11 de janeiro de 2010

O provável último Post

Desde 2006 posto aqui. Criei um blog para achincalhar meu antigo chefe, depois para mostrar o quão nerd ou melhor que os outros eu sou, pra depois mostrar o quão "revoltadzinho" com a igreja eu me tornei e como ela é fraca....

The Godspeed é um nome que eu gosto bastante. Mas o que ele é não reflete mais o que eu sou. Percebo que passei maior parte do tempo tentando mudar o mundo, mas o máximo que eu fiz foi apenas torrar minha paciência. Não nego que uma vidinha pacata, com um empreguinho feliz e uma familiazinha de smileys sorridentes não me agrada muito. Posso sim, ter uma família feliz e posso sim, ser mais que o mero trabalhador, que trabalha de sol a sol para encontrar a felicidade numa TV de led ou num blu-ray. Muitos de nós estão fadados a uma vida assim, e eu não me isento.

Mas eu cansei de ser o chatonildo que posta num blog de grafia difícil, onde ele lê seus escritos para louvar-se a si mesmo de suas palavras difíceis e de seus argumentos "irrefutáveis". Não quero mais achincalhar a igreja. Faço parte de uma, que amo tanto, e que tem tantos defeitos como qualquer uma. Tem problemas violentos, que podem ser mitigados das formas mais simples, mas eu não sou o pastor, tampouco sou líder de alguma coisa ou sou alguém a quem as pessoas ouvem. Por mais que eu estude, ou leia, ou raciocine, de nada isso vale, se não puder ser transmitido. E confesso que este blog tem funcionado apenas para que eu me louve.

Peço perdão aos poucos que aqui entraram e se depararam com tratados científicos sobre coisa alguma. Por mais que eu tenha pretensões de me espelhar em meu mentor, Paulo Brabo, não sou ele. Não sou um homem á beira dos 50 anos, numa chácara com um emprego que eu gostaria pra mim. Sou Paulo Víctor, e sou um jovem homem que agora começa sua vida de fato, que tem inúmeras lutas pela frente, decisões e escolhas, e que já passou do tempo de se questionar se deve ou não seguir a Deus. Agora, o que ele tem que fazer é seguir.

Fatalmente eu não vou deixar de blogar. Gosto muito de escrever, mesmo que pra isso eu não tenha lá muito talento. Mas penso que postar contos, histórias, poesias e estudos bíblicos sejam de melhor gosto que textinhos que causam fastio. Mas se isso acontecer, vai acontecer de uma outra forma, sob outro nome, com melhor conteúdo.

Israel; obrigado por me abrir os olhos. Não desista de mim, por favor.

David; sua paciência comigo vai ser recompensada. Como, eu não sei, mas vai ser.

Mari; nunca deixe de me mandar notícias. São seus a quase totalidade dos comentários daqui.

Paula; eu ainda estou aqui e você ainda está aqui.

A todos, muito obrigado. De coração.

Godspeed.

24 de dezembro de 2009

A Repetição

A todos os que me são caros
A todos os que entraram neste blog
A todos os que são meus amigos, colegas, parceiros
A todos os que me odeiam

Que o Natal seja feliz, que tenha tudo do bom e do melhor não só na mesa como na vida inteira

E que 2010 seja melhor que 2009.

E por mais que as palavras sejam muito parecidas com as tantas repetições, tenha certeza que essas são sinceras.

A todos, muito obrigado por este ano, e que nos encontremos no próximo.

GODSPEED YOU!

21 de dezembro de 2009

Unplugged

Tive uma despesa interessante semana passada. Pela primeira vez, comprei uma agenda que já está sendo usada, mesmo que o ano a qual se destina esteja á alguns dias de distância. Ela já tem meu primeiro compromisso do novo ano, a lista de livros e discos que pretendo obter no ano a chegar.

Mas o lance mesmo foi um caderninho.

Tenho estado muito ocupado em meu trabalho, onde cobranças e afazeres se avolumam. Por isso, meu blog está ás traças, o blog da JNI em igual estado, e meu twitter recebu apenas hoje alguma coisa nova. De qualquer forma, eu comprei um caderninho.

Mas tem alguma coisa que me fez comprar aquele caderninho.

O preço era abusivo, o produto é importado, as folhas amarelas e ele tem capa dura preta e um elástico. Isso mesmo, é um Moleskine. Tê-lo em mãos me trouxe a possibilidade de ser mais espontâneo e sincero em minhas palavras, economizar frases ridículas, ciber-micos, e twitadas.

Fiz meu primeiro estudo bíblico manuscrito ali, que pretendo transcrever com maiores detalhes para o computador mais tarde. Escrevi poemas. Desenhos ridículos. Mas me colocou pra pensar numa coisa.

Blogs, câmeras digitais, photoshop... tanta coisa que contribui ao mesmo tempo pra nada. Sinto que passamos tanto tempo numa aura de mediocridade, onde qualquer coisa desce. Uma foto de um fotógrafo profissional é hoje desdenhada em prol de inúmeras tentativas com uma câmera de 7 megapixels. Uma postagem de incentivo a "viver a vida" vale mais que um bom texto de Victor Hugo ou Machado de Assis sobre a própria vida.

Poder processar as idéias é uma coisa que está em decadência, por causa de uma pressa mal direcionada.

Mas vou parar por aqui. Não vou discorrer mais ainda sobre um assunto tão batido. Vou pro meu caderninho, onde dá pra pensar sem energia elétrica.

Volto pros cumprimentos de fim de ano.

23 de novembro de 2009

Notas de um fim de semana

Eu costumo ser detalhista sobre meus fins de semana fora do comum igreja-lanchonete, mas hoje, eu vou falar algo diferente. 

Aqui, dentro do meu trabalho, faz um frio lamentável. O Horrível ar condicionado congela a muitos, refresca a outros e é razão de ofensas não declaradas e egoísmo implícito. Voltar aqui, hoje, é como um soco durante um sonho que já estava no final. 

Tudo correu muito bem no meu fim de semana. Sim, excepcionalmente bem. Descobri que tenho mais amigos que eu pensava, mais pessoas que gostam de minha namorada do que eu imaginava. Isso me dá fôlego pra suportar a torcida contra, o tempo ruim, o falatório desnecessário, as cobranças indevidas. Ao rir, eu me sentia vingado de todos os problemas e pessoas que os causaram, como se cada risada lhes causasse dor. E como se cada gargalhada junto com minha moça soasse como afronta. 

É difícil saber que os lugares onde poderia vir apoio vem alçapões, e onde deveria haver luz há um trem sem freios. Mas é interessante descobrir as fontes que jorram água de qualidade excepcional escondidos nos recônditos mais inesperados. Assim, eu creio, que Deus mostra quem Ele é. Apesar do caos instaurado, Ele reina, e seu trono não é uma privada. 

Percebo que as dificuldades e contrariedades podem ter dois usos: razões para desistência ou demonstrações de caminho correto. O que é mais fácil nem sempre é o certo, e o que parece errado nem sempre o é sob outros olhares. Ying-Yang? Não. Mas ao notar que pessoas que enxergam a vida em preto e branco, sem se importar com as tonalidades, escolhas, conseqüências, passados, razões e afins, trnasformam tudo o que tocam em pedras e abrolhos, sem conseguir ver nada além do que seus óculos míopes permitem. 

Somos o que escolhemos ser e isso é fato. Podemos, como prega a psicologia atual, colocar a culpa de nossos fracassos em nossos pais, em nossos genes, usando a vitimização e a neurociência pra isso, e nos eximirmos das culpas que nos cabem. Jogar as razões de escolhas erradas sobre os outros é fácil, e encontrar expiação em quem não pode se defender por não estar mais lá, ou por não mais se importar, é ser covarde. Sim, pais tem influência, mas há a escolha: se deixar ser como eles, ou ser melhor do que eles, e acertar onde erraram, melhorar onde acertaram e construir um legado ainda maior que o que lhe será deixado. 

Saber enxergar o que há por trás de tantas coisas que existem, ações e palavras, ameaças e desejos, é algo que exige tempo e exige paciência. Ambas coisas que poucos têm e menos ainda utilizam, e menos ainda o afiam. 

Nada vai me tirar o prazer deste fim de semana. Nem a cara feia, nem a má vontade, nem a ameaça. O futuro a Deus pertence, e com Ele está em melhores mãos. Eu acredito que Aquele a quem sigo sabe o que está fazendo, e não vai me deixar. Eu sei que Ele preparou este fim de semana tão bom e tão perfeito. Esquecer um detalhe ou outro são inerentes de uma pessoa comum. Seja como for, é nisso que eu acredito.

3 de novembro de 2009

Nerds

Hoje, fui á contragosto pra uma reunião. Tudo bem, quase todas as reuniões que vou são á contragosto. Mas hoje, ue tive uma epifania, ou quase isso. 

Antes de falar da reunião, vou explicar: sou nerd convicto. Gosto de tecnologia, de internet, computadores e celulares. Mas também sou fissurado em carros e motos. Não morro de amores por seriados - só que um mal assisto, Lie to Me - tanto que meus amigos mal se agüentam por Lost ou That '70s Show e coisas assim, e eu não dou a mínima. Gosto de videogame mas não troco os beijos de minha namorada por um God of War. 

Sou nerd sim. Mas consciente. 

Ao entrar na reunião, me senti um personagem do Dilbert, onde ele se mete em situações bizarras dentro de uma grande corporação. Reuniões intermináveis sobre assuntos inúteis ou então louvando algum diretor. No meu caso, fui chamado pra participar de uma coisa assim. 

Querem fazer uma filmagem, usando pessoas DA EMPRESA pra figurarem situações de trabalho, inserindo um teor cômico. Primeiro: eu não vou expor minha cara num evento prum monte de gente de graça. Faço pra amigos, pra diversão. Mas pra gastar meu tempo de trabalho num mico do tamanho do Pará, nem que cocô virasse brigadeiro. Segundo: vou ocupar tempo ocioso do meu trabalho pra cumprir com um capricho desses? Na real: vou levar trabalho não remunerado e dispendioso pra casa pra usar o MEU computador no MEU tempo livre. Eu deixo de ser uma matrícula pra ser PV de novo quando dá 6 da tarde. Nem ferrando. 

Não obstante, duas figuras icônicas. Dois homens, acima dos 25 anos, ou chegando lá muito em breve. Não darei descrições físicas, mas eles estavam empolgados para fazer esse filme, encenar uma ridicularia em prol da empresa. Vem cá, sério, acabamos de sair de um fim de semana; o que fizeram nele que faz uma pagação de mico empresarial tão empolgante e divertida? Estrangeirismos aos montes a cada 6 palavras, adereços fora de idade, aparência sem nenhum cuidado, "a mãe deve ter comprado"... E ali, naquele meio, deslocado e me perguntado "porque eu?", a minha pessoa. 

Ao ver essa situação, numa reunião que duraria 1 hora ou mais, saí. Dei uma desculpa verdadeira e me mandei, pra nunca mais voltar. Se vai ficar legal ou não, não sei, não quero saber. Quando uma pessoa abdica de sua vida pra se envolver em projetos sem noção apenas pra animar uma reunião oficial, alguma coisa está errada. MUITO errada. 

Meus amigos são nerds, mas um namora e o outro, apesar se não saber combinar as roupas, é um cara consciente de que há mais coisas que trabalho. MAIS VIDA, POR FAVOR!!! Chega dessas coisas de "sangue pela empresa" pois isso só te faz mal. A empresa vai te mandar embora assim que for preciso, não importa o quanto você se deu por ela. 

