28 de agosto de 2006

A Escolta

Em minha enfadonha rotina, aos sábados eu saio com meus amigos. Nada de novo, a não ser que eu tenha que me locomover para chegar até onde eles estão. Nada novo, se eu tivesse paciência de esperar a porra do busão. Como não tenho, uso minha idade e caminho a pé por uma hora, até meu destino.

Em minha enfadonha rotina, eu ando e vejo coisas normais, invejáveis, desgastantes, inúteis, belas, feias....o de sempre. Mas alguma coisa estava ligeiramente fora do lugar.
Ao chegar na metade de meu caminho, me deparo com dois cães vadios. Como de costume, sigo sem titubear, afinal, meu grande sonho é poder reencarnar como sendo um cão vira-lata. Entretanto, eles seguem o mesmo caminho que eu, e assim sendo, acabo por ganhar uma estranha companhia.

Dois cães cor de gasolina, um deles com o rabo cortado. Algumas marcas falham seus pêlos, e seus dentes mostram o que já tiveram que morder para continuarem vivos. Todavia, quando passei por eles, o que não tinha rabo veio atrás de mim, a poucos centímetros; como se eu fosse seu dono. O outro cão ia á frente, abrindo caminho; bem mais serelepe.

A escolta me acompanhou por um pedaço razoável do caminho. E assim sendo, alguns me olhavam com estranheza, pois se incomodavam com a preseça dos cães, mas não estavam habituados a vê-los cercando calmamente uma pessoa; e esta não se incomodar.

Não os espantei, tampouco os ameacei. Deixei que viessem comigo; afinal, uma companhia durante uma caminhada solitária de 1 hora é sempre bem vinda; desde que eu não precisasse mudar minha toada. E assim foi, por uns 20 minutos.

Quando cheguei num cruzamento, minha escolta me deixou. Cães não se dçao muito bem com semáforos e carros. E dali em diante, voltei á minha caminhada, de volta á minha sombra única. Senti falta. Fora uma boa companhia.

Jamais vou entender o porquê dos cães terem me acompanhado. Mas vou me lembrar como um episódio pequeno, porém interessante; que melhorou um pouco minha enfadonha rotina.

24 de agosto de 2006

Falta de vergonha

Evanescence soltou no mercado sua nova música, e seu novo clipe. Amy Lee, linda como sempre, está sem criatividade como nunca. Eu sou um apreciador de Evanescence. e gosto principalmente da voz de sua frontwoman. Todavia, escutar a nova música e escutar as músicas mais antigas do EVN me deram uma certa decepção.

Enquanto a musicalidade e a força continuaram embaladas, as letras e a poesia se mantiveram. Que é isso? um disco novo e ainda letras de auto-ajuda? É isso o que eu não aprecio Nu-metal: não se fala mais de assuntos, fala-se de "eu". A palavra "me" aparece 4 vezes no refrão do hit de Amy Lee. Fora que o clipe deixa bem claro uma coisa estapafúrdia: ELA é a banda inteira.

Ben Moody se mandou e agora ela comanda tudo. Não vi em nenhum momento alguma coisa que valorize o trabalho braçal dos outros integrantes. Tudo bem, Amy Lee é linda pra caral*o, mas isso não justifica a pífia e retornante letrinha do hit de 2006. Em todas as músicas, o EP até o futuro The Open Door, só se fala de dor, tristeza e atrocidades cometidas contra o "eu" das músicas. Todavia, tudo isso tem que parar.

Linkin Park e Evanescence são rock de auto-ajuda. Agora responda rápido: porque acha que Aerosmith e Pink Floyd ainda fazem sucesso?Resposta: mesmo velhos, conseguem ser originais.

18 de agosto de 2006

Cheschire

Nunca li Alice. Peguei o E-book e pretendo fazê-lo.Mas quem precisa ler coisas sobre loucura se esta hoje é a moda?
O adjetivo "louco" deixou de ser pejorativo para ser um predicado muito procurado. Qualquer um pode ser "lôco". usar uma roupa, adotar um determinado visual ou ouvir alguma música, são os meios mais procurados para receber tal predicado.
Eu tenho um sério problema com isso. Adoro ser notado e faço de tudo para que a atenção de tudo e todos, e detesto, muito mais que qualquer pessoa normal, ser jogado pra escanteio. Todavia, essa necessidade é suprimida em prol do anonimato. Usar uma simples calça jeans e a minhas eternas camisetas pretas me dão uma certa paz. Embora ame holofotes, muitos diriam que sou o tipo do cara que pode entrar mudo e asir calado.
Porquê? E porque isso tem a ver com o Gato de Cheschire?
O gato guia Alice. Ele sabe. Tal como ele, percebi que manter-me quieto e evitar ao máximo meu tão sonhado endeusamento é recompensador. Posso entrar em qualquer lugar e ser recebido pela panelinha dominante, sem interferir-lhes a convivência, e assim, aprender sobre o que são e o que mais eu puder obter. Tal como o Gato de Cheschire, a loucura minha é mandar minha índole calar-se. Saber que a chamada "loucura" nada mais é do que a incessante busca pela originalidade, encerrada na virada do século.
Ser louco é ser nada. Ser rebelde num shopping center? Um revoltado com a sociedade de consumo, usando uma roupa da Cavalera? Detestar o capitalismo, e competir com seu colega de trabalho quem consegue a promoção?

Loucura hoje tem um nome. Chama-se COERÊNCIA.

