22 de setembro de 2008

O Sol Rosado

Ainda estava cedo demais. A luz do sol era vista, mas sua presença ainda não era sentida, e a manhã ainda resguardava o frio da noite. Eu acordei naquele dia, dentro do quarto escuro, onde o colchão estava no chão, sem cama.

O esforço para me pôr em pé me fez acordar um pouco mais, e me dirigi á porta aberta de meu quarto, passando em volta do leito ainda quente. O hálito do quarto denota duas respirações misturadas. Sobre o criado mudo - mal colocado ao lado da porta, jaz um livro com nome estranho e capa preta, com a grafia em tons de rosa.

Saio do quarto, e a luz da manhã recém-chegada recepciona cordialmente meus olhos semi abertos, e não os agride. A janela meio aberta assobia o vento que passa lá fora, e o lugar fica ainda mais frio. A sala está com ares de usada: há taças de vinho e roupas pelo ambiente. Começo a me recordar. Minha mente ainda está organizando as lembranças e pensamentos, que ainda estão disformes.

O apartamento é pequeno, mas me lembro que é meu. A boca fechada resguarda o mau hálito, hábil em estragar o bom perfume de calmaria que repousa no ar. A luz do sol começa a ficar mais forte e brilhante, e me habituo a isso. Começo a recolher as taças, a garrafa com vinho avinagrado - esquecido aberto - as roupas.

O sol ser ergue, e minha janela virada para o norte, recebe a luz e o calor. O sol está, hoje, com um brilho diferente. Ele não está amarelo. Seu calor é o mesmo, a luminosidade é igual, mas ele está diferente. Não está amarelo.

Meu reflexo no espelho denota minha nudez. A única coisa que paramenta minha aparência é um anel dourado. Minhas lembranças começam a voltar, ajudadas pelos retratos de sorrisos e abraços espalhados pela casa. Ouço passos delicados atrás de mim, e incômodo de alguém me olhando. Mas não me viro. O sol está estranho. Não posso olhá-lo diretamente.

Ao me virar para trás, uma bela mulher está diante de mim. Percebo que está contente, e seu ar sonolento e convidativo me mostram porque os homens são fracos quando colocados para encarar uma mulher. A luz estranha do sol ilumina sua pele negra - mais pra café com leite - e ganha um novo tom de pele, que não sei dizer exatamente qual a diferença, mas sei que não é igual.

A luz bate em meu anel, e o amarelo ganha um tom diferente. Tudo está com um tom diferente de cor. Há algo na luz, que a tornou mais diferente, mais interessante. Tudo continua igual, mas a luz do sol colocou um quê de beleza a mais no que já existe.

No criado-mudo, o livro ainda está lá. Na sua capa, a grafia rosa ficou branca, pois a luz de igual cor do sol ofuscou sua impressão.

---------------------------------------

Há muito tempo atrás, eu tive um sonho interessante. Até a terceira frase, é tudo o que eu sonhei. Depois, é conto. Mas eu nunca esqueci do que estava escrito no livro em cima do criado-mudo.

20 de setembro de 2008

Chuva


Hoje estou deitado vendo o céu molhar tudo.

10 de setembro de 2008

La Macchina di Dio

O dia e a hora são informações inúteis agora. Houve uma hecatombe. Nenhum culpado, pois não é um prenúncio de guerra. Não é uma bomba que caiu. Ocorreu no mundo todo. A punição por brincar de Deus caiu sobre o mundo inteiro.

Oppenheimer disse que se tornara o destruidor de mundos, na aurora forçada que a bomba atômica criou naquela madrugada. Mas quando milhões de pessoas esvanecem no ar, deixando suas roupas vazias caírem no chão, é porque algo que está completamente fora do controle aconteceu.

Uns, dizem que Deus voltou. Outros, que é a limpeza da humanidade. Mas uma parte, mais mística, diz que isso é resultado da ambição do homem: ser igual a Deus. Tal ambição criou possibilidades nunca antes vistas, mas criou infernos em igual admiração.

Criar um buraco negro dentro da Terra era impossível, e se ocorresse, seria algo tão ínfimo que nem seria detectado. Mas máquina estava operando perfeitamente, e a recriação do big bang seria realizada em sua plenitude em pouco tempo. A intenção era simples: ver Deus.

Ciências exatas não são exatas, principalmente quando postas na prática. E máquina chocou as partículas, elas liberaram energia, e por alguns milésimos de segundo, tal energia foi tamanha, tão grandiosa, tão gloriosa, que a luz branca tomou toda a extensão circular do complexo, enchendo-o de luz. A terra não tremeu, mas pudemos entender não apenas o poder, mas também ver a glória que enche o trono do Senhor,

Os milésimos de segundo que limitaram tal visão não puderam ser captados pelas câmeras, que queimaram com tamanha luz. Jogados no chão, aos prantos, cientistas imploravam por perdão e misericórdia, sabe-se pra quem. A máquina parou. O som do complexo sendo desativado contra a vontade dos presentes os encheu de terror. Teriam eles chegado perto demais do lugar santo? Teriam eles ofendido Deus?