Agradeci imensamente ao meu Deus por ontem: lavei o carro do meu pai, comi um bom churrasco, namorei, fiz um bolo, brinquei com meu quase-filho, e ainda fui a uma festa de aniversário surpresa. Terminei meu dia com um lânguido e delicioso beijo de minha moça, e fui dormir feliz da vida. VIDA. Coisa que algumas pessoas não têm porque acham um PlayStation mais interessante que risadas, um computador mais sedutor que uma mulher, um emprego mais valioso que amigos. 

Hoje, dia três de novembro de 2009, eu agradeci imensamente por não ser como aqueles caras.. 

5 de outubro de 2009

Awake - Final

Seu mais novo instinto o mandava sair correndo. O instinto de ocultação, coisa nova para ele, criou um mar de sensações num minúsculo porém eterno microssegundo: ele queria sair correndo por ela ser sua amada, queria sair correndo porque ia fazer uma coisa horrível porém "necessária"; queria abraçá-la e beijá-la, tamanha saudade que sentia, queria contar a ela o que estava havendo, queria saber como estava seu pai e sua irmã...

Uma ordem o moveu para dentro do elevador, e ele se postou ao lado da namorada. Ela estava igualmente travada. Não sabia se chorava, se batia nele, se o beijava, se perguntava... só sabia que ambos desceriam no mesmo andar, quando ele fez menção de apertar o andar já iluminado. A tensão entre os dois podia cortar o ar, se permite o clichê. Quando saíram no andar solicitado, apenas eles desceram. Seguiram caminhando lado a lado e ouviram a porta se fechar atrás deles. Ela rompeu o silêncio:
 - O que está acontecendo? - rispidez, angústia e carinho estavam presentes neste som.
Ele não sabia o que dizer. Seus alvos estavam a poucos metros de distância e ele teria que explicar? Que outra chance teria?  O que fazer?
 - Eu não sei. Sei que tenho que colocar duas pessoas no meu lugar pra poder voltar.
 - O quê?
Ele parou, a encarou e disse:
 - Se afaste, confie em mim e volte ao hospital onde estou em coma. Tenho uma coisa pra fazer e não quero você aqui.
 - Mas eu...
 - Você terá uma explicação. Eu lhe darei. Mas agora não.
E saiu.
Ela estava sem saber o que fazer. Ele foi claro e muito sério no que dizia, quase intimidador. Ela resolveu voltar, mas queria ver o que ele iria fazer, se era tão sério assim. Se dirigiu até a escada de emergência, logo ao lado do elevador, mas se virou, no momento em que viu o que seu namorado fez.

Entre as cãmeras de vigilância, há espaços sem visão: partes do prédio onde alguns poucos metros são mal vigiados. No corredor que leva ao elevador do outro lado, havia um enorme espaço escuro, onde uma porta de mogno centenária escondia uma sala de limpeza e a entrada de sol. Atrás deles, vestido de residente, armado das seringas com sedativo, foi rápido e usou as duas mãos para injetar nos braços do pai e do filho. Quase instantâneamente, antes de chiarem de dor e susto, caíram desacordados.

Foram amparados pelo rapaz e levados, sem susto até a sala da limpeza. Ali, escondidos dos outros, receberam as outras injeções, e caíram em coma. O rapaz despiu o moleque, pegou suas roupas - favoritas - as embrulhou e colocou numa sacola. Saiu vestido como seu algoz, e saiu pela porta da frente. Levaria alguns minutos apenas para que se dessem conta que os dois não saíram dali, e umas duas horas para abrissem a sala da limpeza, ainda mais num andar mal vigiado.

Dobrou a esquina, viu sua moça no fim da rua. Ao chegar perto dela, sentiu uma coisa nova. Era uma sensação semelhante a que ele teve quando se viu acordado unido ao homem dormindo. Se sentia vazio. Olhou as mãos, e viu que estava translúcido, quase transparente. A namorada o olhava, em pânico, quando ele apenas disse:
 - Estou acordando.
E suas roupas caíram vazias no chão. A moça estava sem reação: vira-o desaparecer na sua frente, sumindo em poucos segundos. Pegou a sacola com as roupas dele, largou as roupas que ele vestia no chão e correu para onde ele deveria estar: numa cama deitado em coma.

Ela sabia que deveria mascarar sua face empalidecida de medo, por isso, corria. Ela sabia que não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que tudo estava relacionado: a velhinha, a primeira aparição dele na rua, as roupas no chão, as injeções de sedativo naqueles dois... de alguma forma, ainda que absurda, seus passos acelerados na rua acompanhavam a cadência com a qual ela pensava e juntava os fatos. Ofegante ainda, entrou feito um foguete no elevador que fechava a porta.

Nunca um elevador foi tão devagar.

Desceu no andar, correu pelo corredor e abriu abruptamente a porta. A mãe tomou um susto. Ele jazia, ainda, inerte e inexpressivo em seu silêncio. Sentou-se, ofegante, enquanto sua sogra perguntava o que aconteceu, sendo que nem ela ainda podia tranformar em palavras o absurdo que presenciara. Entregou-lhe a sacola de roupas e desabou no pequeno e desconfortável sofá. Frustração. "Estou acordando", ele disse. O que foi aquilo? Sua sogra saíra do quarto, para levar as roupas do filho para lavar, e ela adormeceu.

Acordou abruptamente, com a escuridão da noite. Viu a irmã deitada num colchonete no chão, em melhor conforte que o sofá. O quarto estava sem luz, apenas com a mínima claridade vinda de fora. Seus olhos se habituaram á pouquíssima luz, e logo passou a se lembrar do que lhe acontecera: seu namorado em coma acordado na sua frente, no outro hospital, armado de seringas. Viu ele desaparecer dentro das roupas, na sua frente. O ouviu claramente, e se lembrava da frase "estou acordando", ecoar nesses pedaços de lembrança.

Desviou o olhar do nada e voltou-se para a cama: aparelhos deligados, fios dependurados e o cobertor revirado, mostrando o lençol e as marcas de presença ali. Ainda estava quente. Atônita, acordou sua cunhada, que começou a tremer de felicidade. Não havia nada no banheiro. Ao saírem, viram um homem na sala de espera, com a janela aberta, expressão cansada de alguém que não se mexeu por um tempo diferente do normal, e um copo com chocolate quente na mão. Mal se contiveram, e correram pra abraçar o recém-chegado rapaz, ainda frágil, mas de volta.

------

O dia seguinte, pessoas e mais pessoas lhe fizeram comemorações. Ele olhava pra sua namorada com ar de cumplicidade. Em dois dias, recebeu alta e foi pra casa. Ela nunca mais perguntou nada sobre aquele dia, nem ele nunca mais tocou no assunto. Eram 7 horas da manhã quando entrou finalmente no carro de seu pai e foi levado pra casa.

Pela janela do carro, ele viu um garoto de uns 18 anos, bem trajado, com expressão perdida, sair pela porta dos fundos do outro hospital.

27 de setembro de 2009

Awake - Parte 7

Sentada num banco do corredor, a namorada via os médicos atestando o óbito da velhinha simpática. Eles estranharam as roupas caídas ao lado da cama, mas aquilo era um hospital, o lugar onde milagres e estranhezas gostavam de se manifestar. Perguntaram á moça, que apenas gaguejou; sua mente estava a mil por hora, em elucubrações sobre o que vira nesses dias: um homem perfeitamente igual seu namorado na rua, trajando as mesmas roupas do dia do atropelamento, enquanto ela o vira, poucos minutos depois, inerte na cama do hospital. Perguntava-se se era possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. O corpo da velhinha e as roupas no chão nada diriam.

Ele aguardava. Os médicos corriam para tentar ressucitar o velhote, e a máquina de ressucitação fora acionada umas sete vezes. Afinal, um hóspede rico daquele rendia bons dividendos de aluguel de quarto e cuidados, e ele morto não valia nada pra eles, mas devia valer pra família. Não demorou muito para que o pai e o filho - sendo este último o responsável pelo coma do rapaz - estivessem presentes para ouvir do médico principal a notícia do óbito. O garoto não fez menção e desdenhou de qualquer informação, e o pai se fazia de forte: afinal, seu pai morto e seu filho um imbecil, a família estava á deriva.

Foi quando o rapaz se lembrou de uma coisa que a velhinha lhe havia dito: as coisas se ajeitavam por si mesmas. Cabia a ele apenas intervir em um deles. Bem, o rapaz sabia que tinha que trazer um pra poder sair dali, e agora dois, uma vez que despachou o velho. Mas não sabia como fazer aquilo funcionar. Mas ora vejam só: isso aqui é um hospital, tem tudo o que se precisa pra colocar um ser humano em estado total de invalidez. Uma busca dentro do hospital e encontrou vários pacientes em coma induzido, ou seja, durmindo sob ação de substâncias. Uma dose mais alta, e cai em coma profundo. Eles ainda iam se demorar no hospital. Jovem ainda, jamais convenceria ser um médico, mas sim um residente inexperiente e ansioso. E num hospital grande, quem se lembra se são tantos rostos?

Ninguém soube dizer á irmã o que acontecera. Um homem a perseguia e depois sumia dentro das próprias roupas. Deixou coisa boa pra trás, que os faxineiros trataram de não deixar na seção de achados e perdidos, especialmente a correntinha e o anel, de ouro em alto grau de pureza. Ainda se refazendo do susto, a namorada entrava no quarto. Ao saber a história, imediatamente associou ao estranho sumiço por ela presenciado há pouco tempo. Haveria alguma relação?

Conseguiu, após algum esforço, encontrar os documentos do sumido. O rosto era igual ao do homem que a subornara, bem como o sobrenome. Dados médicos são fáceis de encontrar em hospitais, e estes se comunicam, especialmente sobre pacientes trasnferidos e medicações a serem administradas, e assim sendo, logo encontrara o hospital onde o homem sumido estaria, sem que ela soubesse que encontraria um cadáver. Era perto dali, e sem cerimônia, foi até lá.

Uma porta trancada no bem vindo horário da janta, um manual de instruções e o rapaz tinha um kit com seis seringas, separadas por cor: amarela, para dormir; azul para induzir o coma; preto, para aprofundar o trauma. Era o suficiente para mandar os dois, para ele voltar á vida e os médicos reverterem tudo, uma vez que não houve nada de mais grave, apenas substâncias específicas, ele julgava. Colocou as seringas num estojo e saiu da sala, trancando-a novamente. Apertou o botão do elevador, para subir, e terminar o que viera fazer.

Ao que o elevador abriu suas portas, haviam cinco pessoas. Dois médicos, um casal e ela. Sua namorada.

24 de setembro de 2009

O horror dos "desviados"

Se tem uma coisa que não aceitamos, como "crentes", é que haja quem discorde de nós e abandone nossa fé. Tal ato, que chamamos de "desviar da igreja" é tido como imperdoável, pois "como ele pode sair da igreja? Deus vai cobrar" e frases de efeito. Não aceitamos que alguém possa abandonar a fé tão pura em Jesus, não podemos "compreender" como alguém pode sair pro "mundo" depois de "experimentar" Jesus. Se aceito, é pra sempre, alguns de nós diriam.

