11 de janeiro de 2008

Os livros e a volatilidade da informação

"Meu avô estava sentado em sua poltrona naquela noite. A energia havia caído, pois os raios da tempestade cortaram vário fios. Mas ele não estava preocupado.

Eu estava no computador quando a energia caiu. Minha decepção ao ver a tela perder sua luminosidade, e todo o ambiente escurecer, foi enorme. Estava lendo um artigo na internet. No andar de cima, minha irmã ouvia músicas em MP3 e tagarelava via MSN com suas amigas. Ela praguejou um tanto quando a energia caiu. Meu pai ouvia música, e minha mãe via televisão. Mas meu avô estava lendo um livro, quieto, e sua leitura estava, aparentemente, muito interessante.

Minha irmã reclamou de um cheiro de queimado em seu quarto. Munidos de lanternas, eu e meu pai procuramos a fonte do cheiro e encontramos: a descarga elétrica queimara seu computador por inteiro, perdendo todas as suas informações. Ela se pôs a chorar:
"Eu não tinha backup das minhas músicas, e meu trabalhos de escola?" foi a frase entrecortada de tristeza que ela proferiu.

Eu me gabei um pouco, em silêncio, pois meu computador estava ligado no estabilizador. E pensei no que eu faria se perdesse minhas informações numa descarga elétrica. E cheguei a cogita que ficaria decepcionado como minha irmã. Afinal, aparelhos de backup são muito caros.

Descemos, e para nossa inquietação, meu avô havia acendido duas velas grandes - dessas que a chama é alta - e estava lendo seu livro. Calmamente, ele virava mais uma página. Minha irmã praguejava sobre seu computador. Minha mãe morria de tédio, e meu pai, bem, meu pai apenas se sentou e admirou o espetáculo veborrágico sobre "porque isso aconteceu comigo?" que minha irmã proferia.

A tempestade estava forte ainda. Sem energia elétrica, nós quatro morríamos de tédio, pois a dependência dela nos torna quase autômatos, que perdem os sentidos quando nossos equipamntos eletrônicos paravam de funcionar.

E eu olhava meu avô. Independente dos vícios da modernidade, ele lia seu livro com o auxílio das chamas das velas. Eu até queria ler, minha biblioteca de e-books tinha mais de 300 títulos - mas todos suscetíveis a sumir se onde estão não correr energia. Minha irmã era consolada por minha mãe. Meu pai apoveitava para descansar os olhos, e eu, entediado, morria de inveja de meu avô.

Mas, como todos os velhinhos, ele se juntou á sua senhora ás 9 da noite. No outro dia, ás 5 da manhã, ele estaria de pé, como sempre, para que o cheiro de seu café recém-passado tirasse meu pai da cama. Ao entrar no quarto, totalmente escuro, e a casa, sem sons, pudemos ouvir os ruídos dos seus passos no chão, o ranger da cama de molas - o mesmo colchão há 25 anos. Mas, havia algo errado. A cama de molas não parou de ranger.

"Querido", disse minha mãe, "é o seu pai?"
Meu pai fez uma cara estranha, como quem tentasse descobrir. Ao ouvir um suspiro de prazer, vindo de uma voz feminina de 60 anos, meu pai enrubesceu, e minha mãe abriu olhos enormes.
Envergonhados - afinal, a casa sempre cheia de barulhos nesse horário nos impedia de ouvir sons mais verdadeiros - fomos para a cozinha, mas eu levei junto o livro que meu avô lia.

Todos, trancados de vergonha na cozinha, nos entreolhávamos, como a estranhos. Éramos uma família, onde era mais comum jantarmos na frente da TV que nos colocármos á mesa. Ironicamente, minha irmã rompeu o silêncio:
"O vovô sabe o que fazer numa noite de blecaute, não?"
E rimos. E teve início um dos momentos mais raros de uma família: uma conversa. Entre comentários sobre o que pensávamos que meu avô não era mais capaz de fazer e velas, veio então o assunto do computador de minha irmã.

Eu comentei sobre meu avô ler seu livro á luz de velas, e minha mãe responde dizendo o quão arcaico era isso. "Mas, "eu disse "ele não depende da eletricidade para fazer o que ele quer. Enquanto ele lia seu livro, eu lia um artigo na internet."

De tão acostumados ás facilidades da vida moderna, nos tornamos dependentes, de forma que um simples livro em sua cabeceira pode parecer velho. O novo é digital, lindo, e brilhante. Mas mantê-lo demanda custo, e depende da energia. Um pouco a menos, e o computador não liga. um pouco a mais, e ele vira churrasco.

Meu pai disse que sem eletricidade, não podemos fazer nada. Eu perguntei fazer o quê. Quando foi a última vez que nos sentamos pra conversar, sem que fosse um sermão? Isso fez meu pai levantar uma de suas sombrancelhas.

A informação, de acordo com a modernidade, não deve mais ser escrita ou dita: deve ser digitalizada. Mas isso não a impede de se perder, ou de ser manipulada por quem quer que seja. Livros digitais, imagens em pixels, músicas perfeitas, que podem esvanescer em um segundo, como vapor. A TV dá dor de cabeça e causa sonolência, a internet vicia, e os games hipnotizam.

Enquanto meu avô lia sua informação física á luz de velas, nós nos mortificávamos, por não ter cópias dos dados de minha irmã. Enquanto meu avô demonstrava seu vigor aos 60 anos, nós agora tínhamos um momento em família.

A discussão sobre a dependência tecnológica acabou quando minha irmã bocejou. Não de tédio, mas de sono. Sono real, causado por risadas altas, conversas que exercitam o cérebro e boa companhia. Já era madrugada, e meu avô já tinha servido minha avó, e a casa estava em silêncio.

Quando nos deitamos, a luz voltou. Eu, muito incomodado, me levantei e desliguei. Mas me senti um herói ao fazer isso.

Na manhã seguinte, todos na mesa do café. E minha avó e minha mãe muito sorridentes. Blecautes tem várias serventias."