17 de janeiro de 2008

O Ladrão de bermudas.

Sabe aquelas coisas de criança? pois é, eu tive uma idéia.

"Em mais um dia em que minha irmã esteve doente, eu e minha mãe a levamos á pediatra. Eu tinha uns 12, 13 anos, acho. E consultório de pediatras, é claro, há brinquedos e revistas em quadrinhos, para que os infantes possam não ver a hora passar, mesmo que estejam com dores.

Sobre o tampo de granito, na quina da sala separando os sofás, haviam duas revistas impressionantemente lindas, raras e em perigo. Duas edições especiais: Batman - O dia das Bruxas e uma edição que eu nunca havia visto: Coringa, advogado do diabo. Eu já tinha lido a primeira revista, e assim sendo, minha atenção se voltou para a outra.

Impressas em bom papel, e ambas as revistas em excelente estado, fiquei atônito: como que duas edições desse naipe - uma delas, sem reimpressão até o presente momento - vão parar num perigoso consultório de pediatria? Crianças pequenas não têm noção do valor das HQ`s em questão, e seus dedos melados de baba tranformariam aquele tesouro em papel picado.

Ambas revistas em meu colo, e eu esperando ansiosamente que minha mãe e minha irmã adentrassem a sala da médica, para poder empreender uma pequena aventura: roubar as revistas do consultório, e me apossar daquelas preciosidades, mas o principal: sem que ninguém saiba.

Eu tinha, na época, uma bermuda de bolsos muito largos, costurados á parte. Eram como esses bolsos de calça social, que não aparentam volume. Ao me lembrar desse recurso, eu sabia exatamente o que fazer.

Meus olhos faiscavam de excitação e impaciência. Uma vez que a consulta durava mais ou menos uns 20 minutos, eu tinha um amplo espaço de tempo para esperar, antes de poder ir ao banheiro com as revistas, alocá-las nos bolsos, e voltar, a tempo de que a recepcionista não erguesse os olhos do computador, e tampouco notasse a ausência de duas revistas ali.

Havia também minha mãe: se ela descobrisse que eu havia furtado, me faria devolver, pedir desculpas.... toda aquela canseira sobre honestidade. Mas eu não queria saber: eu tinha que tirar aquelas revistas dali. E tinha que ser tudo muito bem feito, pois elas teriam uma viagem longa dentro dos bolsos, de volta para minha casa.

Passados 20 minutos que minha irmã e minha mãe entraram na sala médica, ouço o som de maçaneta e as vozes de minha mãe e da médica. Rapidamente, fui ao banheiro. Estava na hora de executar meu plano.

As revistas foram postas nos bolsos, mas não dobradas. Elas ficaram coladas na minha perna, e como minha bermuda era larga, o disfarce ficou perfeito. Com o coração na boca, e certo de meu êxito: pois adultos são idiotas, e nunca notam as minúcias dos menores ao seu redor - e acredite, ninguém dizia que haviam duas revistas em quadrinhos nos bolsos, sai do banheiro.

Minha mãe assinava os papéis de saída do consultório. Quando saímos, eu percebi que tudo correria bem: meu tesouro recém-roubado estava bem escondido, e a mente de minha mãe voltada para minha irmã, chegamos em casa.

Nunca meu quarto me pareceu tão amigável, e ao finalmente depositar aqueles tesouros na minha gaveta, me senti um ladrão profissional. Afinal, quem pode com a imaginação de uma criança?"