Mas, verdade seja dita, há mais motivos pra mandarmos a igreja ás favas que pra nos mantermos nela. Quando vemos familias que incentvam muito mais seus filhos a serem ativos na instituição, enchendo suas agendas com atividades na igreja, e até mesmo não ligando pro trabalho ou pro estudo, depois não entendemos como aquele jovem não seguiu na vida, se ia tão bem na igreja. Fora o que ocorre debaixo dos panos: as pequenas coerções, as pequenas humilhações, as pequenas disputas... tudo velado, pois a igreja é sagrada. Não se atinge nada, e quem ousa revelar a sujeira embaixo do tapete é sinceramente expulso ou jogado no canto. "Pra quê tanto negativismo?", alguns diriam.

E quando alguém abertamente diz que abandonou a fé e está muito bem sem ela, pra nós é a morte. Que o diga Ju Dacoregio, do Heresia Loira. A bela moça (ô coisa linda!) foi crente e se mandou. Bastou colocar posts explanando sobre sua "desconversão" que seu blog inundou de crentóides querendo que ela se reconvertesse, se "arrependesse" e coisas assim. Tá certo que em certos momentos, ela pede demonstrações banais de Deus, como os problemas de violência que enfrentamos. Eu até poderia me demorar em explicar que Deus não vai fazer nada pois esse tipo de coisa - a correção das coisas erradas - é função da igreja, e eu sei que ela me inundará com mais um outro mar de bons argumentos.

Alguns a respeitam, como Volnei Faustini e Pavarini, que são seus espectadores e até lhe mandam livros. Mas, honestamente, ela não vai voltar se não tiver uma boa razão pra isso. Gostamos de acusar pessoas como ela, mas e as que têm uma vida absolutamente normal e não-cristã e vão na igreja e ocupam ministérios? "Ao menos ainda estão na igreja e podem se converter", puristas vão dizer. Mas, quem não se importa, não vai ouvir nada do que o pastor vai dizer, se está pensado no bar, na balada ou na noite de fogo que há de vir após o culto acabar. Essa gente age de forma hipócrita. Quem tem coragem de assumir que não liga e sai, devia ser aplaudido.

Os desviados, como gostamos de chamar, são o atestado de otário mandado para nós numa bela carta e impresso em alto-relevo, mostrando que não estamos fazendo o que devíamos. Não usamos o intelecto para criar belas obras, ou para sermos úteis á causa, mas sim para cantar músicas que pouco significam e nada fazermos em prol de quem realmente precisa.

Há hoje uma nova safra de desviados. Há os de sempre sim, os que abdicam da fé para terem uma vida normal, mais "leve" e sem as regras pesadas da igreja. Essa nova safra está se reunindo em casa, com outros revoltados, mas que não vão deixar sua fé. Há quem se revolte contra Deus, ao ver que sua principal representante aqui na terra é bem incompetente. E há quem se revolte contra a representante, gerando algo de bom.

Para Ju Dacoregio, uma taça de vinho. Tinto, cabernet-sauvignon, meu favorito. Ela teve coragem de assumir que não queria mais aquilo pra si e se foi. E tem inteligência suficiente pra saber rebater a multidão de crentes que aparecem em seu blog.

18 de setembro de 2009

A Vingança pertence ao Senhor

Ela foi estuprada por um seminarista de uma igreja totalitarista e rica. Tudo ia bem no namoro até ver um pregador expôr os problemas e regras violentas de igrejas severas, e ela tentou, inocentemente, mostrar isso ao seu namorado, um seminarista dessa denominação. A fé que as mulheres tem na mudança de seus homens a tornaram uma pessoa a ser combatida.

Ao término desse namoro, ele a chamou pra conversar um dia. A discussão virou um estupro. Apenas uma amiga a ajudou. Ela descobriu-se grávida. Teve que trancar a faculdade. Jovem e bela, agora infeliz e envergonhada. Passou a ser ameaçada caso fosse á polícia denunciar seu algoz; várias ligações amedrontadoras das pessoas da igreja.

Suspendeu seus sonhos. Tinha agora um filho pra dar á luz e criar. Tinha que fugir da cidade pra não sofrer mais ameaças e ou sofrer alguma agrura física, uma vez que até o pastor a estava ameaçando com "coisas que podem acontecer a uma mulher e seu filho na rua, pois essas coisas acontecem".

Mas, olha só: o pastor que ela assistira e que a fizera raciocinar sobre sua igreja estendeu a mão, contou a outros e agora tinha uma legião de pessoas prontas para ajudar essa moça. Na casa dos pais da única amiga que sobrou, a mesma que a socorreu quando foi estuprada, ganhou carinho, amizade, confiança e segurança. Esse mesmo pastor - famoso até - a encontrou e foi falar com ela, pessoalmente, e levou consigo pessoas pra ajudar: um empresário que lhe deu um emprego conforme suas habilidade, jovens da igreja para amizade, uma bolsa de estudos na faculdade, um advogado para iniciar o processo legal para prender o seminarista e expôr o pastor. O rosto dessa jovem se iluminou: haviam cristãos no meio dos crentes.

Dez anos se passaram desde aquele incidente. Um menino bonito e forte brinca com as crianças da rua, enquanto sua diligente mãe o observa, sentada na calçada de uma calma rua, conversando com outras mulheres. A jovem era agora o braço direito daquele empresário, que viu na alquebrada moça uma pessoa a ser ajudada, e ele foi abençoado com isso: ganhou uma auxiliar e uma pessoa de confiança, coisa rara hoje em dia. O menino nasceu, e foi amado, mesmo com tudo conspirando contra. A mãe nunca falou do pai, mas ele entende isso, e por causa das orações e da diligência da mãe, não sente falta de um. O jovens da igreja cresceram e se casaram, e esse menino ganhou amiguinhos, que com ele corriam atrás de bola naquele sábado.

Quanto ao processo, correu tudo discretamente, e aquela moça foi o gatilho para que inúmeros casos não só daquela denominação como de outras da mesma linha aparecessem: seu pioneirismo e coragem jogaram homens como aquele seminarista violento atrás das grades, e sabem muito bem o que fazem com estupradores e molestadores na cadeia. Ela não foi atrás dele, ela não o humilhou nem ligou pra ele, nem lhe dirigiu a palavra: deixou o processo, os depoimentos escritos, os testes de DNA, o juiz e o Juiz julgarem esse caso. Ela não tirou dinheiro dele, aliás, pediu que não lhe mandasse dinheiro, nem que assumisse o menino: pediu, apenas que o reconhecesse.

Para tanto, só se viram novamente no tribunal, que ficou cheio de crentes em apoio do novo pastor da igreja, que estava lá acompanhado do pastor dele, o mesmo homem que queria encobrir o caso. Ambos foram julgados, após várias interrupções para "proclamar vitória" e outras manifestações ridículas, sempre mitigadas pelos guardas ao redor. E ambos foram presos, condenados e pagaram uma pequena fortuna. O caso foi para a mídia, os nomes dos dois foram pra lama, a igreja minguou, várias moças reclamaram assédios e paternidades, outras igrejas tiveram problemas semelhantes e por 2 anos, a Justiça pipocou com assuntos sexuais e evangélicos.

Quem a vê hoje, não diz que ela é a moça aviltada e humilhada. Deus a colocou num pedestal, e hoje, seus filhos são mais numerosos que o de sua vizinha, e as crianças a chamam de tia. Todos amam a tia, tanto que é a única casa que não foi assaltada na rua, pois mesmo os meliantes a conhecem, e alguns até almoçaram em sua casa. Na igreja, não uma "ex" nada: senta-se e ouve o que o pastor têm a dizer, e é uma cristã. Decidiu não se casar, pois não viu razão pra isso.

Alguns diriam que ela contibuiu para denegrir ainda mais a já péssima imagem dos crentes; outros, que sua coragem a fez limpar um pouco as igrejas. Ela sorri. Deus a consolou, ela perdoou e Ele foi justo. Quanto ao dinheiro recebido, ela não usa; mas está guardado pro futuro. Um dia, ela sabe, alguma mulher vai aparecer, aviltada e violada por alguém da igreja. E quando isso acontecer, essa moça vai estar lá, pronta pra ser a cristã que ela aprendeu a ser.

--------------

Em homenagem a esta moça. Não posso mandar dinheiro, nem estar lá presente, mas posso orar por ela, e fazer uma narração.

Desejo-lhe, do fundo da minha alma, que Deus a console e te dê paz, e que Ele levante sobre você a luz do Seu rosto, e que você esteja com ele hoje e sempre.

Ainda há esperança. Ainda há um Deus.

15 de setembro de 2009

Awake - Parte 6

Sentado, diante da janela do hospital, o pai bebia um capuccino. Era um vago e pequeno momento de descanço, onde se permitia em nada pensar, apenas olhar o céu cinzento escurecendo, um dia típico de primavera. Após esse breve descanço sob a luz do ocaso, voltou á luz artifical da sala, onde começou a pensar:
"Pelo que foi descrito, era um moleque num carro de rico. Nem adianta procurar, porque o pai vai tirar o menino da prisão, vai rir da minha cara e o tratamento nada lhe vai custar, e o pior: pode até suspender o tratamento, deixar meu filho morrer e o processo vai durar anos e anos. Que droga. Meu filho quase morto e eu nada posso fazer."

No elevador, a namorada é gentil e aperta o andar o qual uma velhinha simpática pediu-lhe favor. A velhinha notou o semblante atônito e perturbado da moça e perguntou o que houve. Como fazia um tempom que não conversava com ninguém, contou-lhe do rapaz, do atropelamento, e do cheque. A velhinha sorriu.
 - Seu namorado vai voltar.
 - Como pode saber? A senhora não sabe...
 - ...eu sei.
E a porta abriu. A porta ainda permitiu que a namorada visse essa velhinha entrando numa sala á esquerda, perto do elevador. Incomodada, e ainda sem resposta, desceu no andar e desceu de volta pela escada, afim de tirar satisfação com a velhinha.

Do lado de fora do prédio, a irmã do rapaz chega com alguns pacotes. São roupas e afins para seus pais, que não saem do hospital mais. O tempo parecia andar muito rápido, pareciam dias e dias, quando se passaram menos de 3. Concentrada em manter-se equilibrada, um vovô a espia na esquina, certo de que terá que lançar mão de algum ardil para preservar seu neto.

O rapaz estava diante de um homem na terceira idade, com pernas atrofiadas e mãos dormentes, mas que ainda assim era recohecível. Era o avô de seu algoz, que o pôs em coma. Nunca havia tirado a vida de ninguém antes, mas, se pra tudo há uma primera vez, isso não seria problema. Se entrar foi fácil, disfarçado de estagiário usando um crachá roubado, sair não demandaria muitos problemas, pois como provar a veracidade se ele estava em coma? Começou a falar:
 - Eu não vou ficar aqui, nesta situação, vendo minha vida passar e eu tendo que viver escondido das pessoas que eu amo.
Imediatamente, enquanto entra no prédio atrás da irmã, o velhinho ouve a voz e reconhece: é o rapaz que ele encontrara no ônibus. Ele estava falando com sua contraparte dormente; estava em perigo.
"Como eu deixei isso acontecer?" Disparado e ofegante, começou a suar e a fraquejar. Seu corpo em coma em igual modo sofreu com a adrenalina, e o monitor do coração disparou.
 - Está com medo, velho? Achou mesmo que eu ia aceitar isso enquanto você protege aquele projeto de gente?
E o rapaz colocou os eletrodos em seu próprio peito, o que evitaria que os médicos aparecessem, mas não evitaria o pior. Enquanto isso, o velho perseguia sua irmã, no corredor do hospital, e ela não notava. Uma simples agressão mandaria o recado. Ou ele até a poderia matar, como uma forma de vingança. Milhares de pensamentos fortes o deixavam atônito, pois passou anos se julgando poderoso e invencível, mesmo depois de ficar preso numa cama. E agora, longe dos seus, não conseguia avançar muito atrás da jovem, devido ás descargas de nervosismo e medo.
 - Vou fazer com que fique longe da minha família, seu desgraçado. E aproveite, pois logo seu amado neto te fará companhia, lá no inferno. O rapaz empunhou um travesseiro mas algo estava errado: ao velho já faltava ar, os movimentos eram poucos e estranhos e logo se acalmou. Ficou totalmente inerte. Com um estetoscópio ao lado, auscultou-o. Silêncio. Põs as mãos nas narinas; nenhum ar. Repôs os eletrodos, e o monitor acusou o óbito. A luz na entrada acendeu, indicando o problema, mas um simples toque no botão e tudo foi desligado. Levaria algum tempo até que fosse achado. Não foi preciso de forma alguma asfixiá-lo, apenas uma provocação e pronto.

