28 de setembro de 2006

Sobre beleza e tristeza

Ontem, eu estava com um princípio de gripe. A moleza do corpo e a dor de cabeça não me impediram de ir a pé até o centro da cidade.

Com o sangue aliviado da cabeça indo pras pernas, descobri, 47 minutos depois de iniciar minha caminhada, a razão pela qual eu a empreendi.

Uma amiga, que há uns dois meses eu não via, me chamou. Vinha em minha direção, com um sorriso de derreter chumbo. Iniciamos uma alegre conversa.
Ela, como sempre, falou bastante, mas não gostei do assunto: sua incessável busca por um corpo perfeito. Não adiantou eu dizer que ela estava linda - como de fato estava -, ela queria ser perfeita. Dizia que se olhava no espelho e se achava horrível.

Por alguns momentos, eu quis entrar em sua mente e ver o que ela estava pensando. Academia, tratamentos insanos - ela estava com as costas doendo por causa de alguma coisa que foi injetada lá, pra melhorar alguma coisa - faculdade...

Embora ela seja linda como está, eu tenho uma notícia: de lá ela não sai. Quadris largos, rosto redondinho, sem grande altura. Nunca será uma loira sulista, embora seu cabelo evidencie tal intento. Me preocupa se der a louca nela e resover colocar silicone....

Querer consertar o que não está quebrado é correr o risco de quebrar. Uma coisa é fazer redução de seios, pois excesso causam inclinação das costas. Uma cirurgia de redução de estômago ou balão é útil, desde que haja obesidade mórbida. Mas achar que tratamentos pra embelezar o que já é belo são alguma coisa, guarde seu dinheiro.

Essa minha amiga continuou seu caminho, embora eu tenha lhe dito que privações de comida e tratamentos dolorosos são inúteis no caso dela. Com sua feminilidade, pode conseguir o homem que quiser, e com sua inteligência, o que mais faltar.

Minha trsiteza é ver o que as mulheres fazem consigo mesmas. A vaidade feminina é algo inerente á sua existência. Mas levar algo assim ao extremo, em prol de um espelho falacioso e uma moda para loiras de 2 metros, esqueça.

26 de setembro de 2006

Uma comemoração

Ainda ontem, resolvi fazer um teste de tempo: quanto tempo demora do Taquaral ao Swift, caminhando.
1 hora, contra o vento, contra o tráfego e contra o bom senso: que tipo de idiota andaria 1 hora se tem buso pra isso?

(eu respondo: o tipo de idiota muquirana que PODE ANDAR PORQUE TEM SÓ 21 ANOS DE IDADE. Portanto não me encha.)

Resolvi comemorar. Ser demitido de meu antigo emprego foi uma das coisas mais aliviantes que já me ocorreram. Assim sendo, encarei um McDonalds, apenas pra zoeira, jah que ele fica na praça de alimentação do supermercado, que fica no meu caminho.

Lentamente, comendo a batata frita e vendo as expressões das pessoas que por ali passavam, me deliciava com a ordinariedade imposta. Ver tantas mentes que poderiam ser brilhantes, sendo manipuladas por um tempo de movimentação da economia. Lindo.

Comecei meu hamburguer quando outra coisa apareceu pra que eu critique. Um moleque de 16 anos, mendigo de malabarismo, apareceu pedindo esmolas aos comensais e aos que passavam com suas compras. Mas ele não pedia esmola: ele estava com pressa. Sua voz parecia EXIGIR que eu lhe desse meus trocados, e sua presença, ele bem sabia, tirava o sabor da comida.

Sua mão suja e cascuda erguida em concha em minha direção, a mesma que constrangeu os outros presentes, exigia mais que minhas moedas: queria minha atenção. O frio intenso daquela noite não deixou o mendigo tranpirar, então ele não fedia como era de praxe.

Ele passou várias vezes, fazendo com que nós, os comensais, engolíssemos nossas comidas, para que pudéssemos ir embora, para longe daquele mendigo. Sua presença nos era odiosa, nos constrangia. Ele pediu esmolas para todos. E se foi. Sua pressa era racional: logo, algum segurança brutamontes o retiraria do supermercado.

Presenciei tudo isso, comendo lentamente meu lanche. Saboreando-o até a última lambida de cheddar. Isso deve ter ofendido o mendigo: eu devia ter sido o único que ali ficou, matando-o de inveja, fazendo com que sua fome existencial roncasse seu estômago há anos vazio.

Certas coisas não somem, mesmo treinando o senso crítico: pobres incomodam. Tal pensamento, deveras arraigado na mente de qualquer medíocre da classe média, é o que move-nos a condomínios, carros com ar condicionado.