16 de agosto de 2006

Sobre paciência e leveza

Não vim discorrer acerca da insustentabilidade de meu emprego, tampouco do que nele ocorre.
Vim discorrer sobre uma coisa que aprendi a ter. Paciência.

A longanimidade para com um dos chefes me deu uma coisa que jamais pensei em sentir: desprezo. Desses que nós temos apenas pelas pessoas que nada nos acrescem, apenas nos decrescem. Ele gosta de me irritar, e até hoje, espera uma explosão de ira minha, o que culminaria em seu sonho realizado: minha demissão sumária. Todavia, ele ainda persegue esse intento, e sempre tem alguma ressalva inútil sobre alguma coisa que eu faço.

Ter paciência com esse elemento me ensinou uma coisa interessante: o sliêncio pode ser o maior insulto de todos. Pois ele é velado, cauteloso. Assim sendo, nada falo. Sempre atarefado com alguma coisa - jamais saberemos o que é - ele procura o estorvo de todos na empresa. Já teve baixas estratégicas em sua equipe. Mas o que ele mais odeia é minha paciência. O simples fato de persistir me dá a leveza de espírito, aquela que lhe diz quando está fazendo a coisa certa. O desprezo é um sentimento que jamais deveria existir. Mas nós o sentimos quando nos deparamos com um mendigo, um menino de rua. Esse desprezo é normal; o sentimos por uma pessoa "inferior".

A falta de valor que legamos á pessoas de nossa convivência é fruto dessa própria convivência. Conhecemos, passamos por situações e acabamos por saber se tal pessoa merece ou não nossa prelazia. Se não, a respeitamos. Se não, a jogamos no limbo e sua existência passa não a ser odiosa, mas apenas pesarosa. Assim sendo, trago-vos que o silêncio é muito mais ofensivo e reprovador que o maior palavrão. Pois ele tem classe, e assim sendo, subjulga a pessoa a quem ele é enviado. A paciência gera o conhecimento. O conhecimento leva á escolha. A escolha leva á separação. Uma vez efetuada, quem ficou de fora, recebe o total isolamento e má vontade. Recebe a falta de valor.

E tal coisa quebra o ego,e humilha aos poucos, até sobrar apenas o silêncio

1 de agosto de 2006

Fabi, professora

Fabiana, ou simplesmente Fabi Loka, foi minha professora de gramática na Cooperativa do Saber, em 2002 e em 2004. A mais fantástica professora que jamais verei outra.
Sua fisionomia não lhe permite jamais que minta, então era flagrante sua satisfação em dar aulas. Saíamos na porrada pra ver suas aulas, e amargávamos quando a perdíamos. Não que sua matéria fosse digesta - muito pelo contrário, sempre odiei análise morfossintática - mas suas aulas eram cheias de vontade. Ela estava lá por que queria estar, ao contrário de professores que adorariam não ter que dar aulas e ir pesquisar.

Sua mísera única aula, ás quintas feiras, era o elixir que me movia a encarar as outras aulas, de matemática e física. Não apenas nos ensinava a usar o que aprendíamos nas redações, mas no falar do dia-a-dia, especiamente com superiores. Mas o que nos movia a calar-nos e sorver-lhe o conhecimento era o que vinha depois da aula.

Ela sempre usava alguma poesia para nos encorajar. E não estava preocupada com que faculdade faríamos, desde que fizéssemos o suficiente por nossos futuros.
Se não era poesia, era algum raciocínio baseado em notícias, fotos ou histórias que contava. E tais raciocínios eram muito elucidativos, acerca de atos, comportamentos atuais; geralmente seguidos de ojeriza que causava, quando trazidos á baila da discussão.
Lembro-me de uma de suas frases: "cada um tem seu tempo. Se não for hoje que você vai entrar, pode ser no ano que vem, e também pode ser que a Unicamp não seja pra você. O melhor pode ser qualquer outra coisa, que talvez ainda não saiba."

Isso me deu certo ânimo, e diminiu o amargor de meus fracassos seguidos ao tentar faculdades públicas. E fez com que eu abrisse mais a cabeça para o aprendizado eterno. Me tornei crítico e até mesmo cético por duas razões: minha inclinação natural, advinda de minha mãe; e o direito de filosofar, afiado pela Fabi Loka.

O tempo passou, e além de livros na bagagem, meu cabelo cresceu. E no dia 14 de julho, uma sexta feira, saí pra curtir com uns amigos. Fomos á um bar, mas antes, fomos num shopping de bairro sacar dinheiro. E olhando as vitrines, eu vejo minha professora. Sozinha, e com seu semblante consternado.
É óbvio que ela não se lembrou do meu nome, afinal, deu aulas pra mais de 5.000 alunos; nunca que se lembraria do nome de um só. Mas me reconheceu, sabia que fui seu aluno. E conversamos um pouco; o suficiente pra que eu soubesse que tinha sido demitida do cursinho que ajudou a erguer. O suficiente pra que ela não soubesse que eu estava na UNIP, e não na Unicamp, como era de meu intento. E o suficiente pra que eu pudesse ao menos lhe dar uma parca palavra de ânimo, daquelas que querem dizer muito mais do que realmente significam.

Temos professores que nada adicionam em nossas vidas. E tem outros que fazem toda a diferença.
Fabiana, Fabi Loka. Ela foi a minha professora.


Ao som de Kevin Max - Fade To Red (Antigalaxy)