Ao chegar ao andar, a namorada conseguiu encontrar uma senhora diante de uma pessoa em coma, mas não conseguiu fazer nada ao vê-la desligar os aparelhos. E presenciou uma morte de uma velhina inconsciente e a queda e esvancimento de uma velhinha simpática. A senhora simplesmente desapareceu no ar, deixando as roupas caírem no chão.

A irmã ouviu uma respiração ofegante a alguns metros de si e viu um homem bem trajado e suando cair para a esquerda, abrindo abruptamente uma porta. Ela correu em seu socorro, e quando chegou, apenas roupas e um anel de ouro estavam no lugar. Tremendo de medo, branca como papel, ela entrou no quarto de seu irmão dormindo.

4 de setembro de 2009

Awake - Parte 5

A mãe tricotava uma blusa, e cada medida no corpo do filho, uma esperança de despertar era exalada na respiração. O pai, no entanto, notou algo que não condizia com o normal. O corpo de seu filho não estava relaxado. Seus músculos continuavam em estado de alerta, como se ele estivesse acordado. Algo não estava certo.

- Vamos diga, quanto você quer? - O homem estava impaciente. Aquela garota que se dizia namorada do atropelado mal sabia o que dizer. Ele sabia sim.
- Meu filho não vai ser preso. E se você denunciar, eu vou processá-la e acabar com a sua raça! - Ele sabia que era mentira, uma vez que bastava pra ela ir á Polícia com os dados e uma prisão seria feita.
"Mas," pensou ela, "estamos no Brasil. E esse moleque vai sair e isso não vai deixar de ser uma lembrança ruim".
- Porque acha que eu quero dinheiro?
- ???
- Não vim aqui te extorquir. Vim aqui saber quem é você, e saber porque não se manifestou quando soube do atropelamento.
- O que eu vou dizer? Que eu não criei o menino e apenas o entupi de presentes? Que ele é um imprestável que só sabe viver ás minhas custas? Só o fato de você estar aqui me mostra que ainda outras de você virão, e um dia, logo, uma virá grávida. Mas até lá - ele assinou um cheque - pegue isso. Deve dar pra consertar o que puder no seu namorado e ainda viverem bem. Não terão problemas porque o cheque é meu, e sabem quem eu sou. Agora vá embora daqui.
Ela se retirou e entrou no carro. Abriu o cheque e viu a quantia. Uma frase monetária e enorme e vários zeros, desses que nunca pessoas normais conseguiriam fazer. Suspirou. Sabia que isso não era o que os pais dele esperam.

- Quem é você? - o rapaz perguntou.
- Sou o avô daquele rapaz. Por favor, não o traga pra cá.
- E se eu o trouxer?
- Trarei alguém muito caro a você pra cá.
- É isso? uma ameaça? Porque isso?
- Porque é assim.
Num lampejo rápido, o rapaz olhou o velho: roupas finas, ar altivo. Ao parecia, era um guardião da família, que não deixava que outros fizessem mal áqueles entes. O rapaz, imediatamente, começou a mentir, dizendo que nada tinha, e tudo o que queria era voltar ao normal e ver sua família. O velho, irredutível, argumentava sobre a proteção dos entes e tal. O rapaz pareceu concordar e se resignar.
Chegou ao centro da cidade e desceu. Numa Lan-House, rapidamente descobriu quem era aquela família rica, e quem era o velho. Numa busca simples nos melhores hospitais, descobriu onde estava o velho em coma. Era perto dali. O homem estava guardando sua família. O rapaz queria voltar. Teria que trazer duas pessoas para aquela situação.

A namorada nada disse aos sogros sobre o cheque estratosférico que recebera. Estava com um elefante nas mãos. Mas pensou: não roubou, não matou e não pediu. Isso era o passaporte pra vida dos sonhos. Além do que, era muito mais que qualquer processo que porventura pudesse começar contra aquela rica família, e de qualquer forma, jamais resultaria em prisão. Qual o limite ético? fazer o certo e processar ou aceitar a injustiça de modo lucrativo? Não podia pagar por um advogado. Não tinha como processar ninguém. Não tinha dinheiro. Era uma simples mulher jovem, trabalhando mais do que recebia.

No hospital, estava diante do velho homem em coma. Se tinha uma coisa que o rapaz, não tolerava era ser ameaçado. E já que ia trazer alguém pra esse lado, porque não duas pessoas? Porque não uma das acompanhantes vulgares do moleque? Ou, quem sabe, o pai dele? Não se sentia mal de estar ali com aquele intuito. Precisava garantir a segurança dos seus. Mas tinha um preço.

1 de setembro de 2009

Awake - Parte 4

Uma pousada pulguenta no meio do centro da cidade lhe forneceu cama. Ao acordar, os papéis do atropelamento, da multa e da intimação. Sabia quem procurar. Vestiu sua jaqueta e partiu.

A namorada estava entrando no hospital quando viu uma jaqueta de couro muito conhecida passar do outro lado da rua. Os trajes daquela pessoa eram simplesmente idênticos aos do seu namorado atropelado. "Devo estar vendo coisas", pensou ela.
Ao entrar no apartamento, viu seu namorado inerte ainda, e perguntou á sogra onde estavam as roupas dele.
- Pensei que tivesse levado pra casa, ela disse.
- Não, eu não. Você não levou?
- Claro que não.
E é iniciada uma busca pelas roupas do homem em coma. Duas mulheres um tanto irritadas corriam atrás das roupas, especialmente, da cara e rara jaqueta de couro que ele tanto gostava.

Chegou ao endereço indicado. Era uma mansão linda, portentosa, vários carros na garagem e dentro de um condomínio fechado. Eram 7 da manhã, hora em que os empregados entram pra trabalhar. Uma mão leve aqui, uma xavecada de longe ali e logo estava dentro do condomínio, como um motorista. Encontrou tamanha mansão vazia. "Normal", pensou ele, "essa gente tem tanto e ninguém pra compartilhar por medo".

Chegou á garagem e ali estava um belo Mercedes Benz SLK Kompressor, lindo, preto, com o parabrisas estilhaçado e sua grade abalroada. Era um modelo antigo, por isso os faróis redondos. Não haviam marcas de sangue, nem de limpeza. Ao entrar no carro, notou o cheiro de whisky e bacurinha, calcinhas no banco de trás e latas de cerveja. O carro só precisava de alguns milhares de reais em um conserto simples e uma boa lavagem nos bancos de couro. Pensou eu levar o carro, mas achou por bem não fazer isso.

A namorada, cansada de procurar, foi ao Detran verificar qualquer coisa sobre o acidente, e obteve as mesmas informações que o rapaz. Lembrou-se da figura vestindo a jaqueta. Ninguém usaria as mesmas roupas daquele jeito senão aquele rapaz, especialmente seu andar inclinado pra frente. Usando o carro da mãe, foi á mansão.

Dentro da casa, ele viu que era muito limpa, mas triste. Não sabia muito mais do que adultos longínquos um do outro. Roubou algum dinheiro que achou na escrivaninha, algumas jóias e um celular novo, já que o seu foi destruído. De volta ao lado de fora, apresentou seu crachá e tomou um ônibus, o raro que ali passava a cada hora cheia.

Ela dobrou a esquina a tempo de ver o ônibus partindo do ponto do condomínio. Entrava em sua frente, um belo carrão importado. Pediu pra entrar, e foi anunciada na casa. Ela foi recebida por um homem de 55 anos, esbaforido mas classudo. Quando ela lhe disse a razão da visita, seu rosto perdeu a cor.
- Você é a namorada daquele cara?
- Sim. Peguei os dados no Detran. Semáforo foi um radar.
- Mas porque isso? Foi um acidente.
- Sabe muito bem que não foi.
- E tem como provar? - Ateísmo e ceticismo não eram o forte daquele homem.
- O Detran tem a fita de três ângulos. Eu as vi, e foi premeditado.
Um suspiro forte. Ele não tinha escapatória.
- Meu filho acabou de tirar a carta. Vai, me diz quanto você quer que eu pago, e você some da minha frente.

No ônibus, ao sentar-se, um vovô bem trajado saiu de seu lugar e foi sentar-se ao seu lado. O rapaz estranhou. O homem disse apenas: "não mate meu neto".

28 de agosto de 2009

Awake - Parte 3

Sabendo que não poderia aparecer em casa, uma vez estar em coma e acordado não faz sentido, tomou as devidas providências para não ser notado, e iniciou sua empreitada no dia seguinte.

Pela manhã, aguardou na rua ver seu pai, saindo de casa com o carro. Seu rosto estava abatido. Algumas horas depois, saía sua mãe. Pela primeira vez, em anos, ela usava óculos escuros. Muito embora sua expressão normal fosse de enfado e irritação, a aparência contorcida dos lábios e as sombrancelhas caídas denotavam um estado de tristeza.

Mas algo estava errado ainda.
"Vou atrás do cara que em atropelou. Deve haver alguma coisa."

No hospital, sua mãe e sua namorada se encontraram no quarto onde ele jazia em coma. Sua mãe trouxera um bordado, e sua namorada lia um livro em voz alta. Para surpresa de sua mãe, era um livro que seu filho gostara muito; Ortodoxia, de Chesterton. Surgiu uma espécie de cordialidade entre ambas, pois embora mal resolvidas, estavam unidas por um ideal: o de ver o rapaz acordar.

Ao pagar o táxi, flashes rápidos passaram por sua mente, quando olhou o local onde o carro o agredira. Passeou pela rua, examinando os detalhes, e tentando encaixar as imagens distorcidas de uma memória em pedaços com aquilo que via. Conseguiu resultados quando se colocou onde estava naquela noite: pouco mais avançado que a linha dos carros, mas não no meio da rua. Notou que a rua era larga o suficiente para que seu acidente não ocorresse com freqüência, e que era calma mesmo ás 6 da tarde.

Concluiu que seu atropelamento fora de propósito. As luzes redondas eram comuns em carros novos e modernos, por conseqüência, caros. Olhou pra cima e mais evidências da premeditação: um semáforo com câmera, que só nunca se desligava. Com a data, hora e local do que houve, foi ao Detran.