Deveria me sentir envergonhado de pensar de maneira tão racista. Mas não posso negar: eu sou um facínora, que gostaria de explodir eu mesmo os presídios desse país, com todos dentro.

Levantei-me, e fui pra aula.

Ela acabou mais cedo. Eu e minhas amigas fomos pro bar, onde elas beberíam, e eu as assistiria. Uma delas não se alterava com um pouco de álcool, era sempre animada. A outra, bem, era o tipo de mulher que só serve para uma noite, em caso de escassez de melhores companhias. Mais vulgar, impossível.

E em nossa saída do bar, eu ainda com meu hálito de hamburger, um menino de rua, menor que o do supermercado, entrou no bar, para nos pedir esmolas. Ele igualmente tinha pressa. Sabia que sua presença era odiosa.

Eu lamento não sua situação. Eu lamento não sua pobreza. Mas eu lamento que pensem que esmolas são a direção. Eu lamento que gostem de ser miseráveis, e que gostem de ser odiados e repudiados por todos, onde quer que vão. Trabalho?

Sim. Nunca me esqueço do dia em que um mendigo foi á casa de minha avó, e negociou cinco reais e as sobras do almoço em troca da limpeza da calçada, ele e sua vassoura e ancinho. Não se rebaixou. Não se dobrou. Obteve o que queria.

Não preciso dizer o quanto eu admirei. Podia ter pedido. Mas negociou. Este não era um mendigo. Este era um homem pobre. Não um maltrapilho.

Voltei pra casa, e assim terminou minha comemoração.

12 de setembro de 2006

A melhor fake de todos os tempos

Existe um disco, que nunca vi no Brasil, que circula alegremente pela web. São faixas de versões acústicas de músicas - e músicas que não deviam estar lá - do Dream Theater. Cantadas por James LaBrie, ou por alguém que o imita á perfeição, sua voz é acompanhada por violões, uma percussão minimalista e um único backvocal. Estou falando o Acoustic Dream, que tem capa e contra-capa, todavia é como cabeça-de-bacalhau: ninguém nunca viu.

Em seu site oficial, o DT não o coloca em sua discografia. É simplesmente a melhor fake de todos os tempos. A própria gravação é meio porca, com chiados e pulos. As MP3, apesar de rodarem em 256kbps, trazem tais imperfeições. Todavia, ouvir The Silent Man, com apenas dois violões uma voz, um chocalho e uma meia-lua, é simplesmnete perfeito. Em tempos de coisas corridas como é a internet, e onde tudo fica cada vez mais virtual, um acústico sempre cai bem.

Pois quem é capaz de humilhar numa guitarra, deve ser bom de violão. Essa frase tornou-se falaciosa em tempos de ProTools. Eu recomendo: procurem por Acoustic Dream em seus Emules, Soulseeks e afins. Tirando uma ou duas faixas que não deviam estar lá - e saberão porquê - o disco é muito bom. Minha favorita é Oh Holy Night.

8 de setembro de 2006

Um péssimo dia

Sem dívida, esse dia foi péssimo. Passei a manhã toda lendo artigos da web. Entediado. Ligo o MSN e que divertido: um bom papo está escasso. Todos estão ausentes, ocupados, não respondem ou estão sem assunto. Esqueci detrazer algum cd pro trampo. Assim sendo, passei o dia todo ouvindo duas músicas, vendo um videoclipe, e o únci episídio do Aquateen que eu tenho. Decorei as falas já. Agora, me vem uma idiota querendo fazer com que eu trabalhe. Depois do tédio inebriante de minha manhã, ela me vem com trabalho ás 4 da tarde? A preguiça é a mãe de todos os vícios. Mas mãe é mãe, e tem que ser respeitada. Plena sexta-feira, na frente de um maldito feriado na quinta. Pior dia, não haveria. Ao menos, não tenho aula, senão cabularia. E assim, mais um dia se esvai em minha vazia existência. Uma pequena reflexão acerca de minha petulância. Ainda estou me perguntando: porque não dei uma desculpa ridícula de doença, e depois me virava com atestado? Ser honesto, pode ser a melhor política. Mas com certeza, seus benefícios só serão colhidos quando não esperar, e talvez nem precisar deles.

Um abraço aberto?

Acabo de ouvir uma música do Blindside, chamada All of Us.

O refrão diz que todos nós procuramos um abraço aberto. E o clipe passa a mensagem que o que procuramos, pode estar á nossa procura. Interessante. Muito.

