querem ações, querem comprometimento, querem ser ouvidas e respeitadas. E muitas vezes, templos são locais onde isso não acontece, se acontece, é mediante pagamento.

Dessa forma, o ateísmo ganha espaços cada vez maiores não apenas na publicidade, mas também no ativismo. Haverão "Marchas para o Homem"? Não é necessário. Apenas um site com indicações de uma vida feliz sem Deus pode fazer um estrago enorme. Um professor de História na escola pode demonstrar por a+b que humanidade tem uma história cíclica - corroborando inconscientemente com Eclesiastes - e que a Igreja é uma entidade controladora e vil.

O ateísmo, assim como o cristianismo, está prenhe de crimes e ultrajes, uma vez que ambos, mesmo díspares em crenças, são compostos por pessoas, que podem se tornar doutrinadores. Nada é perfeito. E numa dessas, tal qual no texto "A Igreja do Diabo", o ser humano vai procurar o outro lado.

O que não disseram aos "ateístas", digamos assim, que é da índole humana a transgressão e a busca por perdão. O que torna o cristianismo odiado é a presença de Deus, mas o que torna necessário é a possíbilidade de redenção, de tranformar lixo humano em ouro humano. Através dessa redenção, pessoas são mudadas e se tornam melhores, e justamente isso que o ateísmo não possui: possibilidade de redenção. Acreditar que um homem é fruto do meio, largá-lo ao seu próprio desejo pode ser prazeroso no início, mas vai jogar todos na vala comum da existência vazia, do hedonismo e da necessidade irrevogável por prazer sobre prazer, sem consciência.

O descontrole gera a animalização do homem. Tranformar todos em meros animais semi-racionais, consumidores de auto-ajuda e de outros seres humanos, em suma; o homem vira um produto a ser usado e descartado inúmeras vezes, é o desejo atual do mundo. O controle de animais é mais fácil que o controle de pessoas.

13 de outubro de 2008

Olhos Secos

Segunda-feira é um dia terrível. Apesar das pessoas terem altos causos - suas peripécias etílicas e sexuais - do fim de semana, estarmos animados em função de um tempo bom longe do batente... o vazio do primeiro dia continua.

Trouxe meu case, cheio de cd's de MP3... mas nem elas conseguem me animar. O que me deixa mais pra cima é a pós... mas nem isso me deixa mais contente.

Olho pro computador com desprezo. Sua luz, auxiliada pela pegajosa luz fluorescente do escritório, me privam de ver o ambiente externo, seja por estar no meio do galpão, seja por estar anestesiado de tédio.

Meus olhos começam a secar, como resultado de horas olhando pro mesmo local, sem excitação. Nem as fotos de minha moça e meu enteado me animam. Mal posso esperar para ir embora.

Hoje é um dia que não está bom. Mas ainda tem algumas horas até que ele acabe.

10 de outubro de 2008

Um trombone baixado

Tenho estado meio longe daqui em função de muitas coisas. Já não posso mais alegar trabalho, pois ando mais calmo. Eu não tenho mais encontrado meios para escrever qualquer coisa que seja.

Não que eu vá fechar o GS, muito pelo contrário. Apenas vim falar sobre o fim de um assunto que eu creio não ter esgotado, mas apenas me cansado: a igreja.

Dentro do meu histórico, verão que existem vários textos sobre os problemas da igreja e sua humanidade. Eu até pensei em escrever isso, mas hoje, em uma conversa interessante com o Rods, percebi que não adianta, nunca adiantou e apenas a ação adiantará, mudar a perspectva das pessoas comuns em relação aos que freqüentam uma casa de oração.

Eu até posso protestar, berrar e espernear, mas sou apenas como um trombone tocando no meio do sertão. O que eu posso fazer para protestar é justamente fazer o que ninguém faria: amar as pessoas, me importar com elas, e dar a elas o que esperam de um outro ser humano; meramente que seja um para com ela.

Cristo fez tudo ao contrário: comeu com publicanos, conviveu com leprosos e sua mais conhecida passagem foi dita no silêncio de uma noite, ao contrário dos microfones e ternos e status que muitos buscam. Tal ação é justamente o que é tido como errado e digno de desprezo pela grande maioria.

Mas não é justamente o mais simples e mais ignorante que deve receber atenção? Não seria justamente o mais errado e desprezado a receber justificação e apreço?

A utopia está longe da realidade, isso é fato. As igrejas inchadas de gente que sofreu lavagem cerebral, mantras gospel, músicas sem nexo, dinheiro acima de tudo... e parece que todas as coisas parecem culminar num fim tolo: Deus é uma varinha condão, quase um Buda.

O Novo testamento deixado de lado, apenas as promessas importam, apenas os milagres e as curas valem. O trabalho já não mais dignifica, o amor já não tem mais gosto, a amizade e as pessoas já são perda de tempo.

Eu baixei meu trombone, e vou passar a fazer uma coisa que parece impensável: eu vou fazer. Vou começar a ser mais amável, mais humilde, mais humano. Tentar descumprir a ordem estabelecida, boicotar lojinhas de crente, ir á teatros e cinemas, cuidar do meu enteado e da minha moça, amar meus pais, ouvir meus avós, conhecer mais a fundo a alma do ser humano.

Há um mundo muito mais profundo que as leis regurgitadas geração á geração, que a tradição manda que seja assim. A partir de hoje, meu trombone está posto, carinhosamente, no chão, em algum lugar. Do som emitido, do zunido direto, ao silêncio do trabalho e do ouvir. Se Jesus entendeu isso, porque eu só fui entender agora?

9 de outubro de 2008

O Impostor