Notou-se aumento nas batidas cardíacas do rapaz em coma. Sua cabeça se moveu várias vezes, como se estivesse perturbado. Havia atividade cerebral intensa. Desesperadas, as duas mulheres procuraram conter o rapaz, algo relativamente difícil quando se é pequena e feminina, contra um homem de quase 100 quilos. Médicos apareceram, e não souberam explicar o que estava havendo.

- Essa atividade indica que sua mente está trabalhando; disse o médico.
- O que significa? perguntou a mãe.
- Que ele devia ter acordado.

Um traço de esperança passou pela mente de ambas, pois aquilo era um indício. Sem saberem o que fazer, quase se jogaram sobre seu ente querido, e tentavam obter resposta. Mas ele voltara ao seu profundo silêncio.

Já anoitecia. Estava cansado e precisava dormir, mas não havia lugar pra ele. Mas antes de tudo, voltou ao hospital, onde sua mãe dormia no sofá, velando o sono do filho. Viu-se outra vez deitado em coma. Notou que perto do homem deitado, voltava a ser etéreo. Acariciou sua mãe, cobriu-a e se retirou. No corredor, enquanto fechava suavemente a porta, trombou com uma velhinha. Desculpou-se e saiu, mas olhou ao lado, e pela porta aberta, viu essa mesma velhinha deitada em coma.

- Ei, espere - disse ele - a senhora também está em coma!
- É a terceira vez. Creio que seja a última.
- Como... como......?.....
A velhinha sorriu. Pegaram um café na máquina, na sala de espera, e ela começou.

- Tenho diabetes. Eu descobri que pessoas em coma, algumas, podem vir a perambular entre os vivos, mas não podem mais acordar como um só.
- Hein??
- Para acordar do coma, quando seu corpo está bom, você precisa achar quem possa assumir seu lugar, ou mesmo, morrer para que você volte á vida.
- Por que isso??
- Por que você é agora apenas alma. Esse corpo que você tem não é seu, mas está lá inerte. Sua alma se desprendeu, mas como você não morreu, ainda está aqui. E a pessoa no seu lugar é pra manter o equilíbrio.
- Equilíbrio de que?
- Equilíbrio das almas. As nossas estão afetando o equilíbrio, pois ou vamos ao Sheol ou ao Hades. Não podemos perambular aqui, só algumas pessoas podem. E como tais, precisamos achar quem possa morrer ou assumir nosso lugar.
- E porque não consigo me aproximar de minha família? Porque tenho o instinto de me esconder?
- Porque deve ser assim. Se quiser, pode viver assim pra sempre, como muitos vivem. Mas longe de suas vidas antigas.
- O que a senhora fará?
- Vou providenciar o desligamento dos meus aparelhos. Já passei da hora, já trouxe três pessoas pra cá, e agora chega.
- Como que as pessoas vêm pra cá?
- Vindo. É a ordem das coisas.

E a velhinha se retirou.

26 de agosto de 2009

Awake - Parte 2

Ao lado da padaria onde ele toma seu café da manhã - deleitando-se a cada mordida e gole - passou um carro cujo destino era o hospital. Em suas mãos, materiais de higiene pessoal, roupas e flores. A mãe e o pai se encarregaram do banho no homem em coma, a irmã distribuia as flores no quarto, e juntos, eles o vestiram. Não muito, pois homens em coma não têm controle sobre a bexiga.

Saíram e foram cuidar de suas vidas, cada um em seu trabalho e estudo. Na recepção, um certo receio de dar passe livre á namorada dele. Mas foi dado.

Durante o dia, os temores dos anos em coma, da vida perdida e outros temores pairaram sobre os amigos e familiares desse rapaz. Havia uma aura negra que envolvia-lhes a vista, e que causava peso sobre os ombros. As palavras mal ditas, as ações mal feitas... tudo parecia cooperar para um sentimento coletivo de culpa. Como se ele tivesse morrido sem poder ser enterrado. Pensamentos como eutanásia percorreram levemente - jamais falados ou manifestados - as mentes crentes de pessoas comuns.

Ele agia como se estivesse em férias: sua empresa não demitiria um homem em coma, certo? então, ele foi pra casa, tomou um banho, trocou de roupa e fez o almoço. Resolveu inovar, e fez macarrão com algum molho que sua mãe fazia. Não pensou - muito - na estranheza de uma refeição feita sendo que não estavam lá. Mas quem vai explicar? que invadiram a casa? em plena luz do dia?

A moça, namorada desse cara, mal conseguia trabalhar. Um misto de raiva, tristeza, amargura, amor e desespero a fazia perder a cabeça a cada 20 segundos, quando olhava de relance as fotos na mesa. Havia algo de inacabado, de reticiências, de esperança ainda naquele sorriso.

Enquanto isso, o rapaz andava pelo centro da cidade, uma pessoa comum, no meio da multidão, sorridente. Nem pensava em voltar á cama, e acordar. Mas resolveu fazer uma visitinha aos seus entes. Queria saber se realmente devia acordar ou se podia saquear seu quarto e sumir pra sempre.

Começou por seus amigos. Uns, nem notavam sua ausência, mas seus dois amigos, havia algo ali. Um deles, se fazia de forte. Não chorava, não lamentava. Mas estava prestes a entregar seus pequenos deslizes: uma fofoca, uma desconfiança, uma omissão, um esquecimento. O outro seguia com uma fé estranhamente altaneira, como se soubesse que seu amigo voltaria. Mas isso não o isentava se sentir mal.

Foi até sua namorada. Tomou os cuidados para não vê-lo e para tal, era apenas mudar as roupas e usar um boné. Barba feita ajudava, pois eles sempre se viam quando sua barba estava de sete dias. Na saída de seu trabalho, ela vinha a pé pra casa, sozinha. Olhava pro céu, pro chão, pros lados, pra trás, como se esperasse um sinal. Sua olheiras estavam profundas, e seu semblante abatibo mostrava cansaço.

"isso em um dia apenas... imagine um mês." pensou ele.

E com isso em mente, foi ver seus pais.

25 de agosto de 2009

Awake - Parte I

Aquelas luzes brancas redondas enormes cresceram rápido demais. E o sinal estava verde pra ele. Mas garotões de 18 anos com síndrome de Carmageddon acham divertido atropelar trouxas na rua, mesmo que o sinal esteja fechado para ele e que o radar tenha pego a placa, o modelo do carro e um corpo voando anormalmente perto da câmera.

Desacordado, ele nada sentia. Não ouviu sua namorada berrar de horror e susto, não viu um monte de gente se aglomerar em volta dele, sem nada fazer e apenas elucubrar idiotamente o ocorrido e fofocar; não ouviu seus amigos improvisando uma tala pra preservar sua coluna e pescoço e mandando um bando de crentes pós-culto saírem da frente; não ouviu uma ambulância chegar, nem sentiu o balanço irritado do carro com sirene ligada, ou sua namorada tremendo, fosse de frio ou adrenalina. Nada. Um enorme silêncio estava instaurado.

Sua moça era esperta. Ligou pro plano de saúde ao invés do SAMU, o que fez com que uma ambulância chegasse mais rápido ao local do acidente e ao hospital. Lá, ela ligou pra família dele, temerosa, pois sua companhia lhes era odiosa. Um diálogo curto, simples e direto:
 - Oi, eu estou no hospital, o Júlio foi atropelado - ela disse.
 - ONDE??? - seu sogro nunca estivera tão exasperado.
 - Na frente da igreja. Estávamos saindo do culto, e um carro pegou ele. O carro tava errado, avançou sinal vermelho e fugiu. Não deu pra pegar a placa.
 - Qual hospital?
 - Padre Anchieta, no centro da cidade.
 - Já chego aí.
Ela mal podia acreditar. Ainda trêmula, se sentou. Os médicos a levaram pra o quarto onde ele ficaria, para que pudesse esperar a cirurgia terminar. Logo, havia uma legião de pessoas, parentes, amigos da família, amigos dele, querendo uma explicação.

Sua mãe estava em prantos. Sua irmã a consolava, muito embora seus olhos inchados denotassem tristeza. Seu pai estava ocupado falando com os presentes a história que sua futura nora lhe contara quando chegaram.

Na sala de cirurgia, médicos comentavam sobre o causador, a causa e a vítima. Lamentavam ser um homem jovem, mas se animaram: seus ossos sofreram trincas e não quebra. Dois pinos na perna esquerda e 2 meses de fisio e tudo estaria como antes. Mas o problema não foi esse:

 - Senhor? - Perguntou o médico - O senhor é o pai dele?
 - Sim, sou eu. - A tensão entrecortava a voz daquele homem.
 - A cirugia foi muito simples: apenas um osso da perna esquerda foi trincado, agora pusemos um par de pinos de platina, que nem precisam ser retirados, para garantia. - Uma expressão de alívio no pai - Mas há um problema. Ele bateu muito forte com a cabeça. Não houve danos visíveis, mas não sabemos a extensão do problema do choque.
 - O que significa?
 - Que seu filho não está dormindo. Está em coma profundo. Pode acordar a qualquer instante. Daqui 20 minutos, quando a anestesia passar, ou daqui 20 anos. Jamais saberemos. Eu sinto muito. - A frieza da profissão retirou o médico, e deixou o pai com o espírito arrebentado. Logo, os presentes começariam uma choradeira, seja real ou seja fingida.

A namorada, sentada longe, orava. E quando viu seu rapaz indo pro quarto, numa mesa de cirurgia, sendo posto na cama, recebendo as agulhas pra alimentação intravenosa e finalmente coberto por um cobertor branco, sentiu que as pernas mal a seguravam, e quase caiu. Sentou-se, e um gemido fino foi tudo o que era possível ouvir dela. Sua face contorcida deu aos pais desse rapaz o atestado de amor que eles duvidavam que ela poderia dar. Recebeu, em troca, o abraço da irmã.

Quando finalmente as pessoas se retiraram, e o silêncio se fez ali, os batimentos cardíacos do mais novo dorminhoco do hospital aumentaram. Logo, ele abriu os olhos. Sentou-se na cama, e se sentia leve, diferente de sentir a gravidade. Olhou para seus braços, e eles tinham uma aparência estranha.

 - Que porra é essa?

Era uma aparência translúcida, como se ele fosse um.... espírito? Olhou pra trás, e viu a si mesmo deitado, frágil e amarelo na cama. Pôs os pés no chão, e sentiu-se novamente pesado. Sua aparência agora era a de um humano comum. Chegou perto do homem deitado e sua mão a qual o tocava se fundiu com ele.

Não havia explicação. Ele estava acordado. Mas ele dormia. Notou que ele tinha carne, pois mordeu seu dedo e saiu sangue, e sua contraparte dormente sangrou igualmente. Tentou o truque da Kitty Pride, mas ele era tangível. Era carne como qualquer humano. Sem qualquer explicação, pois ele sabia que não teria, tirou o traje cirúrgico e se vestiu. Orgulhoso, sabia que devia haver alguma razão, mas agora estava com fome. Sabia que tinha que ser discreto, então se mandou pela escada de incêndio, acobertado por um jaleco branco sobre sua roupa.

Ganhou a rua. Sentiu o ar. As pessoas desviaram dele. Eram 6 horas da manhã. Ninguém lhe daria um arroz e bife, mas um misto quente e um pingado sim, é claro. E saiu andando.

19 de agosto de 2009

Sobre sofrimento

Há uma medida para o sofrimento? Há um limite?