É quase um ultraje tudo o que passamos. Esses dias eu fazia filosofações sobre a "triste humanidade". Tendo em mãos as leis de Murphy, onde tudo dá sempre errado, não pude concluir nada. Senão eu não dormiria. Ao ver que nossa vida nunca é o que planejamos, e que por mais que lutemos, é preciso saber que pode ser em vão; chego na música do Bindside. Quase acendo um cigarro. Eu estava tão carente de mulher que quase inicio um vício.

Eu procuro empregos. Aposto que quando achar um, finalmente, todos os outros surgirão com suas ofertas, mas sempre tardiamente. Eu procuro uma namorada. Sei que quando achá-la, até a garota pela qual arrastei minhas asas - e fui dispensado duas vezes - vai vir me cantar.

É muito interessante nossa triste condição. Vejo as religiões se digladiando, se maldizendo entre si, até disputas entre iguais. Coisas nojentas e ridículas feitas em nome de alguma coisa, ou alguma causa. Eu avanço calmamente entre as pessoas. Estou indo pagar uma conta atrasada. Sei que cobrarão mais por isso, e me cobrarão um dinheiro que não quero dar. Calado e calmo, avanço a passos largos rumo aos meus destinos, seja o empobrecimento de minha conta, seja o regozijo de minha língua, ao adocicá-la com chocolates. Vendo suas expressões, eu noto a tristeza da humanidade.

As expressões de quem vai trabalhar a vida toda, e quando aposentar, terá que trabalhar. Eu mandarei meus filhos á merda se vierem com papinho assim pra cima de mim. Todos nós procuramos por um abraço aberto. Seja para chorar, seja para compartilhar, seja para ter prazer. Todos nós. Joguei o maço fora. O isqueiro deve servir pra alguma coisa.

6 de setembro de 2006

Um fato divertido

Eu curto, sempre que possível, checar o que MrManson publica no www.cocadaboa.com.
Um dos mais visitados sites de humor da web ganhou uma garota-propaganda: a libidinosa Madame Bela. Ao entrar em seu blog - agora com um layout melhorado - me deparo com o que todo o blog é: um lugar pra contar histórias.

No meu, eu falo minhas bobagens e tolices. No dela, ela conta suas aventuras sexuais. Uma garota muito gostosa, sem dúvida. Desinibida, só esconde o rosto em seu blog e em seus vídeos por mera questão de conveniência. Em seu blog, a Srta. Bela discorre calma e descomprometidamente sobre sua profissão e diversão: Garota de Programa.

Eu me divirto com tais histórias, especialmente na forma como Madame Bela as conta. Então eis que me deparo com uma certa ironia: Madame Bela é uma mulher muito bonita, sem dúvida. E se utiliza disso para angariar sua vida e de sua família. A ironia mora no fato de ela ter uma família, falar dela e não ligar.

Tantos de nós achamos que GP's são vulgares e invasivas; quando podem ser mulheres absolutamente normais. Elas apenas fazem do seu dever o seu prazer, na verdade do seu prazer o seu dever. Todavia, lendo suas histórias, e mantendo o pouco de audição que ainda me resta, vejo que a expressão "mulheres de vida fácil" não se aplica. Como em qualquer trabalho, há uma certa insalubridade, inerente á qualquer labuta.

Ao som de Earshot - Get Away

4 de setembro de 2006

Paz na Tempestade

Era um dia nublado de setembro. O dia começara com um frio tolerável.

O sono me encobria como meu cobertor. Minha rinite estourava minha repiração, e acordei com minha garganta ressecada. O alto estado de torpor me impediu de ver o que estava vestindo, calçando ou tomando em minhas mãos. Só sabia que tinham que me aquecer e que ali deveria ter meu material de cursinho.

Era fim de madrugada. Andando, nenhum pensamento passava pela minha mente. Meus olhos colavam, minha boca estava seca. Mal sentia meus sentidos, ainda estava dormindo. O ano estava terrível, e tal estado de torpor era apenas resultado de um tempo que eu queria esquecer. Estudos, frio, doença, rejeição, esquecimento. Acho que nunca me senti tão preterido.

Meu pai me dera uma nota de dez reais, e para variar, não consegui troco. Deixei pra lá. Antes de descer do busão, eu passaria pra pegar o troco. Ao me sentar, meu peso avariado pelo esforço parecia não conseguir nem sequer relaxar. Em meu rosto, estava estampado o meu cansaço. Faltava muito pouco para que eu estourasse de ira. Faltava pouco pra que eu a esganasse. Faltava pouco pra que eu cometesse suicídio.