Foi quando perceberam que a luz não apenas tomara o CERN, como foi visto pelo mundo todo. O raio caiu no Oriente, e foi visto no Ocidente. E isso foi seguido de um acontecimento sobrenatural. Milhões de pessoas - quase metade da população - simplesmente sumiu. Esvaneceu por dentro de suas roupas, deixando-as juntamente com documentos, dinheiro, implantes, marca-passos e iPods.

O terror se instaurou no mundo. As crianças desapareceram. Os bebês dentro e fora dos ventres maternos deixaram a existência. Carros se desgovernaram. Culparam a máquina pela tragédia sem precedentes, como se uma mera experiência científica isolada pudesse chegar a isso. Mas chegou, e isso está sob análise, ainda estarrecida, de leigos e preparados.

Quando foi idealizada, a chamaram de A Máquina de Deus. Mas Deus não pôde ser contido numa máquina. Ele se mostrou, e demonstrou que sua criação estava indo longe demais, sem saber pra onde estava indo. Que não se importava com essas brincadeiras, mas que não tolera incapacidade, inépcia e irreverência. Deu-nos uma mostra minúscula de seu poder, e ficamos tomados de terror.

Mas o mundo logo se esquecerá disso? Tal visão foi por demais poderosa, e jamais será apagada da memória. Seremos fortes o suficiente para seguirmos em frente, com nova consciência, ou continuaremos tolos de achar que podemos ser como Deus? Da última vez que isso aconteceu, um terço do céu foi pro inferno.

----------------------------

A ativação do CERN mexeu com a imaginação de muita gente.....

9 de setembro de 2008

A calmaria

Após um mês e meio de estresse ininterrupto, trabalho mil metros acima do nível do mar, cansaço e dores nos pulsos, a calmaria volta.

O ócio não me é odioso, de forma alguma. Mas após alguns minutos de nada pra fazer, me veio um sentimento novo: o de decepção.

Após mais de 45 dias de correria, notei que em nenhum momento me senti gratificado, satisfeito por um trabalho bem feito, em paz por ver algo bem encaminhado ou sendo visto e tendo resultado. Tudo o que eu fiz apenas gerou renda pra empresa, e corro ainda o risco de ter meu trabalho auditado, e se não estiver dentro dos conformes, levar uma carcada.

Nojento isso. Me sinto usurpado. Não que eu queira elogios ou tapinha nas costas, mas percebo cada vez mais que sou um comunicador, não um administrador ou um programador. Sou um homem que traz idéias, e não meramente aperta botões, esperando que eles elevem minha carreira.

O sangue que eu gostava de dar está misturado em tintas e papel couché, minhas dores de cabeça eram mitigadas com a exposição de banners e o envio de newsletters que importavam, onde não apenas a informação era bem vinda, como a forma de sua disposição estava feita. Esse sangue eu derramei com imenso prazer.

Preso atrás de uma mesa em L, com um computador cheio se spywares da empresa, programas que funcionam na base da porrada e cercado não apenas de política empresarial como de cultura organizacional escravocrata, me vejo culpado na calmaria. Quando não há trabalho, o sentimento ruim de parecer usurpar os recursos da empresa para cyberslaking.

A calmaria da tarde se traduz em sono e tédio, e a vã esperança de voltar a ser designer. Mas eu trabalho aqui, e também para voltar á minha paixão profissional. Peço a Deus duas coisas: ânimo para trabalhar, e paciência para esperar.

1 de setembro de 2008

Pobres

Estes, sempre terão com vocês, disse Jesus.

Pobres são um povo interessante. Numeroso, barulhento, feio, sem boas maneiras, sem hábitos de higiene ortodoxos, libertinos e limitados. Sua inteligência é um tanto quadrada, posta sua alimentação parca e a necessidade de trabalho ainda cedo. Estudo é pra quem pode.

Pobres são uma gente que incomoda. Por isso, erguemos shoppings centers com "segurança". Na verdade, o que não queremos é ver em nossa frente pessoas de tez corada de sol, mãos calejadas e aparência suja em nosso tranqüilo passeio com um sorvete na mão. Os brutamontes nas portas não deixam que pessoas fora do padrão entrem no local.

Pessoas carentes, de baixa renda.... nomes bonitos, tucanados, para definir os pobres. Muitos são honestos, limpos, trabalhadores. Os que nos incomodam são os sujos, favelados assumidos e orgulhosos, que gostam de viver ás custas do Estado. Ou os que dormem nas calçadas, folgados no chão de pedra, e embora seres humanos com plenas capacidades, o esquecimento e o desprezo os tornaram párias, o "lixo humano" que adoraríamos que fosse removido de nossa frente, pra bem longe da nossa vista, e que não mais voltem.