Hoje, graças ao Switchfanro eu vi o Nooma 24 - Whirlwind, onde isso é questionado. Jó era o melhor dentre todos, e num repente, viu sua fortuna, seus bens e seus filhos desaparecerem e morrerem. Pra melhorar, ganhou doenças, e do mais poderoso tornou-se um mendigo maltrapilho, fedorento e cheio de feridas abertas, nojentas e maltratadas.

Deus o usou pra provar quem Ele é. Onde estavas tu, Jó, quando lanceis as bases da Terra? Não, sem essa de "Deus é Deus". Mas sim algo novo, fora do comum. Porque questiona? Porque não luta? Porque não continua acreditando? Porque quer berrar aos céus quando Eu estava com você o tempo todo? Porque quer se rebelar contra todos quando deveria aprender a ver, ouvir e meditar?

Ao querer explicações, queremos boas razões para o sofrimento. Queremos ser esclarecidos sobre isso. Mas, olha isso: ainda está vivo! Está sofrendo, mas... você não morreu! Isso significa que ainda há coisas por fazer, ainda não está acabado. Você ainda não terminou o que veio fazer aqui.

Não é meramente aceitar o sofrimento. Não é ter uma postura budista e tola, onde você internaliza a dor e convive com ela. Mas sim saber que o que você veio fazer não acabou. Você ainda está aqui. E a julgar que todas as coisas passam, porque não esse momento terrível?

Sofrimento tem dimensões diferentes para cada pessoa. Para alguns, perder o emprego é algo insuportável, enquanto pra outros, ver seu filho definhar é motivo de querer ainda mais a Deus. Vivemos dias em que queremos vida plana, tranqüila e fácil, com bonança e bens. Jó tinha tudo isso. E perdeu tudo isso. E conviveu com essas perdas. Mas nunca disse uma só palavra contra o Senhor. Jó sabia que tudo o que possuía não era seu, mas sim de seu Deus. "Deus dá, Deus tira, louvado seja o Senhor." Imagine a força com a qual este homem alquebrado fez para dizer isto. Perdeu tudo, só não morreu, quando morrer parecia mais interessante.

Há mais. Mesmo em períodos de perguntas, problemas, ventos e tempestades, há mais. Há mais do que simplesmente vociferar contra os céus e morrer. Há mais do que simplesmente aceitar e achar que a dor será eterna. Há mais do que apenas pensar que Deus está nos céus, sentado em seu trono, e olha pra você como quem olha pra um ratinho.

Não, não há medida. Mas há um tempo. Pois Deus, sabendo que o homem tem um tempo curto de vida, não deixará que tudo permaneça como está. Quanto tempo Jó esteve assim? Eu não sei. Quanto tempo Jó teve de vida boa? Eu não sei. Quantos anos ele viveu depois disso? Eu não sei. Mas sei que o período de sofrimento foi menor que seu último período de alegria. Ele não esmoreceu, nem vociferou. Soube da soberania de Deus, de sua magnífica Vontade e O louvou, não exigindo nada de volta. Pois ele sabia que Deus está presente. Não se importava em morrer assim. Valia mais seguir acreditando que morrer com raiva.

Talvez não

Tenho vontade de me ajoelhar aqui mesmo no trabalho, e começar a chorar, copiosamente, de vergonha da igreja.

Freqüento uma que tem inúmeros defeitos, de fato, mas não tem mãozona na grana, aliás, creio que até faça pouca grana com o que recebe. Mas a salva só passa uma vez, e o pastor anuncia de forma singela e rápida. SUas pregações mais se parecem com reportagens da Veja, só faltam os infógrafos, mas ele consegue ser consistente no que diz, não distorcendo versículos para coisas mirabolantes.

Tenho pais que me ensinaram a pensar e a procurar eu mesmo as minhas respostas, e que mesmo que não concordem, não vão deixar de me amar. Eles me mostraram que igreja não é um fim em si mesma, mas sim um meio de se reunir com outros da mesma fé.

Mas, ao ler Pavablog, Genizah, Púlpito Cristão e sites como os do Renê Terranova e Marco Feliciano, eu fico envergonhado. O Silas Malafaia pede bênção a Morris Cerullo, o mesmo cara que tem Terranova como discípulo. Ofertas mirabolantes, promessas... mas igreja perseguida, nem pensar; pobres e miseráveis que se danem; expôr as mazelas da sociedade e ajudar quem precisa esquece.

Não que eu esteja fazendo isso, coisa que deveria acontecer. Mas me desanima muito ao ver que milhares de pessoas seguem enganadas e enganando. E quando estoura problemas como os recentes casos da IURD, não fico supreso. Faz parte. Nada em oculto lá permanece, e não se pode enganar a todos o tempo todo.

Sinto vontade de pedir perdão por ser negligente. Por não alardear pra cima e pra baixo a baixeza desses homens, e tentar manter o Evangelho como devia ser. Se a Igreja Católica tem seus defeitos, ela fica corada ao ver os nossos, e sim, eu digo nossos.

Nossos porque esses homens se dizem nossos irmãos. Porque eles dizem compartilhar da nossa fé. Porque eles fazem coisas mordazes usando o Santo Nome. Porque usam a Bíblia da mesma forma que os segregacionistas nos tempos de Luther King. Porque eles roubam, saqueiam e pilham pessoas que nada têm, para aumentarem o muito que não distribuem.

Porque dão mau e falso testemunho.

Não sou exemplo, mas luto pra ser um pouco melhor a cada dia. Ainda estou levando pancada por isso, pois não é fácil. Ainda tenho coisas pra consertar, mentiras pra desvendar... mas estou progredindo. Mas se o Filho do Homem viesse hoje, acharia ele fé na terra?

11 de agosto de 2009

Posso?

Quando somos jovens, nosso pais são nossas barreiras de proteção. Seus "nãos" são deliciosos de se desobedecer, pois é este um dos meios de se conhecer as coisas como são, livres de filtros. Com o passar do tempo, passamos a encontrar novos "nãos".

Vendo os comportamentos de hoje, não é de admirar que se queira mais prazer que compromisso, uma vez que compromisso é tido como "algema". O casamento é a "algema de dedo", por exemplo, quando há tantas mulheres a serem desfrutadas e tantas noites a serem aproveitadas. Engraçado que todos querem companhia, mas o preço da vida liberal é a rotatividade dela, por conseqüência, amizades e relacionamentos superficiais. Há um desejo enorme de liberdade, mas essa palavra perdeu parte de seu sentido, e virou algo que está além da definição, e tal qual a felicidade, passou a ter significados diferentes pra cada pessoa.

Quero sair sozinho ás vezes. Mas, um dos preços do relacionamento sério é o desejo do outro. Muitas vezes, coisas aparentemente normais podem conter assuntos desagradáveis, e plantar sementes de discórdia e trsteza na vida do casal. Ambos podem querer um resto de "liberdade", por assim dizer, e meramente sair. Mesmo á revelia do outro. Mesmo que o outro não queira e desincentive. E o desejo pode ser o mais puro e simples por ambas as partes: um quer se divertir - coisa a qual todos têm direito - e o outro quer prevenir um perigo - coisa possível.

Nada a ver com território, ciúmes, mágoa ou coisa assim. Mas estar namorando implica em abrir mão de alguma coisas em detrimento do outro, mesmo que o outro pouco tenha do que abrir mão. Quando ela tem uma agenda cheia, pouco têm do que reclamar, uma vez que sempre se sabe onde está. Contudo, é preciso abrir mão da surpresa, do inesperado, de um jantar sem hora, de um momento a dois no meio da semana. Quando ele tem um trabalho exigente, pouco têm do que reclamar, afinal, sempre se sabe onde está. Mas perde-se a energia, a atenção, a conversa em detrimento de descanso.

Sempre algo se perde, para satisfazer o outro.

E por mais esforço que haja: suporte, conversas, programas de índio, tolerância com familiares, nãos, situações chatas; parece nunca ser suficiente. Ela não têm como colocar em você a idéia que está em sua cabeça, tal qual você não têm. Ela tem seus temores, iguais aos seus, mas cada um sabe onde seu amado ou amada pode se perder. No que parece mais óbvio, nem sempre, uma vez que o óbvio pra você não é o mesmo dele. Mas há o medo inerente de algo a ser perdido, tão lindo, reluzente e frágil que um ato mal pensado pode destruir e reduzir a cacos. Um não consegue dizer não há nada ha temer, uma vez que não quer perder esse "algo". Outro não consegue dizer que há tudo a temer, uma vez que não quer perder esse "algo".

E isso planta um sentimento estranho e indizível, pois ambos podem se acusar de desconfiança. Querem manter, sem abrir mão de alguma liberdade antiga ou de alguma segurança. E tal sentimento pode evoluir, se não for consertado. Estranho, não? Como eu posso saber o que ela sabe e ela pode saber o que eu sei?

É uma arena estranha, essa arena do amor. Há deleites incríveis, prazeres indescritíveis, e tristezas indizíveis.

22 de junho de 2009

O novo, o velho e caminho entre ambos

" A crise consiste no fato de que o velho morreu sem que o novo tenha tido ainda condições de nascer."
(Antônio Gramsci, pensador italiano)

Meu primo colocou essa frase no ar e nós debatemos após um lauto almoço, na casa de vovó. Uma das coisas que me vieram á cabeça foi a crise no jornalismo. O velho modo de fazer notícia está morto, só que ainda não foi enterrado. Quem assistiu a Epic 2014 sabe do que eu estou falando. Há um novo modo de consumir informações surgindo, só não se sabe ainda como que se separa o que é bom do que não é. O joio e o trigo ainda estão crescendo juntos, a colheita ainda não veio.

Onde mais essa frase de Gramsci pode ser aplicada? onde mais ela faz sentido?

Alguém pode berrar nos ecos deste blog "a igreja!", e está correto. Mas por mais que se esperneie, vejo o fim dos tempos se aproximar, pois o amor de tanto se esfria a cada dia, e cria aberrações como as citadas do link.

Para onde se olha, há crise. Crise na igreja, onde alguns representantes destróem os esforços de ser sal e luz; crise masculina, pois cada vez mais homens não sebem quais referenciais seguir; crise feminina, pois não sabe mais o que buscar nos homens; crise financeira, pois o dinheiro acabou e o lucro interminável dá mostras de enfraquecimento; crise ambiental; pois ao invés de usar seus conhecimentos para pôr o mundo em pé de igualdade, a busca pelo lucro preferiu consumir o planeta ao invés de consertar a humanidade, o que custaria muito menos... há crise para todos os gostos e vontades. Escolha a sua.

Mas, de tudo isso, fica uma certeza. A certeza de que apesar do caos instaurado, Deus reina. Mas como ninguém pediu a opinião dele, Ele não diz nada. Pouco se erguem contra os mercadores da fé, pois são esses que lotam os templos, e isso aparenta uma igreja forte e crescente, mesmo que não seja. Ninguém se levanta contra as crescentes humilhações que os homens passam, pois é a nova geração que deve pagar pelos anos de recato femnino forçado, se esquecendo que estes não são aqueles homens. Protestos feministas aos montes, mas mal sabem o que fazer ao chegarem aos postos almejados. Briga-se por um ideal, mas na realidade a coisa muda. O caos por não se saber para onde ir, pelo que lutar. O caos.

Apesar de esperar que as coisas melhorem, saber que elas não vão é um convite ao travesseiro e ao edredom. Pra quê se importar? Pra que lutar? Sucumba a novela e ás músicas sem conteúdo. Leia livros de auto-ajuda e viva viciado. Mas ao pensar que Deus odeia ócio e aprecia aquele que luta todos os dias pelo que acredita, mesmo que não seja exatamente nEle.