Desci do ônibus. Seguindo pela rua, um sentimento gelado percorreu meu peito. Não havia pego o troco, e aquele dinheiro era imprescindível. Não preciso dizer o quanto eu xinguei. Inventei até palavrões novos. Foi quando descobri uma habilidade que nem sabia que tinha: a de memorizar imagens. Seguindo rastros das lembranças, após uma caminha sôfrega e ofegante, encontro o mesmo ônibus. Consigo reaver o troco. O cobrador sorri. Minha expressão deveria ser bem ridícula. Não duvido.

Minha volta ao meu caminho habitual levou dez minutos. Nunca percorri tamanho espaço em tão pouco tempo.
"Corri tanto por um trocado?" refleti. "Estou tão mal assim? A que ponto eu cheguei?"
Ocorreu-me de parar e me sentar. Mas se o fizesse, o sentimento de amargor subiria sobremaneira, e se ele tomasse minha mente, nem vícios o aplacariam. Precisava manter minha mente ocupada.

Fazia mais de uma semana desde que tinha tirado um dia inteiro pra chorar. Eu havia marcado um dia, na agenda, com letras garrafais, no dia em que estaria sozinho. Um certo alívio me fez dormir. Mas tal alívio não fora o suficiente para manter-me vivo. Meu mau hálito evidenciava minha quietude. As covas em meu rosto denunciavam meu peso deixado em algum lugar.

Essa pequena reflexão tomou toda a minha manhã no cursinho. Sem poder comprar nada pra comer no intervalo, fiquei na classe, rabiscando meu caderno. O período acabou ao meio dia.
Prestava atenção na aula, enquanto uma voz soprava, cálida e zombeteira, dizendo o quqnato meus amigos estavam se divertindo sem me chamar, o quanto ela estava feliz com seu namorado, e quão incapaz eu era de conseguir lidar com isso. Um grito beirou minha garganta. Minhas unhas roídas machucaram a palma de minha mão.

Foi quando uma tempestade se armou no céu. E com ela, raios e trovões. Eu já não prestava mais atenção em matemática, mas nos deliciosos sons que vinham de fora. Nos resmungos dos que tinham que pegar ônibus, como eu. Os céus tomaram minha dor e agora, castigava a todos.

Quando deu o horário, fomos dispensados, e ridículamente, a pequena porta de entrada foi tomada, de pessoas; que traziam expressões irascíveis frente á tempestade. O vento era fortíssimo, que ergueu a capota plástica de uma picape. A enxurrada tomava a calçada. Acho que foi a primeira vez, em quase 6 meses, que eu me sentia um pouco melhor. Meu ônibus não esperaria por mim.

Mandei minha rinite alérgica pra merda e saí. O vento mudara de direção, e agora, me empurrava para cima. me ajudando a chegar em meu próximo destino. A chuva que batia, vinha em minhas costas, como se soubesse de minha saúde parca. As nuvens me deram um espetáculo privado, e raios se entrecortavam, rugindo.

Cheguei ensopado em meu ponto de ônibus. Até minha cueca estava encharcada. Eu era o único extraterrestre que se aventururara na tempestade. Meu ônibus não tardou em chegar. Tomei o último assento. Quem se sentaria ao lado de um cara molhado? Quase gargalhei sozinho. Como o povo é ridículo!

A tempestade virou uma chuva fina e cortante me recepcionou ao chegar em casa. A chuva lavara minha alma. O resultado fora a pior chuva que desabou na cidade naquele ano. Pessoas sem casa. Desmoronamentos. Prejuízos. Saques. Alagamentos. Um blecaute que durou toda a tarde na cidade, e na região em torno.

Eu sei que não fui o responsável pela chuva. Já que ninguém iria me emprestar seus ouvidos, resolvi agüentar sozinho. Assim sendo, começo a acreditar que a natureza, ás vezes, dá um descanso para os fatigados. Seja um abrigo, seja qualquer coisa.

Exasperado e nu, fui tomar banho para me aquecer. E dormi com o blecaute e o dia escuro que fez. O bálsamo daquela tarde nunca se repetiu mais. Mas quem se importa? A leveza e o aconchego assaltaram-me num repente, e adormeci. E jamais dormi tão bem, nem durante o dia e nem durante a noite, como naquela ocasião.

-----------------------

Esse é um conto baseado na música "Every day is exactly the same" do NIN.
Usando um pouco da doidice de Trent Reznor e um pouco de imaginação, resolvi escrever.
Confesso que me empolguei um pouco.