Não falarei nada acerca da hipocrisia, do descaso e da inação. Se fôssemos preocupados com o crescimento do país, e por conseqüência o nosso, tomaríamos as rédeas do controle e haveriam mobilizações contra a fome e a miséria, e instituições efêmeras e ações pontuais seriam contínuas, nos dando o poder de cobrar do Estado a manutenção de tais ações. Mas chamo a atenção para um outro tipo de pobres, que estes nós temos sempre conosco. E muito mais perto que qualquer outro tipo.

Os pobres de espírito, que se apegam facilmente á coisas e ao dinheiro, que tornam suas vidas e as vidas dos outros ao seu redor terríveis, pois nada pode-se gastar, pois não há como repor; os pobres de coração, que se julgam superiores aos outros, e sua soberba se demonstra em suas palavras ríspidas
e suas ações altruístas mais cheias de intenções; os pobres de mente, cujos pensamentos são cíclicos e eternos, viciados, e não enxergam as necessidades reais das pessoas ao redor, e a morte que assola as almas, preenchedo-as com vazio eterno e lhes anestesiando com prazeres fáceis e viciantes; os pobres de ações, cujos braços sempre cruzados só saem de suas posições para acusar aqueles que fazem algo, que erram e continuam tentando, mas estão vivendo, enquanto sua inação lhes prende a uma rotina que lhes suga a energia e a vitalidade; os pobres de visão, que não conseguem erguer os olhos para contemplar o horizonte, e tudo o que vêem é o chão imediato e sujo; os pobres de líderes, que são presas fáceis de pregadores inescrupulosos e tolos, e lhes entregam tudo, pensando assim estarem de acordo com Deus; os pobres de amigos, que se prendem em suas casas e tornam suas vidas paradas e sem rumo, sem conversas, sem alegrias, sem gente, sem calor; os pobres de pais, que nunca tiveram quem os indicasse o caminho, ou que nunca tiveram alguém para se aconselhar sem medo, mesmo que discordasse deste mesmo conselho; os pobres de família, que não sabem o que é um almoço fagueiro de domingo, o toque de um bebê conhecido, o barulho das crianças que você viu nascer, os sons que remetem á infância, os cheiros que suscitam lembranças, as fotos que causam saudades; os pobres de perdão, que não sabem o que é ser tratado como gente mesmo quando devia receber um castigo, cuja linguagem do perdão sempre lhe foi negada e tudo o que conhece é o castigo e a punição, e neles se fia como único meio de aprendizado; e por fim, os pobres de amor, que jamais conheceram o sentimento que une não apenas um homem á uma mulher, mas um filho a um pai, um avô á sua neta, um Deus a um homem.

Pobres são todos os que carecem de alguma coisa. Não apenas o povo que odiamos ver, que nos insta com seus malabarismos no semáforo. Mas aqueles que tem faltas muito mais profundas e tristes, que coisas não enchem. É a carência, a falta que um sentimento, um afago, uma conversa, uma risada fazem. Esse pobres, nós encontramos aos montes, mesmo dentro das igrejas, pois são aqueles que foram julgados quando deviam ser perdoados, expulsos quando deviam ser acolhidos, acusados quando deviam ser perguntados.

Deus amou o mundo de tal maneira que deu um jeito de suprir essa necessidade. A Igreja, que devia ser a principal fornecedora para essas carências, tem se tornado cada vez mais impessoal. O Jesus que quebrou as regras comendo com prostitutas - carentes de conversas e respeito - e com publicanos - carentes de amigos - não é mais o Jesus celebrado nas ceias mensais. O Jesus que permitiu seus pés serem lavados com lágrimas não é mais o mesmo que entregamos aos aflitos.

Pobres. Estes, sempre tereis convosco. Bens aos pobres significa renunciar áquilo que é superficial: a TV, a casa, a comida, pois tudo isso, e podemos ver Jesus como exemplo, nunca faltou. O supérfluo cobrius nossas vidas, e o conforto algemou nossas mãos. O imprescindível: as pessoas, a família, o contato, a convivência, foi deixada de lado. E a pobreza invadiu espaços muito mais imperscrutáveis que podemos imaginar.

O Cristo morreu porque teve a audácia de tentar mostrar essa pobreza. E ao mostrá-la, comprou uma briga milenar. Pobres são o alvo do Filho do Homem, que veio e criou um meio de preencher as carências diversas que atravessam a mente e o coração humano. Mas eu creio que o décimo primeiro mandamento tem sido negligenciado em prol dos outros dez.