Eu mesmo sigo hoje minha própria crise pessoal: a de deixar simbólicamente a casa de meus pais. Isso significa deixar de necessitar de seu aval pra qualquer coisa, de deixar de precisar de sua aprovação. Não de rebeldia, mas de ser Paulo Víctor, e não mais o filho de alguém. Ninguém disse que ia ser fácil, mas passar por isso mostra que as coisas seguem seu curso, e que cabe a nós dar a elas o rumo que desejamos.

Mover-se da inércia é o primeiro passo pra o fim de uma crise. O resto é fruto de persistência, coisa tão rara hoje em dia.

1 de junho de 2009

Verdades Íntimas

Entre cismas, problemas, pastores larápios, charlatões, regenerados, desacreditados e etcetera, Deus Reina. Apesar do caos instaurado, Deus Reina.

E daí?

E daí que eu fui ver Wilson Palomo na Deus Revelado e a mensagem foi ótima. Ele esteve na mídia, com acusações sobre ele. E daí que eu gosto de ler alguns textos de Caio Fábio. Ele ficou marcado pra sempre, com o Dossiê Cayman e sua relação extra-conjugal. E daí que eu amo uma mãe solteira. E o filho dela. E daí que a igreja que eu participo tem problemas terríveis com estagnação, politiquinhas e contralização.

E daí que apesar do caos instaurado, eu sei em Quem eu acredito.

Eu sei que meu Redentor vive, e há de se levantar sobre a terra.

E daí que eu vi metaleiros cheios de tatuagens e cravos de metal chorando num show do No Longer Music, sendo que muitos deles mal sabiam escrever.

E daí que eu vi uma menina que devia morrer aos 3 anos de idade viver pra contar a história.

E daí que eu estava lá pra ver um casal chegar ás bodas de prata.

E daí que eu ainda consigo acreditar nesse Deus, apesar dos representantes dele aqui serem de péssima qualidade.

E daí que eu ainda os amo, mesmo assim. Mesmo com suas politiquinhas, mesmo com suas tolices, mesmo com suas palavras. Porque eu sou tão tolo quanto eles. Tão humano e falho quanto eles.

Pois eu sei que Deus usa métodos pouco ortodoxos para se fazer presente.

Pois eu sei que Cristo não se detém nas paredes da igreja e na tradição pra existir.

Pois eu sei que Ele cuidou pra que a essência da Reforma Protestante chegasse até nós, e que o ódio de Lutero contra os judeus fosse enterrado com ele.

Pois eu sei que Jesus é mantido longe das igrejas, pois Ele está com a ralé, com os mendigos, com os feios, com os sujos, com os bêbados.

Pois eu sei que Ele vai me conceder os meus reais desejos, não o meu carro ou a minha casa, pois isso é fruto de trabalho. Eu sei que meu Pai vai me dar o que há de mais profundo do cerne de minha alma.

Pois eu sei que Deus habita entre as pessoas, entre os louvores, entre os atos, entre a sinceridade, entre os gestos amáveis.

Pois eu sei que toda a vez que eu me rebaixar ao nível da ralé, sem por isso achá-los como tal, mas querê-los bem e fazer alguma coisa, nem que seja ouví-los, eu serei como Jesus.

Pois eu sei que dar a vida pelos meus amigos não significa estreitamente morrer por eles; mas saber que eu os amo tanto quanto a mim mesmo, e minha estima por eles faz com que eu os queira mesmo diante do maior relaxo que possam dar.

O Deus vulgar e indomável rasgou o véu pra que qualquer desgraçado possa ter acesso a Ele, abraçá-lo, se sentir um nada só pra que Ele possa colocar esse resto de gente em posto de destaque, para que Ele seja visto.

Esse é o Deus que ouve os clamores de piedade da prostituta, enquanto seu cliente ainda está sobre ou atrás dela. Esse é o Deus que esquenta o jornal do mendigo, quando os crentes faltam. Esse é o Deus que não é colocado no altar.

O sacrifício vivo é quando eu deixo de pensar com as minhas duas cabeças: negando uma mulher, deixando de me embriagar de graça, evitando algo que eu não gostaria que ocorresse comigo. Carregar a minha cruz é saber que serei instado por fazer tudo ao contrário: ser generoso quando eu devia mandar pro inferno; ser paciente quando devia esbofetear; ser duro quando perguntado de algo óbvio.

Negar a mim mesmo me torna vazio o suficiente pra que eu seja um eu melhorado. Não aquela pieguice de vaso quebrado, mas sim a verdade: deixar de ser eu mesmo em prol de algo maior me torna ainda mais eu. O homem real. Não o ser egoísta e lascivo.

O Deus agachado na caixa de som pede encarecidamente pra mim: ore agora. Nem que seja pra ficar em silêncio. Não, não cante. Mas abrace. Não, não sente. Saia. Conviva. Eu vim e estive no meio das pessoas. Você não foi separado. Não foi arrancado, não foi transladado. Você está aí. Eu não evangelizei ninguém. Eu convivi com pessoas, e elas foram consertadas mediante pequenas verdades: a da humildade, a da mansidão, a da paciência. A da simplicidade.

Eu sei que meu Redentor vive, e eu, por pior que eu seja, não posso julgar qualquer um que seja. Ele veio para os dele, e não os receberam, por isso, qualquer um que o quiser o terá.

Conserto da vida? Ele te dará um, um conserto só pra você. Esqueça o que você ouviu. cada um tem o seu.

Moral e bons costumes? valorezinhos burgueses. Ele vai te dar algo maior que isso, um código de conduta mais elevado.

Viver por algo maior que si mesmo não mata sua individualidade. Te torna mais individual, mas sem perder de vista os que estão á sua volta.

Assim tá bom? Ou vai querer que eu desenhe?

24 de maio de 2009

o.0


Pode crer.

5 de maio de 2009

Medo e Preocupação

Medo é uma coisa engraçada. Ele permite que você ocupe sua mente de projeções futuras relacionadas a eventos que ainda não aconteceram. Chama-se preocupação. É um recurso interessante usado por Vermebile, sob a tutela e conselho de seu tio Fitafuso, um subsecretário reconhecido nas instiuições do Inferno.

Com isso, você não consegue se concentrar no hoje: o que você têm que fazer hoje, o que você têm que dizer hoje, o que você tem que pensar hoje. Viver com a mente no futuro é um meio interessante de fazer você perder tempo do presente, negligenciar a experiência do passado e fazer sempre as piores escolhas, baseadas no medo na preocupação.

Pode mudar um caminho, de fato, o medo e a preocupação. A covardia de assumir responsabilidades e levar á frente projetos um tanto auspiciosos faz com que muitos caiam na rotina, com medo de perder o pouco que pensam que têm. Mas, de forma alguma, esse ato de ficar parado provém das investidas de Vermebile: são um pecado seu, que optou por ficar onde está.

O reino de Deus é conquistado na porrada. Em você mesmo. Ninguém falou que pra mim que eu teria uma vida mansa, mas hoje, eu percebo que qualquer realização minha deve vir com esforço e com suor: não vou conseguir me tornar escritor e ser digno de tomar chá com Neil Gaiman se eu não me sentar e escrever. Por mais sem inspiração que eu esteja, certas coisas saem com dor, com suor, e por vezes, com lágrimas. Deus vai me recompensar pelo meu esforço? Sei que vai. Ele recompensa a todos por que escolheram não ficarem parados, mas lutarem. Decidiram correr atrás de seus sonhso, de suas vidas, e no caminho, acabaram vivendo, e tendo boas histórias pra contar.

Eu tenho medos? Tenho. Sou normal, por mais doido que eu possa parecer. Tenho medo de ficar sozinho, e não suporto a idéia de me contentar com sobrinhos, não com filhos de meu próprio gene. A idéia de ficar sozinho, sem amigos, onde por mais dinheiro e recursos que eu tenha, não tenho quem os possa usufruir além de mim. Não suporto a idéia de ir a casamentos, mas faltar ao meu. Não suporto a idéia de ouvir feliz uma boa música, quando eu poderia ter uma discussão terrível e raivosa com minha esposa. Disse Bono Vox, você nunca se sentiu querido até que alguém te desse um tapa.

Sou humano, e isso me torna uma pessoa suscetível ao medo, á preocupação, ao pesadelo. Mas o pecado não reside aí. Reside no Desespero. Se desesperar é pecado sim, pois Deus nos disse para vivermos um dia de cada vez. Basta a hoje, terça-feira, o seu próprio mal. Hoje é um dia que vai ecoar na eternidade por causa dos caminhos escolhidos.

No desespero, muitos tomam decisões ruins, que lhes tornarão infelizes pelo resto de suas vidas, ás vezes sem chance de retorno. O clichê da perdas dos sonhos seria o ideal, mas também existem pessoas sem sonhos, que tudo o que têm é o hoje, e se deixam levar pela vida, e ver no que vai dar. Sonhos de carreira? não têm. De realização? não têm. De amor? basta-lhes os prazeres de um fim de semana.
Há sonhos simples, pequenos, desses que parecem fáceis de realizar: como felicidade. Mas eu sei que esse é o mais caro e o menos realizado dentre todos. Sua subjetividade submetida ás milhões de variáveis possíveis é algo que custa a ser conseguido. Há pessoas que o sonhos se resumem a uma casa, um jardim, uma família e algum trocado pra dar garantia. Não, não há nada de errado em fazer daquela interpretação apaixonada da Cássia Eller uma realidade diária. Aliás, penso eu, que esse sonho pequeno foi, por muitas pessoas, deixado de lado porque o medo ficou exacerbado, e um emprego tomou o jardim, o tempo perdido perdeu o amor, o terno e a blackberry tomaram a perseverança pra estar lá todos os dias. Sobrou a casa e o trocado. De que adianta, se os elementos perdidos são impagáveis?

Penso eu, do alto da minha ignorância, que o dia de hoje devia ser melhor empregado. O medo me manda voltar atrás em alguma decisões, para garantir alguma coisa. Eu devia ter ficado em pé, voltado pra janela aberta, ao acordar, e pedir, com toda a cara de pau do mundo, que Deus me desse um fôlego novo, para hoje apenas, e entregasse a Ele esse medos. Renunciar á própria vida em prol de Cristo também é renunciar aos medos, não apenas aos seus sonhos. Ninguém disse que uma vez cristão você perde os sonhos; eles apenas estão em melhores mãos.

Sim, eu devia ter pedido esse fôlego novo, para hoje. Para ter a coragem de dizer não pra algumas coisas. Para não ter medo de ficar sozinho. Para poder me sentar e escrever o que eu tenho que escrever, por mais diferente e exaustivo que seja fazer algo cuja temática é crente e pura demais pra mim. Mesmo ainda com pecados aparentes, eu podia ter pedido por isso. Afinal, Deus não liga pro que você fez, desde que não faça mais. Ele odeia, mas te ama mais do que aconteceu. Ele é o primeiro a carimbar DANE-SE nas páginas pregressas da vida, sobrando delas apenas a lembrança de dias estranhos e experiência a ser usada. Sim, eu devia ter pedido esse fôlego novo.

Medo e preocupação com o futuro são desvios de conduta que causam apenas mal. Travam os atos, preenchem a mente e causam irritabilidade. Engraçado, Deus olha pra isso e diz "tá preocupado com o quê? O futuro não é problema seu. Faz o seu aí, que eu faço o meu aqui, mas faz direito." Gosto de pensar em Deus como um velhote cinqüentão ouvindo blues numa vitrola sem disco, cujo rosto possui marcas do mundo inteiro, e cujo corpo talhado por anos de trabalho pesado, tem cicatrizes dos mais variados porquês, e que tem senso de humor suficiente para encher de beleza o mundo, que tem paciência suficiente para agüentar os crentes e suas tolices, e que tem austeridade suficiente pra mostrar que ele está lá, apesar do caos instaurado, e que ele não suporta pessoas que estão intimidadas por qualquer causa que seja; seja um policial que falou maus grosso, seja porque engrossou a fila do desemprego. Imagino esse velho de cabelo escovinha andando pela terra, procurando as pessoas que receberão sua bondade hoje, ou meramente passarão pelos reflexos de suas ações ou inações. Gosto de pensar que Ele está sentando do lado de fora das igrejas, dirigindo pessoas para cuidar daqueles que nos esquecemos. Que Ele deu todas as ordens necessárias, que deu todas as diretrizes, mas que ainda assim, insistem em não seguir.

Medo é medonho, o medo domina, o medo é a medida da indecisão. Quanto mais indeciso, mais amedrontado. Por isso Deus o vomitará fora. PSDB não é com Ele. Saiba quem você é, o que quer fazer, e peça, todos os dias, um fôlego novo, para hoje, para que você decida e deixe de sentir medo. E deixe de se preocupar com algo que não está ainda aqui. Eu devia ter feito isso hoje de manhã.

25 de abril de 2009

1ª Cruzada de Contra-Evangelismo


Venha participar. Vamos libertar as mentes das amarras da religião!
Dias 20 e 21 de Maio, no Anhembi, no lado de fora do evento do Ministério Diante do Trono.

---------------

Fico me perguntando se algum dia teremos uma resposta no mesmo nível dos eventos de crente. Sim, essa frase ficou forte. Não que eu queira acabar com os evangelismos, pois nós, crentes, gostamos da idéia de uma perseguição contra nós no futuro. Gostamos da idéia que a imprensa em geral nos odeia, que somos preteridos pela Rede Globo, que não somos chamados para dar testemunhos no Programa do Jô, que nossos esforços para mudar o mundo são sabotados pelos incrédulos, que nos odeiam ao osso.

Mas meu coração se irrequieta quando vejo uma amiga escolher seu ex-namorado traidor, achando que é isso que deve ser. Que não tem como ser melhor. Quando vejo uma moça balzaquiana de rara beleza sair com homens diferentes a cada fim de semana, dizendo que o amor não lhe cabe, e confiando mais na endorfina que no valor a si mesma. ver um amigo se enfiando num relacionamento condenado, que lhe trará mais dor que a atual. Como vou falar de Cristo pra eles? Mas acho que a melhor pergunta seria, como fazer alguma coisa por eles? Como lhes ser útil?

Quando me lembro que Cristo nos mandou amar aos outros, e lhes tratar como queremos ser tratados, a primeira coisa que me vê á cabeça é um colega de faculdade, que aos 36 anos fazia sua primeira graduação, após ter passado por tudo. Cresci vendo pessoas se julgando velhas aos 20 anos. E tenho visto pessoas fazendo bobagens adolescentes aos 45. Mas esse meu amigo, Wellington, me mostrou como tratar as pessoas com deferência, com finesse. Como pedir truco e seis com estilo, a chamada "roubadinha do vovô". E acha que ele vai na igreja? A vida o entalhou. Sei que ele teve seus momentos de arrogãncia e prepotência, posis todos temos. Mas ele soube aproveitar as lições.

Há hoje os papos sobre a chamada "Igreja Emergente". Sites sobre isso você vai encontrar até mesmo aqui ao lado. Mas algo está errado quando falamos de movimentos cristãos. Me sinto meio ridículo falando isso, mas eu tenho visto tanta gente malhar a igreja evangélica, que eu passo a pensar em como malhávamos a igreja Católica. Eles não nos reconhecem como seus irmãos, e nem nós eles. Mas o que se tem feito efetivamente para mudar as coisas? Temos amado? temos sido úteis?

Essa noite eu tenho uma balada forte pra ir. Eu vou. Já vi tantas catarses coletivas que uma a mais não vai fazer diferença. Sempre dizemos que as pessoas têm um vazio no peito, que Jesus vai preencher esse vazio. Mas e a Graça? Mas e o Arrependimento, o ato de entender a lei que vai te matar, mas que vai te conduzir ao perdão divino? Como falar disso pras pessoas na fila da boate? Como convencê-las disso se ás vezes nem o interlocutor se convenceu?

O evento que entitula esse post é um devaneio próximo. Tal qual houveram esforços evangelísticos no Rock'n Rio, que eu quase fui, e ainda existem em bairros, eu me peguei imaginando pessoas dando folhetos dando argumentos convincentes aos crentes da fila. E alguns sairão. E esses serão desprezados por seus amigos, postos de lado pela família, preteridos no emprego... o ciclo continua. Digo que é um evento próximo por causa do Atheist Bus, em Londres. Os ateus se organizam, e logo virão nos enfrentar.

Eu não sei se estou certo, provavelmente não, mas eu prefiro ouvir as pessoas dizendo que eu sou um bom amigo, um cara que te escuta ou ao menos se esforça pra isso, do que um chato carola que vê pecado em tudo. Servir as pessoas com algo real, com um ato, é mais recompensador que ter uma síndrome de perseguição. Eu vi que o amor é um movimento, e que ele não pára. Estar lá pras pessoas é melhor que estar lá pra um prédio.

19 de abril de 2009

Fiel

Uma das qualidade de Deus é sua capacidade de cumprir o que promete. Falamos de sua fidelidade, mas pouco entendemos o que é isso.

Imagine um dia em que você está afundado na própria culpa, se mortificando por seus erros: as pessoas que enganou, humilhou, usou... se lembrando do que roubou, furtou... imagine um dia em que todos resolveram te acusar, te desmerecer. Imagine que um dia, tudo isso aconteça com você.

Num dia desses, quem é Deus? Ele é o cara que está sentado no outro lado da praça, olhando pra você com um olhar diferente. Ele sabe, melhor do que os seus acusadores, quem você é, e sabe com detalhes sórdidos o que você fez. Ele é o cara que poderia liderar aqueles homens, dando a eles mais gasolina na fogueira que armaram. Ele é fiel. Fiel o suficiente pra esperar que você vá até Ele, e que você peça que seus acusadores saiam; pois o pior acusador é o teu próprio espelho. Esse não tem remédio.

Ele aguarda. Ele está agachado na sua cômoda, vendo você chorar sozinho. Sua oração nunca vai passar do teto, pois que a está ouvindo não está lá, mas bem do seu lado. Ele é fiel. Fiel porque te deu este dia, e não fez com que tudo o que te atormenta te transforme em cinzas. Ele é fiel. Ele nunca deixou de cumprir uma promessa. Você é um cara que sabe quem é seu redentor? Ele vai cumprir o que prometeu, e você não vai ter que pedir comida pro seu vizinho. Ele é fiel.

Fiel pra esquecer o que você fez de errado. Fiel pra escrever um DANE-SE bem grande em sangue santo sobre os parágrafos onde seus pecados foram escritos. Fiel. Fiel pra te amar todos os dias. Mais  que Darwin. Fiel pra deixar que você pense por você mesmo. Ele é fiel. Fiel ao ponto de nunca ter te deixado sofrer mais do que você poderia agüentar, pois ele sabia que você iria crescer um pouco mais. O Demônio ia fazer bem pior, acredite. Mas Ele é fiel.

Olhe pra cima. Vai chover? Por que está xingando? Ele é fiel e faz essa chuva afagar a terra que dará de comer pra você e pra quem O odeia. Ele é fiel, e faz a parte Dele todos os dias, ao dar um novo dia pra você e pra mais um monte de gente. Fiel. Ele está bem aí.

Ele é fiel. Ao ponto de aceitar qualquer desqualificado no Santo dos Santos sem o queimar. Além do véu? Mas que véu? Os trapos que ficaram dependurados? Ele é fiel. Fiel pra aceitar aquele desgraçado inveterado vir chorar e se mostrar um homem pequeno perto do que ele vê Deus fazer. Fiel pra aceitar o louvor pífio e muito mais exibicionista que adorador. Fiel pra ver que o cara da boca fechada está mais perto do átrio santo que o dançarino na sua frente.

Ele é fiel.

Dia após dia, com coisas extraordinárias sem fim. A sua mão me sustenta, e não deixa que eu me ferre todos os dias. Ele nunca deixou de ser o mesmo Deus que fez coisas impressionantes no Velho testamento, nunca vai deixar de ser; a única diferença é que naquele tempo as pessoas eram muito mais dependentes de sinais que hoje. Pleno perdão ele traz, paz e a segurança de uma vida mais leve. Ele é fiel. Dia após dia. A sua mão me sustenta e me guarda. Ele é fiel. Ele é fiel. E o mais incrível de tudo. Fiel a mim.

15 de abril de 2009

Maus dias

De tempos em tempos, há uma conjunção de fatos que nos abalam emocionalmente, causando problemas internos - como angústia, tristeza, solidão e amargura - como problemas externos - falta de atenção, mau comportamento, palavras grosseiras, etc.

Eu tive uns dias assim no fim de fevereiro. Sabe quando o demoninho pena de si mesmo vem e fica falando coisas interessantes no seu ouvido, e vocÇe acaba ouvindo? É engraçado, porque ouvir esse bichinho é sempre uma massagem no ego, pois ele sempre diz que a culpa não é sua, que você nada tem a ver com o que está acontecendo, que os outros são o problema, que te induziram ao erro, que você escolheu mau porque.... e a culpa nunca é sua.

Isentar-se do seu erro é primeiro passo para uma vida tola e egoísta, onde você é o dono dos louros, sendo que também tem seus ferros. Quando eu dei ouvidos a esse bichinho, me estrepei: cometi tantos erros em meu trabalho que ainda hoje descobri um novo. E tome mais carco do chefe, e telefonemas, e consertos, e isso, e aquilo.

Aqueles foram maus dias, onde tudo parecia conspirar contra mim. Mas fui eu que conspirei contra tudo. Achar sempre que você não tem nada a ver com isso é fácil; difícil é você se importar e ir tentar consertar - seja numa nova postura, seja num novo pensamento. E deixar-se levar pela auto-comiseração gera um círculo vicioso, onde seus erros são sempre mais comuns e você nunca é o culpado.

Passou. Tanto que estou aqui, escrevendo sobre isso com a maior cara lavada. Mas está mesmo. Voltar-se para si mesmo, olhar-se e saber o que deve ser feito E FAZER gera um outro círculo vicioso; onde os erros são mais raros, e quando aparecem, são menores ou diminuídos pelas circunstâncias.

Se por um lado eu me estrepei no trabalho, me dei bem nos estudos. Minha tese de pós está de vento em popa e estou me divertindo para escrever os textos, deixar as idéias fluírem e enxergar soluções onde só haviam soluços. E isso é fruto de resoluções e postura. Senão, nem isso seria possível.

11 de abril de 2009

A Igreja do Diabo, de Machado de Assis

(Uma ação boa não apaga uma vida inteira de erros, ou um erro não apaga uma vida inteira de acertos?)

CAPITULO I - DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
- Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

CAPITULO II -  ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

CAPITULO III - A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

CAPITULO IV  - FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.